Um talento que veio do lixo
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Um talento que veio do lixo

andreavelar

30 de novembro de 2010 | 12h24

Tiago Queiroz/AE

Matéria publicada na edição desta terça-feira do Jornal da Tarde pelo repórter Alessandro Lucchetti.

Um forte cutucão da mulher fez Solonei Rocha da Silva acordar assustado no dia da Corrida de Pedestres de São Francisco de Assis, evento já tradicional de Penápolis. Ela havia acabado de ver em sonho que ele chegaria em terceiro entre os corredores da cidade, o que renderia um prêmio de R$ 100. Na véspera, a mulher não o levou a sério quando ouviu que ele pensava em correr e ainda lhe deu bronca. “Você está é maluco. Só joga bola, como é que vai chegar na frente do pessoal que treina pra isso?”.

O peladeiro acreditou no sonho, vestiu às pressas o calção que usava para jogar bola e um tênis de passeio. Até então, sua única experiência em provas de rua havia sido na primeira corrida Yasunaga, uma volta de 3,3 km em torno do curtume onde trabalhava. Como correu com chuteiras, no dia seguinte sentia tantas dores nas pernas que não conseguia trabalhar.

Solonei cobiçava o prêmio oferecido ao terceiro melhor penapolense. Havia decidido sair da casa da mãe para morar com a mulher numa casa alugada e precisava de R$ 80 para comprar talheres. Mesmo parando uma vez para fazer um inadiável xixi, o objetivo, o degrau mais baixo do pódio dos locais, foi atingido. Depois de superar as dores no baço que acometem corredores inexperientes, embalou e tentou buscar o mais rápido da cidade, Adejamir, o Mica. Não foi possível, mas aquele pódio foi o início de uma boa carreira.

Sem condições de parar de trabalhar para correr, Solonei prestou um concurso para trabalhar na coleta de lixo de Penápolis. Foi aprovado e passou a usar as corridas atrás do caminhão e as fugas dos cachorros como treinamento. Deu certo. No ano passado, fez um teste em Bragança Paulista para integrar a equipe do Pinheiros. Foi aprovado, mas como não conseguiu uma licença não remunerada para preservar a vaga conquistada em concurso, adiou o projeto por um ano. De tanto tentar, acabou conseguindo o apoio do prefeito da cidade. Com a garantia de que teria seu emprego de volta caso a carreira não desse certo, mudou-se para Bragança.

Em novembro do ano passado, chegou a ter dúvidas de seu talento ao correr os 10 km da Prova da Assembleia Legislativa de São Paulo em 30min47, o que lhe valeu o sexto lugar. No mesmo mês, o quinto lugar na Corrida Pan-Americana, no Rio, com 30min20, deu a ele a indicação de que estava no caminho certo. Ficou atrás apenas de um brasileiro e de três quenianos.

Sem mordida

Em abril deste ano, o tempo obtido na vitoriosa participação na Maratona de Porto Alegre (2h15min45) o colocou na segunda colocação do ranking brasileiro da prova, atrás apenas de Marílson Gomes do Santos, que tem no currículo duas vitórias na Maratona de Nova York. Uma lesão, no entanto, o impediu de correr os 42,195 km de Amsterdã. Para piorar, Jean Carlos da Silva correu na Holanda em 2h15min24 e o jogou para a terceira colocação entre os brasileiros. Mas nada que desanime um corredor que nunca foi pego por cachorro algum.

Ele deixou um grupo de fiéis torcedores em Penápolis, os companheiros do caminhão de lixo, que sempre lhe telefonam para dar força. “Acham que a gente não é feliz como coletor, mas nossa autoestima é muito grande. Damos muita risada debaixo de sol e de chuva, o que nos une bastante.”

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.