Bursite no quadril atinge corredoras a partir dos 40 anos

Bursite no quadril atinge corredoras a partir dos 40 anos

SILVIA HERRERA

10 de junho de 2017 | 17h23

Para cada quatro mulheres com bursite, um homem recebe o diagnóstico da doença.

É muito comum ouvir os fotógrafos e cinegrafistas, por conta do peso que carregam diariamente, reclamarem de bursite nos ombros, mas essa inflamação também pega em cheio o quadril das corredoras que passaram dos 40 anos. Para maiores orientações sobre o tema conversamos com o ortopedista especialista em cirurgia de quardril Giancarlo Polesello, Professor e chefe do Grupo de Afecções do Quadril da Santa Casa de São Paulo e médico do Hospital Sírio-Libanês.

Polesello explica que a doença ocorre em regiões próximas a articulações que realizam movimentos repetitivos e se caracteriza pela inflamação da bursa, uma espécie de almofada entre músculos e ossos, ou entre tendões e ossos, que funciona como amortecedor de impacto entre as diferentes estruturas. No quadril aparece quando há pressão exagerada entre o tendão que vai do quadril até o joelho (banda ílio-tibial) e aproeminência óssea na parte superior do fêmur (trocanter maior) causando inflamação. Além disso, lesões nos tendões podem levar ao quadro inflamatório.

Fique ligado nos fatores de risco: discrepância de comprimento dos membros inferiores, paciente com pelve larga e/ou trocanter mais proeminente (o que explica a incidência maior em pacientes do sexo feminino) e a prática de atividade física em planos inclinados.

O ortopedista acrescenta que a bursite de quadril está associada à queixa de dor lombar em 35% dos casos e à artrite reumatoide, outra doença inflamatória, em 15% dos casos. Cabe ao médico estabelecer o diagnóstico apontando a causa do quadro, além de eliminar os fatores que o desencadearam, evitando que a inflamação se torne crônica e de difícil tratamento. O diagnóstico é clínico, ou seja, a história clínica e o exame físico são capazes de fornecer a impressão diagnóstica, quando os pacientes se queixam de dor lateral do quadril sobre o trocanter maior e, muitas vezes, na abertura da coxa e no fechamento da coxa em graus máximos. “Essa dor irradia-se frequentemente para a toda a face lateral da coxa, o que nos leva à confusão diagnóstica, pois dores provenientes da coluna lombar podem apresentar-se exatamente da mesma forma”, frisa o médico.

Quanto ao tratamento, a maioria dos pacientes responde à terapia sintomática, como mudança nos hábitos de exercício físico, compensação de discrepâncias de comprimento dos membros inferiores, gelo, repouso. Santo gelo! Outras medidas preventivas podem ser tomadas, como troca de colchões duros, adequação do treino de corrida e tratamento das condições associadas, como a artrite reumatoide e da artrose, se for esse o caso. “Os pacientes com dor que não melhoram com esse tipo de tratamento podem ser submetidos à injeção local (infiltração) de corticoides na bursa, com resultados variáveis, entre 60% e 100% de melhora, lembrando sempre que a infiltração isoladamente, sem o tratamento coadjuvante com fisioterapia faz com que os resultados sejam menos favoráveis” ressalta o ortopedista.

Ficou com mais alguma dúvida? Caso ela não esteja esclarecida abaixo, na nossa entrevista, a escreva nos comentários que o dr Polesello responderá depois. #corridaparatodos #corridasemlesão

 Corredoras com quadril largo e pernas curtas têm mais chances de desenvolver bursite do que mulheres com quadril estreito e perna longa? Por que?

Dr. Giancarlo Polesello – Na verdade, qualquer situação onde possa ocorrer a hiperpressão da banda ílio-tibial no trocanter maior do fêmur pode predispor a bursites ou tendinopatias na região trocantérica. Mulheres com o quadril alargado são uma das possibilidades.

Correr em desnível pode causar bursite no quadril? 

Dr. Giancarlo Polesello – Correr em desnível lateral (na praia, na estrada) é uma das causas, pois faz imitar uma situação de encurtamento de um dos membros. Isso, a longo prazo, pode propiciar a alterações biomecânicas que favorecem a tendinites e bursites.

Qual o perigo da corrida em locais assim? Por que?

Dr. Giancarlo Polesello – Não há perigo, desde que se tenha em conta que não pode ser feito a longo prazo, repetitivamente. Alterações biomecânicas que ocorrem de forma repetida e crônica podem propiciar o aparecimento de lesões.

A faixa etária a partir dos 40 seria a mais atingida pela bursite? Por que?

Dr. Giancarlo Polesello – Com o passar dos anos a musculatura tende a enfraquecer. Desbalanços entre forças musculares, tanto de um músculo com relação a outro do mesmo lado do corpo ou com relação a musculatura contralateral, podem propiciar solicitações mecânicas excessivas num ou noutro grupo muscular. Por exemplo, quem corre tende a usar os flexores e extensores do quadril mais que os adutores e os abdutores. Essa diferença de força e solicitação mecânica pode propiciar sobrecargas, ou quando um músculo de um lado do corpo é muito mais forte que o do outro lado, sendo que os dois precisam fazer a mesma força para equilibrar o corpo, é de se imaginar que um vai sofrer e dar sinais de sobrecarga maior e antes que o outro.

Quais são os primeiros sintomas e quando um médico deve ser procurado?

Dr. Giancarlo Polesello – A dor e incapacidade para o esporte ou atividade física é o primeiro sintoma. O médico ortopedista deve ser procurado o mais rápido quanto possível, pois quanto antes corrigem-se os fatores biomecânicos que levaram a lesão, maiores são as chances que a pessoa tem de livrar-se dos sintomas e voltar as atividades sem que sejam necessários tratamentos mais agressivos.

 Qual é o pior dos cenários?

Dr. Giancarlo Polesello – Lesão tendinosa completa e irreparável do(s) tendão(ões) glúteo(s), que faz com que a pessoa não mais possa fazer atividades e manque, fora a dor.

Como é o tratamento? Quanto tempo?

Dr. Giancarlo Polesello – Nos casos iniciais o fortalecimento muscular e a fisioterapia adequada promovem a melhora completa em poucas semanas na grande maioria dos casos.

Qual a chance de cura?

Dr. Giancarlo Polesello – Altíssima, desde que se reconheça e trate precocemente.

Veja como funciona o quadril no vídeo abaixo, em uma animação feita pelo dr Polesello.

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