Calango, Etrom, Noivinha, Tiririca, Elvis… Eis a festa da São Silvestre
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Calango, Etrom, Noivinha, Tiririca, Elvis… Eis a festa da São Silvestre

andreavelar

06 de janeiro de 2011 | 22h00

Daniel Teixeira/AE

Durante essa semana de folga no Principado de Caraguatatuba, aprendi uma do casseta com o humorista Claudio Manoel. Em sua coluna na revista Alfa, ele pergunta se “A felicidade é possível sem um celular?”. O questionamento e o celular são apenas símbolos da certeza de que tecnologia demais atrapalha nas férias. Alguém vai dizer que não dá para viver sem, mas tentei deixar de lado tudo que era maravilha eletrônica, inclusive, computador e tão logo e-mail. Razão pela qual só agora, de volta ao mundo virtual (e real), vi a contribuição do colega Alessandro Lucchetti, dono dos melhores textos deste humilde blog. Divirtam-se e mandem também seus relatos da São Silvestre.

Eu havia lido uma matéria no Ig dando conta de que um tal de Calango ia correr a São Silvestre de marcha-a-ré. Mas esse maluco não me impressionou nem um pouco. Deixei para trás o homem que corre ao contrário no Elevado e logo sua imagem bizarra de segunda mão deixou a minha mente.

Sim, porque foi Etrom o primeiro cara a correr a SS de ré, pelo que me consta, e isso já há alguns anos. Tive a infelicidade de ter que cobrir a corrida naquele ano, e não corrê-la, para o Diário. Não sei se para o Diário Popular ou já para o de São Paulo.

Como sempre, tinha que encontrar alguns personagens para fazer a maldita matéria de ambiente. Não aguentava mais entrevistar o Noivinha, que corre todo ano de vestido branco e sempre negou que fosse gay. Eu infelizmente já cobri também a São Silvestre Gay, e vi o Noivinha por lá. Mas cobri porque me pautaram, e ainda tive que aguentar as piadinhas da Eliária, a fotógrafa, na sua voz dos infernos. Maldito dia 1º foi aquele! O saudoso Paulo Bravos imitava bem demais a Eliária…Mas e o Noivinha? O que tava fazendo na SSG? Quem me apresenta uma justificativa plausível?

O Tiririca Cover já não tinha nada a dizer aos nossos leitores. O próprio Tiririca original estava decadente. “Florentina” já não era tocada nas rádios, e dei como certos a decadência e o rápido ostracismo daquele cara. Cá entre nós, a gente acabava rindo meio sem graça daquele sujeito, um pouco por comiseração, porque ele era um palhaço pobre. Eu tinha um pouco de dó do Tiririca. O único palhaço que me dava mais pena é aquele famoso, do quadro, com uma lágrima em cima da bochecha pintada. Quem imaginava que o danado ia ressurgir na última campanha eleitoral?

O Elvis Português também não iria ganhar moral às minhas custas. Sempre simpatizei com a Lusa, mas um dia fui cobrir um jogo no Canindé, nos tempos do Lance!, e me deram um chute na canela, chiando que o jornal dava pouco espaço pra Portuguesa. Eu não me chamo WMJ nem Leão Serva ou André Fontenelle. Esses caras é que decidiam o que entrava no jornal. O pessoal da Leões da Fabulosa teria que dar uma bica neles. Mas as magras canelinhas do Fonte estavam protegidas embaixo do mesão, curtindo um ar-condicionado. Foda-me eu.

Gosto muito do Elvis, mas aquele que comia hambúrgueres, não bolinhos de bacalhau. Não, nem mesmo Roberto Leal, estivesse ele de calções e bandeira rubro-verde nas mãos, seria entrevistado por mim naquele dia.

Eis que então vejo um cara que parecia um lutador de luta-livre, meio lembrando o Serdan, mas com um aspecto de demônio, uns chifres, um tridente, talvez um certo cheiro de enxofre. E na fivela do cinto lia-se Etrom. Fiz a versão mais polida da pergunta “Que porra é essa?” e o candidato a Satanás me diz que Etrom é morte ao contrário. “E por que você escreveu isso?”, perguntei. “Porque vou correr de costas”, respondeu o demônio. “Vai o quê? Os 15km??”. Esse ganhou espaço. Até hoje não consigo entender como um cara consegue correr de costas no meio de 21 mil pessoas.

O que gostei da SS de 2010 foi do nível dos super-heróis. Superman e Batman estão muito manjados, né? Curti ver o Wolverine e principalmente o grande Space Ghost. Mas o que mais me impressionou foi o Homem de Ferro baseado naquele do cinema. O cara caprichou na fantasia. Eu botaria uma engenhoca ligada num MP3 tocando Iron Man, do Black Sabbath.

Quem mandou bem também foi um cara que carregou uma bandeira enorme na qual expressava seu repúdio ao preconceito contra os nordestinos. Eu planejei parabenizar o cara quando fosse ultrapassá-lo na Brigadeiro, mas um gaiato na calçada gritou que aquele dia não era de parada gay. O rapaz ficou bravo, até parou para retrucar. Tive que seguir adiante, porque se parasse ali não voltaria a correr mais. Mas deixo aqui o meu incentivo ao cara, a gente viu manifestações preconceituosas contra os nordestinos após a vitória da Dilma, e isso é imperdoável.

Na Rio Branco uma dessas patricinhas que descobriram a corrida há pouco tempo estrilava, toda estressadinha: “Precisa ter muita paciência para correr aqui”, reclamava numa voz fininha. Sim, o espaço é curto para tantas pernas, a gente é fechado, acaba sobrando cotovelo também. Mas o que faz a magia da São Silvestre são todos esses malucos, é o povão que incentiva a gente e brinca com os malucos fantasiados, é a tiazinha que ajuda a gente dando um banho de esguicho na Alameda Olga. Quem quiser fazer tempo tem trocentas outras provas durante o calendário. A SS é dos malucos!

Recomendo menos Gatorade e mais cerveja para quem corre essa prova mal-humorado. Pode até desidratar, mas a gente fica balão, mais leve, mais no clima. Não vejo muito próposito em desembestar rapidamente e não ver toda a festa que se faz lá atrás. Corri em 83 minutos, e isso significa que curti três minutos a menos de SS do que em 2009. Tenho dó do grande Marílson, que curtiu só 44. Mas ele tem agora o papel de ser o grande ídolo também do garoto Miguel, que inicia sua correria em fevereiro. Como eu não posso correr em 44, estou pensando em correr a próxima com uma máscara do Pablo, do Backyardigans, que por enquanto é o maior ídolo do meu filho, o Angelo.

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