Alice Milliat, “mãe” do esporte feminino

Alice Milliat, “mãe” do esporte feminino

Ela lutou muito para incluir as mulheres nas competições olímpicas

SILVIA HERRERA

10 de maio de 2020 | 10h37

Nadadora, jogadora de hóquei e remadora, Alice Joséphine Marie Milliat fez “a” diferença no esporte feminino. E neste Dia das Mães, nossa homenagem vai para ela, que lutou durante toda sua vida para incluir o esporte feminino nas competições olímpicas.  Nascida há 136 anos, no dia 5 de maio em Nantes (França), ela argumentava que o “esporte ajuda a revelar a personalidade e dar mais confiança às jovens”. #ellessontsport

Alice Milliat começou a remar na Inglaterra

A primeira Olimpíada dos tempos modernos, Atenas- 1896,  foi vetada às mulheres, que só poderiam assistir. Na segunda foram aceitas apenas no tênis e no golfe, em provas extra-oficiais sem premiação. Em Saint Louis-1904  foi inserido o arco e flecha e como demonstração a ginástica. Em Londres-1908, as participações femininas foram no tênis, patinação no gelo, arco e flecha. Na modalidade barco a vela, as equipes eram mistas, as mulheres do time eram esposas dos atletas. Em Estocolmo- 1912 foi incluída a natação. Em 1916 não houve Olimpíada devido a 1ª Guerra Mundial.

Alice era professora, intérprete (francês e inglês), taquigrafa e esportista. Era membro efetiva da Fémina Sport, um dos primeiros clubes esportivos femininos do mundo aberto em 1912, do qual se tornou presidente em 1915. Ela também escrevia artigos sobre o tema para uma publicação francesa chamada “Auto”.  Alice era uma remadora habilidosa, capaz de remar 80 km em menos de 12 horas. Entrou para a Federação do Esporte Feminino, criada em 1917 com a junção de vários clubes esportivos femininos e assumiu a liderança da entidade em 1919, tornando-a internacional.  A Federação organizava várias competições femininas de futebol (o primeiro campeonato francês de mulheres foi criado em 1920), atletismo, basquete e hóquei. Ela teria morado na Inglaterra no começo do século, onde teria se apaixonado por esportes, principalmente remo e futebol.

Em 1919, a pioneira francesa  solicitou ao Comitê Olímpico Internacional (COI) que as mulheres fossem aceitas no atletismo. No entanto, teve como resposta um sólido NÃO. E em Antuérpia- 1920 – só participaram 65 mulheres  (2.500 homens). Isso a motivou ainda mais para insistir e como estratégia lançou os  “Jogos das Mulheres”. Seu objetivo real não era criar uma competição paralela perene às Olimpíadas, mas provar aos líderes do COI as capacidades esportivas das mulheres para serem admitidas em todo o programa olímpico. E o tempo provou que Alice estava certa.

Alice Milliat nasceu em Nantes

Após a 1ª Grande Guerra o movimento feminino pela igualdade de direitos começava a dar os primeiros passos. E a Federação Internacional do Esporte Feminino, em 1921, fez o lançamento dos Jogos da Mulher, que foi realizado no ano seguinte com a participação de 77 atletas de cinco países: Suíça, Inglaterra, Checoslováquia, Estados Unidos e França. Os jogos foram realizados em 20 de agosto de 1922, com provas de atletismo, com a presença de grande público. Durante as competições decidiram que os Jogos das Mulheres seriam realizados a cada quatro anos.

“Le Journal”  cobriu as competições e deu na manchete do dia seguinte: “11 recordes mundiais quebrados”. Segue o texto: “As arquibancadas estavam cheias […] Além disso, foi uma celebração maravilhosa essa manifestação atlética, onde meninas e mulheres jovens competiram em uma série de testes que as mostravam admiravelmente preparadas para os mais violentos esforços físicos executados com graça harmoniosa […]. Esportistas inglesas foram as grandes vencedoras. […] As americanas terminam em segundo e as francesas, em  terceiro.”

