Guerreiros dos escaldantes dias modernos
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Guerreiros dos escaldantes dias modernos

andreavelar

09 de dezembro de 2010 | 11h39

Léo Sanches/Divulgação/Instituto Ayrton Senna

Sempre com assuntos fascinantes e textos brilhantes, o repórter Alessandro Lucchetti já é figurinha carimbada no Correr por aí – é dele, por exemplo, a matéria “Um talento que veio do lixo”, lembram? Hoje esse grande colega de Jornal de Tarde nos brinda com mais uma boa história. É o seu depoimento sobre o Ayrton Senna Racing Day. Ops. Desculpe. Dia da Corrida do Ayrton. Assim fica melhor mesmo. Confiram a seguir. 

Acordei todo animadão no último domingo para correr no Dia da Corrida do Ayrton Senna. Eu chamo a prova assim porque moramos no Brasil e aqui se fala português, né?

Botei o CD Chronicles, do Rush, no som do carro e Geddy Lee, o vocalista e baixista, cantou durante um longo tempo até eu conseguir estacionar perto de umas estruturas metálicas desmontadas, dentro de Interlagos. Sim, aquilo que já foi um hospitality center de Fórmula 1 continua jogado no chão do estacionamento, roubando vagas.

Já não tão animado depois de pegar muito trânsito para chegar ao José Carlos Pace, fui para o boxe 16 e esperei. Esperei, esperei e esperei, porque fui o quarto homem do revezamento da minha equipe.

Desejei ansiosamente que logo chegasse a minha oportunidade de botar meus pés naquele asfalto onde George Harrison já pisou. Se bem que ele foi recapeado várias vezes. Mas logo depois de descer o sinuoso S do Senna, comecei a desejar intensamente que aquilo tudo acabasse logo. Nunca sofri tanto correndo.

Respeitei a prova e procurei me dedicar aos treinos. Na semana anterior ao Dia do Ayrton, treinei com o amigo Adalba no domingo no Elevado do ditador cujo nome também me recuso a citar. Também não chamo o Elevado pelo nome que se popularizou, nem digo que pego o Elevado usando o nome que se popularizou, porque isso sempre gera piadinhas maliciosas. Na terça, na quinta e na sexta treinei no Parque da Água Branca, chutando galinhas, como diz o amigo Avelar.

Como não tenho o hábito de acordar cedo, estou acostumado a correr debaixo de sol forte. Mas só poderia me preparar adequadamente para enfrentar o calor daquele dia treinando no Saara. O chão é inclinado e nada apropriado para pessoas correrem. Eu ficava rezando por um pedaço de chão plano. Não é pedir muito, né?

Só sei que eu sonhava melhorar meu tempo em 10km. Meu recorde foi na Corrida do Aniversário de São Paulo (48:56). As dificuldades do Dia do Ayrton me fizeram reduzir as expectativas. Passei a duvidar se completaria aqueles 10.550m sem precisar andar. E a minha vitória foi exatamente essa: não deixei de correr em nenhum momento. Levei mais de 59 minutos, mas cheguei.

O momento mais glorioso foi quando terminei de me arrastar, abri a porta do carro, liguei o ar condicionado. Botei o CD no começo. Geddy Lee mandou ver com sua esquisita voz, já comparada à de Mickey Mouse depois de inalar gás Hélio. O canadense e eu cantamos juntos:

A modern-day warrior,

Mean, mean stride

 Today’s Tom Sawyer

Mean, mean pride

O grande batera Neil Peart escreveu essa letra pensando em nós, caros guerreiros dos dias modernos. Sim, todos os que acordaram cedo e se derreteram naquele maldito asfalto merecem cantar com orgulho, tenham ou não completado o seu trecho.

Today’s runners of

Ayrton Senna Racing Day

Mean, mean pride

Agora pode ser em inglês, concordam? Abraços a todos os guerreiros que se dispuserem a ler este troço até o fim. Alessandro Lucchetti.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.