Correr regularmente favorece a fertilidade

Correr regularmente favorece a fertilidade

Confira como a atividade física é capaz de melhorar as chances de gravidez

SILVIA HERRERA

05 de fevereiro de 2022 | 11h11

Tatiana e Alex Marques sonhavam em ser pais. Mesmo sem praticar atividades físicas regulares, eles nunca foram obesos e tão pouco tinham histórico de comorbidades. Tentaram três anos e nada. Tatiana chegou a engravidar por duas vezes, a primeira durou alguns dias e a segunda, oito semanas. Mudaram de médico em janeiro de 2019, realizaram uma bateria de exames, investigaram todas as possíveis causas de infertilidade e fizeram uma fertilização quatro meses depois. Não deu certo. E foi aí que ouviram do médico um pedido inusitado: “Comecem a praticar alguma atividade física o mais rápido possível e adotem um estilo de vida saudável!” Foi o que o casal fez imediatamente. Em uma das primeiras idas à academia mandaram, via WhatsApp, essa foto abaixo para o Dr. Rodrigo Rosa, especialista em reprodução humana e diretor clínico da clínica Mater Prime, em São Paulo, o médico do casal. A estratégia deu certo! Após quatro meses da mudança de hábito o casal engravidou. E desde então Tati já teve dois filhos, e sem inseminação. O segundo se chama Samuel e nasceu dia 1º de fevereiro, terça-feira, de parto natural.

Tatiana e Alex começaram a praticar esportes diariamente por indicação médica para melhorar a  fertilidade

Cada vez mais pesquisas comprovam que o  maior vilão do bom funcionamento do corpo humano é o sedentarismo. E a infertilidade é um dos malefícios ainda pouco divulgados. “Além das causas naturais e do envelhecimento, sabemos que há um impacto da vida moderna e dos maus hábitos nas causas da infertilidade. O sedentarismo e a obesidade, por exemplo, também dificultam muito a concepção de um filho”, explica o Dr. Rodrigo Rosa.  E  vários estudos relatam que a atividade física, de leve a moderada, e regular, aliada a uma alimentação saudável trazem muitos benefícios . “Meia hora de exercícios como a corrida, três vezes na semana, já são suficientes para melhorar a qualidade do esperma”, observa o Dr. Rodrigo.

O médico também argumenta que a corrida está ligada a uma maior produção de serotonina, hormônio do prazer, ao mesmo tempo em que permite modulação do estresse, por meio da diminuição dos níveis de cortisol. “Altos níveis de estresse podem tornar as chances de um casal engravidar menores. Isso porque o estresse causa processos fisiológicos que podem interferir na produção de hormônios reprodutivos importantes, além de, no homem, favorecer o surgimento de proteínas inflamatórias que prejudicam a qualidade do esperma”, alerta o especialista. “Nosso corpo é uma máquina de gastar energia, mas quando isso não acontece, podemos ter problemas de insônia, que também são prejudiciais à fertilidade. O sono é fundamental para o bom funcionamento da hipófise, glândula presente no cérebro que é responsável pela produção de uma série de hormônios, inclusive daqueles responsáveis pela estimulação dos ovários e dos testículos. Logo, quando o período de repouso é curto ou de pouca qualidade, essa glândula não funciona da maneira como deveria, o que, consequentemente, interfere na fertilidade.”

Tatiana e Alex tinham marcado uma nova fertilização para outubro de 2019. “Graças a atividade física e a mudança de hábito, indicadas pelo Dr. Rodrigo, em setembro de 2019 engravidamos normalmente. João Pedro nasceu em 18 de junho de 2020. Foi uma alegria enorme e fizemos questão que ele fosse nosso obstetra. João Pedro nasceu super saudável. Foi maravilhoso, e corremos muito atrás para realizar esse sonho. Realmente a mudança do nosso estilo de vida fez toda a diferença. Nem a fertilização havia dado certo antes por conta do nosso sedentarismo”, reconhece Tatiana.

