A sorte está lançada

A sorte está lançada

Confira entrevista exclusiva com Daniel Ferreira do Nascimento, recordista Sul-Americano da maratona

SILVIA HERRERA

03 de julho de 2022 | 10h12

O sonho de todo garoto brasileiro é jogar bola, ser craque do futebol e assim proporcionar uma vida confortável para todos de sua família. Na Jamaica é ser velocista. E no Quênia, maratonista. Daniel Ferreira do Nascimento, Danielzinho, também queria ser o Neymar, mas era infinitamente mais rápido do que o Menino da Vila e encontrou no atletismo uma oportunidade. Em parte, verdade, como são várias as modalidades ele ficava na eterna dúvida de qual escolher. Chegou a largar tudo e voltar para a roça, em Paraguaçu Paulista (SP). No entanto, por incentivo do irmão voltou ao atletismo, focou nas longas distância. E como Gaius Julius, convicto da vitória e do potencial de seu exército,  tomou a importante decisão de atravessar o Rio Rubicão. Quando disse a célebre frase: “A sorte está lançada” – ele não sabia que daria certo e se tornaria  o primeiro Julio César do Império Romano. No caso de Daniel, a travessia do Rubicão foi atravessar o Atlântico, se mudar para o Quênia para treinar para ser maratonista aos 21 anos, modalidade na qual os atletas da elite decidem migrar mais tarde.

Daniel Ferreira do Nascimento se mudou para o Quênia em abril de 2021

Ele treina em Kaptagat. Correr na mesma terra batida que tocam os pés da lenda vida Eliud Kipchoge, único ser humano a quebrar a barreira das 2 horas na maratona, atual recordista mundial e bicampeão olímpico, faz toda a diferença.

Desde sua chegada ao Quênia, em abril de 2021, Daniel conquistou em sua primeira maratona a vaga olímpica, competiu na olimpíada de Tóquio, foi segundo na São Silvestre. Este ano, bateu o recorde brasileiro e sul-americano da modalidade, aos 23 anos baixando em 2 minutos a marca de Ronaldo da Costa, estabelecida em 1998. Foi campeão da Meia do Rio e, na semana seguinte, campeão do Troféu Brasil nos 10 mil metros. E vai representar o Brasil em julho, na Maratona, no 18º Mundial de Atletismo, que será em Oregon (EUA).  As chances de um bom resultado são grandes. Será dia 17 de julho, em um circuito de 14km, que passará entre Eugene e Springfield. Largada e chegada em frente ao Estádio Autzen, da Universidade de Oregon. O local, com capacidade para 54 mil pessoas, é sede do  Oregon Ducks (time universitário de futebol americano).

No pulso esquerdo, a pulseira do Ayrton Senna, que ele usa desde a Olimpíada. O campeão brasileiro de F1, que Danilezinho nunca viu correr ao vivo, é seu espelho dentro e fora das pistas. Em rápida passagem ao Brasil, ele concedeu entrevista exclusiva para o Blog Corrida para Todos,  que contou com o apoio da Adidas, na véspera da Meia do Rio.

O Quênia foi um divisor de águas na sua vida?

Daniel Ferreira do Nascimento – Nas últimas olimpíadas e mundiais sempre observava o destaque absoluto dos atletas africanos no atletismo. O que se repetia nos recordes mundiais. E aí surgiu esse desejo, esse sonho: Imagina se eu fosse treinar no Quênia, como seria? Teria que mudar de time, de rotina? Abandonar a família no Brasil? Pesei tudo na balança e decidi investir no meu potencial. E essa decisão foi em um momento complicado, no meio da pandemia. Faltava pouco tempo para os Jogos Olímpicos (de Tóquio), que a edição de 2020 foi postergada para 2021, e surgiu uma possibilidade de arriscar e tentar uma vaga para fazer o índice olímpico. A base de tudo isso foi querer evoluir. É muito importante ressaltar essa parte, a vontade de querer buscar a evolução. Imagina um jovem de 22 anos treinando na Casa dos Campeões? A África toda respira atletismo. Lá eu poderia amadurecer muito mais no esporte e adquirir outras qualidades treinando com os quenianos. Ter mais calma e tranquilidade treinando no meio da natureza, tendo acesso a uma alimentação natural.

Como foi a adaptação?

Daniel Ferreira do Nascimento – Já tinha treinado em altitude, quando cheguei no Quênia (2.500m de altitude) o que mais dificultou não foi isso – mas entrar no ritmo de treino deles. O ritmo dos treinamentos é bem pesado, bem intenso, mas se você acredita no seu sonho, enquanto não conseguir realizar não se dá por completo. Estava em busca de resultados, melhorar as minhas marcas, e sabia que lá era o lugar certo. E quando você descobre que está no lugar certo você se dá conta que as coisas começam acontecer.

