O torcedor centenário

Estadão

23 de março de 2010 | 11h09

Vovô corneteiro diz que, mesmo atrasado, título continental seria um “ótimo presentão” de aniversário

SÃO PAULO – Moysés José Ferreira tem orgulho de dizer que seu nome se escreve com Y, “como nos tempos dos antigos.” E, de fato, ele é antigo mesmo: completou 100 anos dia 28 de fevereiro.

Em sua vida centenária, já viu o mundo passar por duas guerras, enfrentar grandes crises econômicas, presidentes serem assassinados e desastres naturais matarem milhões de pessoas. Enfim, pode dizer que já viu quase tudo. Uma das poucas coisas que Moysés ainda não viu, porém, foi o seu time do coração ser campeão da Libertadores.

Agora, ele acha que chegou a hora de o Corinthians arrebatar o mais cobiçado título do continente. “Confesso que seria um ótimo presente de aniversário para os meus 100 anos”, diz.

No último dia 4, ele foi ao Pacaembu e assistiu ao 1 a 1 do seu time com o Botafogo, pela 12ª rodada do Paulista. Há muitos anos Moysés não ia a um estádio. Ele nem lembra sua última vez. Do setor Vip, não gostou do que viu. “Dizem que o Ronaldo é bom, mas ele não está fazendo nada. A bola passa perto dele e ele nem vê. Esse Roberto Carlos também não está ajudando muito a equipe”, corneta o torcedor centenário.

Otimista como todo bom corintiano, o Vovô da Fiel aposta, no entanto, que o time vai melhorar no decorrer da Libertadores. Para isso, também pede que os corintianos não deixem de apoiar. “Nossa torcida é boa. Só não gosto quando briga. Mas com força, o Corinthians pode ser campeão. Aí sim seria um presentão para um senhor de 100 anos.”

O amor pelo time alvinegro começou na década de 1930. Ele era cobrador de bonde e trabalhava numa linha que passava ao lado do Parque São Jorge. Quando o Corinthians jogava, o bonde lotava. E quando ganhava, virava palco de festa dos torcedores passageiros. “O bonde ia carregado, com 130, 140 pessoas. No trajeto, eu ia cobrando o pessoal, mas mais da metade pulava sem pagar. Aí, sobrava pra mim, que tinha de tirar a diferença do bolso”, recorda, sorrindo.

Mesmo com o Corinthians lhe causando prejuízo, ele não se importava. A festa daquela torcida o fascinava. E, sempre que podia, não perdia a chance de ir à Fazendinha ver os craques Teleco e De Maria.

Naquela época, Moysés também batia a sua bolinha nos fins de semana no bairro do Ipiranga, onde morava. Centroavante, diz que era matador. “Era difícil o jogo que eu passava em branco. Sempre fazia pelo menos um golzinho.”

E é dos tempos de atleta que ele diz que vem a receita para chegar aos 100 anos. “Não fumo, não bebo, me alimento bem e todo dia de manhã faço ginástica.” Dormir cedo também é um dos segredos. A única exceção é quando o Timão joga. “Acho que torcer para o Corinthians também me ajudou a chegar aos 100.” (Raphael Ramos)

Texto publicado no ‘Jornal da Tarde’ de 12/3/2010, em caderno especial

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