Dr Rodrigo Rosa, enfermeira, Tatiana e Alex logo após o nascimento de João Pedro – 18/06/2020

Tatiana e Alex hoje atestam que a inclusão de atividade física na rotina do casal fez e faz toda a diferença na fertilidade. “Depois de começar a fazer atividade física comecei a me sentir muito mais disposta, engravidei e minha gestação foi maravilhosa. E aí quando o João Pedro estava com 9 meses, marcamos nova consulta com o Dr. Rodrigo para tentar uma nova gravidez, mas não foi preciso fazer nada, com um mês de tentativa engravidamos do Samuel, fruto dessa mudança de hábitos. Como sempre fui magra, só comia besteira e odiava atividade física. Meu marido fazia atividade física antes do casamento, mas tinha parado. Começamos ir à academia todos os dias. Pensava, vou correr mais 5km na esteira pra conseguir ganhar meu bebê. E com esse pensamento comecei a gostar de praticar atividade física; e o Dr. Rodrigo nos incentivava muito”, conta Tatiana. O casal também começou a fazer suplementação e parou com o fast food, principalmente as recorrentes pizzas e hambúrgueres.

De acordo com o especialista, homens que participaram de programas de fertilização in vitro e realizaram exercícios regulares moderados a vigorosos, como a corrida de rua, tinham concentrações de espermatozoides mais altas do que os homens menos ativos. “Esse é um dado importante, porque o hábito de vida de ambos, tanto do homem quanto da mulher, importa para o sucesso da fertilização”, alerta o especialista. “É de vital importância que os médicos de fertilidade aconselhem as pacientes sobre os fatores de risco modificáveis do estilo de vida”, diz o Dr. Rodrigo.

Samuel nasceu em 1º de fevereiro de 2020, parto natural. A adoção de hábitos saudáveis melhorou a fertilidade do casal – Foto: Katia Rocha

Obesidade e magreza excessiva  – De acordo com o médico, além de favorecer o surgimento de doenças como diabetes e hipertensão, que podem causar problemas durante a gestação, a obesidade possui influência direta sobre a fertilidade. “Nos homens, o excesso de gordura corporal prejudica a produção de testosterona, o que, além de reduzir o apetite sexual e causar dificuldades de ereção, também interfere na qualidade e quantidade de espermas. No geral, quanto maior o sobrepeso, menor é a qualidade, concentração e mobilidade do esperma”, ressalta o especialista. “Já nas mulheres, o peso inadequado também interfere na produção dos hormônios sexuais femininos, principalmente o estrogênio, o que, consequentemente, atrapalha o processo de ovulação. E, nesse caso, não se trata apenas da obesidade, já que mulheres excessivamente magras, como quem sofre de anorexia, também têm menor chance de engravidar, além de possuírem um risco maior de entrar na menopausa precocemente”, acrescenta o médico.

Entre outros benefícios da prática regular de atividades físicas está a saúde mental. “A pessoa acaba largando vícios como tabagismo e álcool, que também interferem negativamente na fertilidade”, diz o médico. No entanto,  tudo em excesso faz mal, mesmo o esporte e na atividade física. “O excesso de exercícios físicos, o overtraining, também prejudica o funcionamento da hipófise e, por consequência, os níveis dos hormônios envolvidos na fertilidade. Além disso, muitas pessoas que realizam atividade física intensiva sem uma recuperação adequada fazem uso de medicamentos que simulam os efeitos da testosterona como forma de acelerar o ganho de massa muscular, o que pode causar impotência e perda de apetite sexual nos homens e desequilíbrios hormonais e dificuldade no crescimento do endométrio em mulheres, o que reduz as chances de gravidez e aumenta os riscos de aborto”, destaca o médico.

“Caso o casal perceba que está tendo problemas para engravidar, é importante que ambos consultem um médico especializado, já que apenas ele poderá realizar uma avaliação e identificar a real causa do problema, recomendando assim o tratamento adequado ou, quando a causa da infertilidade não pode ser revertida, métodos de reprodução assistida”, finaliza o Dr. Rodrigo, que é um dos colaboradores do livro “Atlas de Reprodução Humana”, da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana.

 

 

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