Sua namorada, a atleta Graziele Zarri, se mudou para o Quênia também?

Daniel Ferreira do Nascimento – Sim, logo após a São Silvestre (2º lugar – 45:09). Na prova ela foi sétima colocada, quinta brasileira (55:23), e ficou chateada com o resultado. Disse para ela: Se você quer evoluir tem que treinar com os melhores. Se você for para o Quênia vai aprender muita coisa, vai desenvolver. Mas você tem que querer.  Por exemplo, o suíço Julien Wanders que treina em Iten desde a adolescência. Ele foi um dos primeiros atletas a se mudar para o Quênia. Ele é a minha inspiração, um cara não africano que foi pra lá com 17 anos, evoluiu muito e bateu o recorde europeu da meia maratona e dos 10km.

Onde você mora? É perto do local dos treinos?

Daniel Ferreira do Nascimento – Moro perto ao training camp, que fica em Kaptagat. Lá treinam os melhores maratonistas do mundo. Cada dia que você acorda lá é uma alegria. Por exemplo, no meu grupo de treino são 40 pessoas. Para onde você olha tem alguém correndo, não tem como isso não te motivar, ainda mais para quem ama o atletismo como eu.

“SOU MUITO

DETALHISTA”

Ouvi dizer que toda quinta-feira há um treino que todos podem participar, e cada um corre o tanto que aguentar. Como é isso?

Daniel Ferreira do Nascimento – É o longão, e quem não suporta o ritmo vai ficando pra trás. Esses vão se juntando e fazem um segundo grupo para tentar retomar o ritmo. Às vezes, eles fazem 30km em ritmo de prova, quem não aguenta acaba ficando e o grupo vai embora.

No ano passado você assinou um contrato com a Adidas, como foram os bastidores?

Daniel Ferreira do Nascimento – A Adidas já estava de olho em mim há muito tempo, desde antes minha primeira maratona (em Lima, quando conquistou o índice olímpico). Eles só não chegaram mais perto porque até então eu era apoiado pela Nike. Logo após correr a 02:09, em Lima, um manager da Adidas foi no Quênia falar comigo. Era Gianni Demadonna (agente da recordista mundial Peres Jepchirchir) e assinei com a Adidas Internacional. Depois da São Silvestre, pedi para ser atendido pela Adidas Brasil, para ter um cuidado especial.

Você guardou o tênis que calçou em Seul, quando quebrou o recorde sul-americano – 02:04: 51, em 15 de abril deste ano?

Daniel Ferreira do Nascimento – Ele está guardado sim, mas não comigo. Doei para a Adidas. Também doei o da minha segunda maratona, o Adizero Adios Pro 1.0, que corri em Valência (02:06:11) . E o Adios Pro 2.0  do recorde. Doei para o museu da sede global da Adidas, na Alemanha. Todos os tênis dos atletas Adidas que fizeram história estão lá. E agora tem dois pares de um brasileiro.

Na véspera desse recorde, como estava sua cabeça? 

Daniel Ferreira do Nascimento – O treinamento no Quênia me deixou mais confiante. Antes de desembarcar na Coreia do Sul eu estava muito sério. Eu era o único representante da América do Sul lá. Mas conhecia vários atletas que treinavam comigo no Quênia, e próximo a eles me senti em casa. Senti que poderia bater o recorde na coletiva de imprensa, um dia antes da maratona. Quando um jornalista me perguntou, qual a expectativa para a prova? Respondi com convicção que iria para 02:05, já que em Valência eu fiquei  muito próximo de bater o recorde de Ronaldo da Costa. Mas na Espanha cometi alguns erros, que foram concertados, o que poderia ajudar na minha evolução. E na prova o resultado foi ainda melhor do que minha resposta na coletiva. A palavra tem muito poder e acabei correndo mais rápido do que eu esperava.

Como foi a logística para você poder vir correr a Meia do Rio?

Daniel Ferreira do Nascimento – Sou muito detalhista com tudo o que se refere minha carreira. Vejo onde errei, o que acertei, como posso evoluir  – ganhando ou perdendo. Percebi que cada vez que completo uma maratona, faço minha melhor meia. Meu recorde pessoal na meia é 01:04. Em Valência passei os 21km em 01:03. Em Seul passei em 01:02. E conversei com o time Adidas que queria muito competir a Meia do Rio. Minha expectativa é correr para bater o recorde da prova.  Treinei com o protótipo do Adios 3.0, que está muito bom mesmo. E vou com o 2.0. (Ele venceu, fez o RP, mas o vento contra impediu o recorde da prova, finalizou em primeiro com o tempo de 01:01:03).

 

 

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