Corrida pela periferia
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Corrida pela periferia

andreavelar

23 de abril de 2011 | 17h23

Divulgação/Nike

A triste rotina de um lugar que concentra o terceiro maior número de homicídios em São Paulo está mudando. E o esporte é agente dessa transformação. O projeto Nike Vida Corrida comemorou nesse domingo, no Capão Redondo, extremo sul da capital, 12 anos de atividade e, de presente, foi anunciada a construção de um centro esportivo e cultural para a comunidade.

Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública para o primeiro trimestre de 2011, a tendência histórica de assassinatos se manteve, apesar de taxas menores em relação aos anos anteriores. Os distritos do Parque Santo Antônio (17 vítimas), Campo Limpo (11) e Capão Redondo (9), todos na zona sul, ocupam os três primeiros lugares no ranking de homicídios. Para ficar apenas no local da etapa do Circuito Popular de Corridas, ele ainda registrou 623 casos de roubo no período.

“Meu filho e meu marido foram assassinados aqui. Com o esporte, resolvi fazer uma mudança social. As únicas coisas que tinha para oferecer eram meus pés e meu coração. Ainda mais quando descobri que quem tinha assassinado meu filho era praticamente uma criança. Acredito que se essa criança tivesse um projeto como esse, a coisa seria diferente”, explicou emocionada Neide Santos, fundadora do projeto.

Pela janela das casinhas, simples, algumas de alvenaria, certeza que a mudança pede passagem. Ao longo dos cinco quilômetros de corrida e dois quilômetros e meio de caminhada, gente debruçada desejando que aqueles dois mil atletas colocassem a violência para correr dali.

A falta de espaço para tanta gente não era problema. Nas ruas estreitas, de subidas e descidas intermináveis, dava para perceber que o estigma do lugar, com seu naturalismo escancarado, deve ser outro que não a violência: a amizade entre as pessoas, os “manos” – sim, esse é tema do filme Bróder, que estreia neste fim de semana. Um lugar em que todo mundo se conhece pelo nome e não pelo que faz. A própria corrida tinha esse intuito. Trocar experiências de diferentes cantos e assim promover o respeito.

Era preciso mesmo acordar cedo e sair do alto das Perdizes. A motivação foi a corrida, mas também pode ser a vontade de mudar não o mundo, mas uma pequena e dura realidade ao redor do Parque Santo Dias.

O centro comunitário e esportivo ficará pronto em um ano e contará com um terreno de 2.100 metros quadrados, doado pela Prefeitura de São Paulo em parceria com a Arquitecture for Humanity. A ONG é representada pela arquiteta Carla Dal Mas que terá a responsabilidade de traduzir as necessidades da comunidade.

“É uma fusão de um centro esportivo e cultural. Vejo uma diferença muito grande entre os jovens que participam e não participam do projeto. Quem sabe menos jovem vão desenvolvendo a violência. Quem sabe a sede não fique ainda mas unida”, explicou Carla.

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