Primeira Página do Le Journal

Após esta primeira edição, os Jogos da Mulher conhecerão mais três: 1926 na Suécia, 1930 na Checoslováquia, 1934 na Inglaterra, reunindo cada vez mais competidores e países, até 270 atletas de 19 nações em Londres. O sucesso de público pressionou o COI, que a cada edição da Olimpíada foi ampliando a participação feminina.  Se, por razões estratégicas e para avançar em sua luta, Alice Milliat precisa negociar com os homens que governam o esporte mundial, ela não se comprometia em um ponto. As federações esportivas femininas deveriam ser dirigidas por mulheres. “Ninguém mais do que eu pode desejar para nossas sociedades uma direção e um ensino inteiramente feminino”, desejamos que o esporte feminino encontre no elemento feminino todos os seus líderes administrativos e técnicos”, Alice escreveu na Auto, em 1924.

À época a imprensa comparava a atuação de Alice Milliat com a do Barão de Coubertin. Aliás,  em 1901 Coubertin declarou: “A mulher é acima de tudo a companheira do homem, a futura mãe, e deve ser educada para esse futuro imutável”.  É verdade que algumas raras mulheres participaram das primeiras Olimpíadas, mas elas serviram como álibi para dizer que  Jogos não eram apenas para homens. Essa hipocrisia foi um dos motivos para a criação da  Federação Internacional do Esporte Feminino, que não foi reconhecida pela Federação Internacional de Atletismo. Vida que segue. E em 1928, na Olimpíada de  Amsterdã, Alice foi incansável e conseguiu negociar com o COI cinco provas femininas no atletismo, com a participação de 277 mulheres, tudo bem que eram menos de 10% dos 2.606 homens, mas foi uma vitória a ser comemorada.  Na foto abaixo, corrida de 100m dos Jogos de 1928. Mais uma vez Barão de Coubertin foi contra a participação feminina. Para ele, a presença feminina “constitui uma grande afronta à grandeza e pureza original dessa competição”.

Participação feminina na Olimpíada de 1928

No entanto, o aumento da participação feminina nas Olimpíadas foi bem  lenta até os anos 1980, quando o catalão  Juan Antonio Samaranch assumiu o COI e decidiu abrir as portas para o esporte feminino. Em 1984, foi a estreia da Maratona Feminina Olímpica e várias outras modalidades. Segundo o COI, espera-se que as mulheres representem 48,8% dos atletas nos Jogos de Tóquio, adiados para 2021.

No Brasil foi ainda pior do que na Europa. A estreia feminina brasileira em uma Olimpíada foi na natação, em 1932, com Maria Lenk. Mas em 1941, Getúlio Vargas proibiu o esporte feminino por meio do  Decreto-Lei 3.199 do Conselho Nacional de Desportos (CND), no qual as mulheres eram proibidas de praticar esportes “incompatíveis com a sua natureza”, como o futebol, a luta, e muitos outros. Somente em 1979, essa lei absurda foi derrubada.

Desafio virtual da Fundação Alice Milliat

Alice saiu da federação em 24 de março de 1935, retornando seu trabalho de intérprete. A Federação entrou em crise financeira e foi extinta. Depois veio a 2ª Grande Guerra, E Alice caiu no anonimato. Ela morreu dias depois de completar 63 anos, em 17 de maio de 1957, em Paris. Mas seu legado é eterno. Em 2016 foi criada na França a fundação com seu nome em prol da coberta e da promoção dos esportes femininos. É a primeira fundação europeia focada na divulgação do esporte feminino.

Desde então já promoveram vários eventos femininos de corridas de rua, futebol, tênis e Rugby. E uma vez por ano, durante um mês, promovem um desafio virtual e solidário/beneficente chamando The Milliat Challenge entre corredoras e corredores do mundo inteiro para juntos, somarem os quilômetros. Em 2018 bateram a distância de  905. 279 km. Em 2019 foram 10 363 participantes que bateram 1 milhão de km! E a Fundação Alice Milliat anunciou,em fevereiro, a criação do fundo Alice Milliat dedicado ao esporte feminino, dentro do Museu Nacional do Esporte. É o primeiro fundo global dedicado exclusivamente ao esporte feminino.

Alice, para convencer  os homens machistas que mandavam no esporte no inicio do século 20, dizia que a mulher esportiva se tornava uma mãe melhor.  Parabéns a todas as mamães esportistas! E lugar de mulher é no esporte, e onde ela quiser!!

 

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