Das quentinhas ao pódio
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Das quentinhas ao pódio

José João da Silva tinha 17 anos quando resolveu participar de corridas de rua. Foi por acaso. Era o último dia de 1973 e ele tentava entregar a derradeira quentinha da noite. Mas o jovem, recém-chegado de Bezerros, Pernambuco, foi impedido de fazer seu trabalho por causa da São Silvestre. Ao Jornal da Tarde, relembrou o início de carreira e os 30 anos da sua primeira conquista da mais tradicional prova do atletismo brasileiro.

andreavelar

28 de dezembro de 2010 | 01h10

José João da Silva tinha 17 anos quando resolveu participar de corridas de rua. Foi por acaso. Era o último dia de 1973 e ele tentava entregar a derradeira quentinha da noite. Mas o jovem, recém-chegado de Bezerros, Pernambuco, foi impedido de fazer seu trabalho por causa da São Silvestre. Ao Jornal da Tarde, relembrou o início de carreira e os 30 anos da sua primeira conquista da mais tradicional prova do atletismo brasileiro.

“Precisava atravessar a Paulista para fazer entrega no Hospital Matarazzo, mas fui barrado por um policial. Não podia passar da esquina com a Pamplona. Fiquei sem entender e logo vi um monte de pessoas correndo. Era a São Silvestre, a coisa mais maravilhosa do mundo”, conta.

O menino achou aquilo lindo e meteu na cabeça que deveria participar. De volta à cantina Nova Romeu, ainda trêmulo e emocionado pela experiência que havia vivenciado, contou aos patrões Radamés e Romeu Pelliciari o ocorrido. Pensou que fosse perder o emprego, mas nem bronca tomou, e acabou sendo incentivado a correr um dia.

Com o aval dos chefes, ele ainda esperou meses para procurar ajuda, ser federado e amadurecer a ideia de participar da SS. Em sua cabeça, estava em São Paulo apenas para concluir o colegial e voltar mais letrado para sua terra. Nesse período, passou a correr por conta própria e até descobriu um lugar legal e aberto ao público onde pudesse fazer isso: o Parque do Ibirapuera.

“Tomei coragem, subi na minha bicicleta e em 1975 fui parar no Esporte Clube Pinheiros. Bati no portão e dei sorte de ser atendido pelo professor Carlos Gomes Ventura, o Carlão, que cuidava dos maratonistas.”

Apesar de não ter noção da corrida, e ainda correr feio, segundo Carlão, José João tinha habilidade e persistência. Não demorou para os primeiros frutos começarem a aparecer em pódios e recordes pela América do Sul.

Foi nessa época que o São Paulo apareceu e lhe ofereceu um “polimento” na carreira. Correr então passou a ser sua vida.

Sete anos depois de ser barrado por aquele policial na Paulista, José João estava pronto para acabar com um jejum de 34 anos sem vitória brasileira na São Silvestre – Sebastião Alves Monteiro venceu em 1945 e 1946, ainda nos primeiros anos da fase internacional da prova, quando apenas atletas sul-americanos eram convidados a participar.

A expectativa pelo título naquele ano de 1980 era grande e o incentivo só aumentava. “Naquela época a gente passava a virada do ano correndo (a prova mudou seu horário para o início da tarde em 1989). Conhecia bem o percurso (então com nove quilômetros, seis a menos que hoje) e fui embalado em cada esquina”, relembra. “Vi as luzes da Paulista e o meu técnico gritando na Kombi: ‘o português (Fernando Mamede) não é de nada. Passa o português que a vitória é sua’. Passei e aí tive a certeza de que fiz certo em trocar as quentinhas pelas corridas.”

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