Marilson em ponto de bala
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Marilson em ponto de bala

andreavelar

18 de outubro de 2010 | 15h25

Chip East/Reuters - 2/11/2009

O caminho Marilson Gomes dos Santos conhece literalmente muito bem. Duas vezes campeão da Maratona de Nova York, o fundista brasileiro até tenta esconder o jogo, mas deixa escapar que está mais bem preparado do que em 2006 e 2008. Há duas semanas em Campos do Jordão, ele treina os últimos acertos para a prova de 7 de novembro, pelas ruas da capital do mundo.

Nova York, a última das Maiores Maratonas do Mundo (junto com Boston, Londres, Berlim e Chicago), é o sonho dos principais corredores. Mas Marilson leva com tranquilidade esses dias que antecedem a prova. Ansioso mesmo ele está pelo nascimento da primeira filha, com a também atleta Juliana. Confira a íntegra da entrevista, publicada na edição desta segunda-feira, no Jornal da Tarde.

Domingo, antes das onze da manhã, o próprio Correr por aí já correu e ainda passou por diversas avenidas e parques com outros amadores praticando o esporte. Como você, profissional, vê essa invasão de novos atletas pelas ruas?

Isso é a melhor coisa do mundo. Essa prática de corrida de vocês é até mais saudável que a nossa. A gente está o tempo todo no limite, convivendo com lesões. Não que vocês não possam ter, mas o risco é bem menor. Sem contar o bem-estar de acordar cedo, quando as pessoas levantam mesmo onze horas. O duro é que a família até hoje acha estranho não aproveitar o domingão para fazer uma loucura dessas de treino. Eles sabem que nada vem fácil na corrida. Não existe milagre. Na corrida não existe o Romário que não gosta de treinar – o cara pode até se tornar um Romário, mas com muito treino.

E, daqui a pouco, mais uma pessoa na família vai achar estranho também, já que a sua mulher, Juliana, está grávida de cinco meses de uma menina.

Pois é… É uma fase nova da vida. A gente está aproveitando muito bem o momento e estamos na expectativa pelo nascimento do nosso primeiro filho. Minha mulher está parada, mas vai comigo em alguns treinos, faz a parte mais de organização, cuida da comida e ajuda a não me desligar da corrida.

Antes da Maratona de Nova York, a última do calendário de Maiores Maratonas do Mundo, você ficará quatro semanas em Campos do Jordão treinando e pensando exclusivamente na prova. Sente que é o seu melhor ano de preparação?

Lá é um lugar que gosto muito de treinar. É um pouco mais alto, o que já facilita na preparação. Além disso, a gente descansa, tem um clima ameno e você tem a chance de fazer um treino mais forte e não ter tanta dificuldade para se recuperar. Descansa e dorme tranquilo e a musculatura já está pronta para o dia seguinte. Tenho feito de tudo por lá: academia, treino na rua, na estrada de terra, só a pista que não é muito boa e aí tenho que descer para Taubaté para realizar os tiros de 400, 500, 1000 e 2000 metros.

Mas seu técnico, Adauto Domingues, diz que você já está melhor do que quando ganhou a prova em 2006 e 2008.

Nova York é o grande objetivo. Lá é uma prova sempre forte e pode acontecer de tudo. Independente do treino, do tempo do cara, do nome de cada um, o que conta é o momento. É uma prova ainda mais difícil, diferente de outras maratonas como Chicago e Berlim, por exemplo. Não é uma prova totalmente plana e isso torna mais dificultoso e desafia a adaptação de cada atleta.

As subidas e descidas também são adversárias, mas e entre os atletas? O etíope Haile Gebrselassie já falou que vai participar.

Além do Haile, apesar de ele ser recordista em maratona, bicampeão em Berlim, tem uma série de outros atletas que podem levar a prova no dia. Vai depender mesmo do momento. O Haile tem, se não me engano, 2h03min58 (o recorde oficial é de 2h03min59), mas ele pode pagar caro pelo percurso. Tem que esperar e ver o que vai acontecer. O importante é ficar atento a esse tipo de situação e sentir o momento de cada um.

Mas pelo menos você não vem sofrendo com lesão esse ano, não? Em 2009, teve que abandonar a Nova York pouco depois da metade da prova.

Convivi com uma bursite no calcanhar esquerdo o ano passado quase que inteiro. Melhorava, voltava e a lesão sempre me atrapalhava nos treinamentos. Devido a isso, tive até alguns problemas de não chegar nas competições como eu queria, não conseguia alcançar o ápice. Mas existem lesões e lesões. As piores são as que te derrubam mesmo, até psicologicamente, que você tem que saber lidar também.

Existe prevenção ou é mais um trabalho de recuperação?

A gente chama de recuperação ativa, com trote, piscina, massagem. A alimentação também ajuda muito nesse ponto. Não sou fanático pelo treino, se o Adauto falar para ficar um tempo em casa, vou ficar.

Sua parceira com o Adauto é de muito sucesso e vem de longa data. Além da parte técnica, qual o papel dele na sua carreira?

Ele soube me encaminhar mesmo. Me guiou desde os 15 anos, quando vim de Brasília para São Paulo, nas categorias de base. Ele soube lapidar até o ponto que estou hoje. Todos os meus resultados foram devido a esse tipo de orientação, de sequencia pedagógica que ele teve comigo. Soube lidar com situações de criança também. Não tinha noção nenhuma de corrida, queria fazer até mais do que ele pedia. E, realmente, tempos depois, vim a descobrir que ele estava mais do que certo.

Você pensa em buscar seu terceiro título da São Silvestre neste ano?

São Silvestre a gente pensa em voltar, mas depende muito de como vai ser a recuperação da maratona. Tenho que estar íntegro, não adianta correr só para falar que o Marilson está na prova. Não adianta. Se me recuperar bem, estarei em 31 de dezembro na Paulista.

Terminar Nova York esgotado é necessariamente bom?

Uma maratona daquela dificilmente você não termina esgotado (risos). Se nas outras você já termina esgotado, em Nova York então…

Então dá para torcer para você não participar da São Silvestre para ter um bom resultado em Nova York?

Também não é assim (risos). Torce para que eu possa me recuperar bem, rápido. Que eu vou terminar esgotado, eu vou terminar. Agora é torcer para que possa correr também a São Silvestre.

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