Combustível: garra

Combustível: garra

SILVIA HERRERA

15 Janeiro 2018 | 08h10

A primeira adversidade chegou sem cerimônia aos 2 anos de idade, mas a notícia ruim do diagnóstico de um câncer hepático só tornou ainda mais forte o guerreiro Itamar Montalvão, que hoje se prepara para correr sua primeira maratona, a de Chicago. #superação #corridaderua #blogcorridaparatodos #maratona #chicagomarathon #transplanterenal #sejadoador

A vida é rara, reserva cada surpresa bacana mesmo. Outro dia fui convidada para um bate-papo num centro cultural novo, o Espaço Tangente, uma indicação de uma amiga corredora. O protagonista era Itamar, jornalista dos bons, do seleto grupo dos editorialistas do Estadão. O tema era “A adversidade como força transformadora” com a corrida de pano de fundo.

A tatuagem da guitarra vermelha no braço esquerdo foi a primeira coisa que reparei. Me identifiquei na hora com o palestrante, além de corredor é roqueiro como eu. Eram poucas pessoas sentadas em um círculo acolhedor.

Itamar é carioca, advogado e jornalista. Sua trajetória é marcada por intensas e sofridas batalhas pela vida. Aos 2 anos ele caiu e começou a sangrar muiiiiittttoooo. A mãe o levou ao médico. O diagnóstico foi uma bomba: câncer. Um tumor enorme no rim esquerdo. As sessões de quimioterapia começaram imediatamente.

Para ir às sessões, Itamar começou a fazer uma pequena chantagem. Para ir sem reclamar pedia um Playmobil, um brinquedinho de plástico que fazia muito sucesso nos anos 70, de presente à sua mãe. Ficou com uma coleção de profissional. Anos mais tarde teve alta, mas o rim esquerdo ficou comprometido para sempre.

Segundo pesadelo

Tudo seguia bem quando já adulto, aos 25 anos, Itamar percebeu pequenas alterações fisiológicas. Procurou o médico, a segunda bomba. O rim bom estava com problemas. Nossa, nessa parte caiu um cisco enorme no meu olho…. só de lembrar meus olhos ficam cheios d’água novamente. O médico sugeriu começar a hemodiálise. A outra opção seria mudar radicalmente o estilo de vida, cuidar da alimentação, para aliviar o trabalho do rim, e voltar a fazer atividades físicas. Era uma doença bem rara e incurável, chamada Glomeruloesclerose Segmentar e Focal (GESF).

Disciplinado como um soldado espartano, Itamar aceitou o desafio da mudança radical de estilo de vida e assim conseguiu postergar o pesadelo da hemodiálise por dez anos! Ele já estava morando em São Paulo quando se sentiu frustrado profissionalmente como advogado. Descobriu que queria ser jornalista. Pesquisou a melhor faculdade, prestou vestibular, passou e cursou a Cásper Líbero. Durante a graduação começaram as hemodiálises, em 2009, e outra bomba: teria que fazer transplante de rim.

Uma de suas colegas de classe queria ser a doadora. Fizeram os exames e ela era compatível! No meio dessa jornada se apaixonaram. Mas antes do transplante acabaram terminando o namoro e Itamar resolveu abrir mão dessa possibilidade salvadora. Não se sentiria bem sabendo que dentro dele estaria o rim da ex-namorada. Voltou para a fila do SUS.

Dia do transplante

Sua rotina era hemodiálise, trabalho, faculdade. E começou a incluir a corrida também. Meses depois, numa madrugada, seu celular tocou. Chegara sua vez em 7 de março de 2015. Recebeu o rim de um doador anônimo, que havia falecido. Gente outro cisco enorme caiu no meu olho…. É muito louco alguém que você nunca viu na vida ter que morrer para outra pessoa poder continuar viva. É fundamental que mais pessoas sejam doadoras para que essa fila seja cada vez menor.  Itamar é só gratidão.

Mais dois meses de hemodiálise, para a adaptação do novo rim e pronto. Livre das sessões de tortura. Ele contou que não se privava de nada por conta disso. Aprendeu a conviver com a doença. Quando ele viajava de férias, além de pesquisar os hotéis e passeios já reservava os hospitais para as sessões de hemodiálise. Durante os seis anos de hemodiálise, ele conheceu quatro países.

Transformação

Formado em jornalismo e vivendo uma nova fase em sua vida, Itamar resolveu mudar de profissão. Aliás, fora para isso que se formara. E até já estava escrevendo para uma importante revista de música, como free lancer. Foi bater aquele papo com o chefe do escritório de advocacia, para pedir demissão. Para sua surpresa, o dono entendeu e conseguiu ser demitido. Com o dinheiro, Itamar foi viajar para a Alemanha.

Paralelamente descobriu que precisava de algo para se dedicar, focar com muita disciplina, como fez a vida inteira com os tratamentos médicos. Itamar queria um esporte de alto rendimento e decidiu ser corredor de rua. Com cinco meses de treino fez sua primeira 8K, a primeira 10K foi a da Disney. Desde então já foram mais de meia dúzia de meias maratonas.

Na volta da viagem, procurou um dos seus ex-professores da Cásper e conseguiu uma indicação para entrar no seleto grupo de editorialistas do Estadão, as mentes que influenciam os políticos e poderosos da nossa Nação. Foi contratado!!

Seu próximo desafio já está marcado. Ele será um dos brasileiros da equipe de Marcos Paulo Reis (MPR) que vão correr a Maratona de Chicago (EUA), em outubro.  No final desse bate papo emocionante, perguntei ao guerreiro o que o movia: “O amor à vida”.

Marcos Paulo Reis e Itamar

 

 

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