Benefícios de correr descalço

Benefícios de correr descalço

Confira entrevista com Samorai, criador do Método de Treinamento 3Dimensional,um dos defensores da prática da corrida descalça

SILVIA HERRERA

14 de fevereiro de 2022 | 13h34

Você já correu descalço? Hoje há tantos tipos de tênis, que correr ou caminhar descalço são práticas cada vez menos frequentes. Até alguns anos, gostava de correr descalça na praia. Mas por conta do lixo, principalmente vidro e latas, parei. E sexta-feira, para minha surpresa, vi um senhor de uns 70 anos, tirar os tênis e caminhar tranquilamente descalço na calçada da Avenida Interlagos. Ele parecia degustar cada passo. Eu, presa no trânsito, fiquei com vontade de fazer o mesmo. Mas será que fazer isso faz bem para saúde?

Samorai é formado em Educação Física, Filosofia e Ciências Sociais

Um dos defensores da prática da corrida descalça é o renomado educador físico Samorai, criador do Método de Treinamento 3Dimensional, que o grande púbico conhece do programa “Além do Peso”, da Rede Record. Ele explica que os nossos pés são dotados de uma incrível tecnologia e que possuem diversas adaptações que nos ajudam a caminhar e correr. “Um fato interessante é que quando o pé toca o chão, pensando em uma corrida, a carga exercida sobre ele pode chegar a oito vezes o peso corporal. Isso poderia gerar um tremendo impacto, desconforto e até uma fratura de algum osso. Mas, a principal tarefa do corpo, começando principalmente pelos pés, neste cenário, passa a ser desacelerar esse choque”, explica Samorai.

Ele acrescenta que considerando a mecânica do corpo, na marcha ou na corrida, ao entrar em contato com o chão o pé tem uma forma e após o corpo passar por cima, ele passa a ter outra, executando assim as duas funções (eversão e inversão) com maestria. Existem argumentos de que os tênis absorvem impacto e aumentam a propulsão, mas pesquisas indicam que ou eles fazem uma coisa boa ou outra. Outra questão é dizer que eles previnem lesões, mas se isso fosse verdade as pessoas não se machucariam mais, já que todas correm de tênis. Talvez o mais assertivo seja dizer que o calçado protege os pés de objetos cortantes e dejetos.

Abebe Bikila foi o primeiro africano a vencer uma maratona olímpica, em Roma

Uma das lendas do atletismo, o etíope Abebe Bikila venceu a Maratona da Olimpíada de Roma, em 1960, descalço. Ele começou a correr pra valar aos 24 anos, quando viu na tevê a maratona olímpica de Melbourne (Austrália) e descobriu que havia nascido para isso. Até então ele havia sido pastor de ovelhas e militar. Começou a treinar e foi descoberto por um treinador sueco. Não havia sido selecionado para a Olimpíada de Roma, mas na última hora o representante de seu país se machucou e ele foi convocado às pressas. Como só tinha tênis surrados, e nenhum dos novos oferecidos pelo patrocinador (adidas) serviram, ele optou por correr descalço, já que era permitido. E ele venceu com quebra de recorde, com o tempo de 02:15:16. Descalço entrou para a história da maratona se tornando o primeiro africano a vencer uma maratona olímpica. Em seguida, proibiram correr descalço na olimpíada. Quatro anos depois, na Olimpíada de Tóquio, Bikila se tornou o primeiro bicampeão olímpico da história, desta vez calçando Puma, com novo recorde: 02:12:11. Detalhe, 40 dias antes da maratona olímpica ele estava no hospital, para uma cirurgia de apendicite.

“A prática de correr descalço é um estimulo para seu corpo evoluir também. Seu pé será forte, vai correr em qualquer cenário, vai ganhar mobilidade. Quando uma pessoa fica dependente de um determinado modelo de tênis ela perde autonomia”, destaca. Samorai lembra que na África correr descalço sempre foi um hábito. E Bikila estava acostumado.  Inclusive ele pegou trechos de paralelepípedo na Via Ápia, no final da corrida em Roma, e continuou pleno. Acabou inteiro e bem à frente do segundo colocado. E para quem nunca correu descalço na vida é preciso ir aos poucos, e fazer uma progressão. Começar a usar tênis mais minimalistas. A fazer funcionais descalço, a caminhar descalço.

Um dos problemas dos calçados esportivos, é o corredor correr com o pé soltinho. Com isso, o impacto da pisada pode ocasionar um efeito em cadeia, podendo com o tempo, lesionar joelho e quadril. Por isso a importância de se ter um acompanhamento profissional para corrigir a tempo o gesto. “O melhor calçado do mundo não consegue atingir a mesma performance que um pé, bem treinado, consegue”, explica Samorai.

FiveFingers Bikila, modelo favorece o movimento dos pés

A sensação dos vários tipos de terrenos, sentir a grama, a areia da praia, o asfalto, vão trazer energias diferentes para seu corpo, para sua corrida. “Correr descalço te insere, em corpo, mente e espírito, no ambiente, te ensina, e algumas vezes pode te machucar também. E uma maneira de se proteger  é, se não puder correr na grama ou na areia, buscar calçados como FiveFingers, que tem sola vulcanizada, ou calçados minimalistas. Tenho um FiveFingers. Com ele, evito me machucar sem tirar do meu pé a função de correr”, finaliza o treinador.

Confira abaixo a entrevista completa com Samorai

 

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