Desculpas ao Bin Laden
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Desculpas ao Bin Laden

andreavelar

28 de fevereiro de 2011 | 11h07

Ronaldo Milagres/ZDL

Alessandro Lucchetti

Eu podia estar muito mais feliz por ter corrido minha primeira meia maratona inteira, nesse domingo, em São Paulo. Claro que é uma realização, e ainda consegui atingir meu objetivo mais modesto, que era correr os 21,097km em menos de duas horas. Não estou exultante porque fui meio babaca. Sempre gostei de corredores educados, que te ultrapassam tomando cuidado para evitar esbarrões. Um deles chegou a me pedir licença. Dei uma pequena desviada e o cara passou tranquilo e me agradeceu. Mas eu não mantive esse nível de camaradagem e de bom procedimento.

Explico melhor: para me motivar quando fico mais cansado e vagaroso, eu escolho a cada prova um ou mais corredores-referência. Na prova do aniversário do Juventus de 2009, por exemplo, fui ultrapassado por um experiente corredor que chamo de o “tiozão da Scania”, porque ele sempre corre com uma camisa do clube de corredores dessa empresa. Naquela corrida na Mooca, eu me esforcei para aumentar meu ritmo e ultrapassei o forte tiozão a poucos metros da chegada. Sinto que, ao forçar o meu ritmo para me equiparar ou ultrapassar esses corredores-referência, eu estou elevando o meu nível.

Bem, na Meia de São Paulo, neste domingo, 27 de fevereiro, ultrapassei o tiozão da montadora sueca de caminhões logo no início da prova. Sem desafios por quilômetros, encontrei um na Duque de Caxias: um barbudo que foi saudado por garotas de um ônibus como “Bin Laden”. Ultrapassei o barbudo mais ou menos na altura da praça Duque de Caxias, onde uma versão em bronze do patrono do glorioso Exército Brasileiro ergue uma espada em direção aos céus. Li uma vez que Caxias jogava corpos de soldados dizimados pela cólera em águas paraguaias. Teria praticado uma espécie de proto-guerra química durante a Guerra do Paraguai. Além disso, sufocou com brutalidade movimentos populares na época do Império. Seria tão herói assim?

Bem, fui correndo como um verdadeiro herói pelas ruas de São Paulo. Adorei passar pela Estação da Luz, Estação Júlio Prestes e pelo Bom Retiro. Curti especialmente passar em frente a uma espécie de mosteiro de franciscanos na Conselheiro Nébias. Como sempre faço quando me deparo com religiosos, tratei de fazer com os dedos o sinal do capeta. Segundo o documentário “Metal”, do cientista social canadense Sam Dunn, teria sido Ronnie James Dio o inventor do gesto. Grande Dio!  Eu me orgulho de ter visto o último show dele no Brasil, no qual cantou como integrante do Heaven and Hell (ou Black Sabbath).

Bom, fui suando e correndo num ritmo honroso até o km 15, o máximo que já havia corrido em provas que finalizei, as São Silvestre de 2009 e 2010.

Face ao desafio de cumprir os seis quilômetros restantes sob temperatura incômoda, tratei de diminuir a velocidade. Tentei transformar um corredor paraolímpico, uma espécie de Oscar Pistorius nacional, numa referência. Mas o cara era bom demais. Fiquei feliz de terminar bem depois desse verdadeiro herói.

Consegui ao menos ultrapassar um deficiente visual que tinha o auxílio de um corredor-guia. Quando já estava contornando a praça Charles Miller, eis que vejo o sósia do terrorista a ponto de me ultrapassar. Me atirei no espaço vago na frente dele, o que obrigou o barbudo a dar uma freada. Ele não gostou, mas foi educado o suficiente para não me xingar. “Pô, sacanagem!”, disse o barbudão lentamente, provavelmente um hippongo daqueles que curtem Raul Seixas Já eu não perdi a oportunidade de xingá-lo.

Fui babaca, Bin. Desculpe. Tomei uma cerveja barata, refleti e resolvi lhe pedir desculpas.

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