Corra dos congestionamentos

Corra dos congestionamentos

SILVIA HERRERA

01 de dezembro de 2015 | 10h15

A ideia é simples: usar a corrida de rua como meio de transporte. Mas qual o melhor caminho? Como devo ir vestido? E a mochila, qual é a melhor? Quanto tempo vou demorar correndo de casa até o serviço? Preciso ser um Marilson Gomes dos Santos para conseguir? Pensando nisso nasceu o Corrida Amiga, que desde março do ano passado ajuda a cada vez mais pessoas trocarem os carros pelos pares de tênis.  É o transporte ativo run commuting, iniciativa já praticada com sucesso nos EUA e Europa.

Se animou?

CIDADES / Corrida Amiga - data: 19/08/2014 Paulo e Silvia, participantes do projeto Corrida Amiga. Os dois se encontraram no Jabaqueara, local desta foto e correram até próximo do metrô Vila Mariana. Foto: Paulo Pampolin / Hype

CIDADES / Corrida Amiga – data: 19/08/2014
Paulo e Silvia, participantes do projeto Corrida Amiga. Os dois se encontraram no Jabaqueara, local desta foto e correram até próximo do metrô Vila Mariana.
Foto: Paulo Pampolin / Hype

Quer saber como funciona na prática? Basta entrar no site: corridaamiga, clicar em quero participar. Escolher a opção de contar com um corredor amigo para iniciar a prática, ou para ser um corredor amigo e ajudar os iniciantes. Não há custos e o resultado será um carro a menos no trânsito enlouquecedor das cidades brasileiras.

Conversamos com a corredora Silvia Stuchi Cruz, a fundadora da Corrida Amiga, que já está virando pauta no exterior (http://goo.gl/TeOJ6S). Confira abaixo a entrevista e compartilhe, quanto mais pessoas souberem e se interessarem, melhor!!!

Silvia Stuchi Cruz

 

Quando e por que usou a corrida como “meio de transporte”? Foi transformador? Conte um pouco dessa experiência?

Silvia Stuchi Cruz –  O tema “mobilidade urbana” vem ganhando destaque nas discussões sobre desenvolvi­mento/planejamento urbano no Brasil ao longo dos últimos anos por diversos motivos: aumentou-se o grau de urbanização, elevou-se o número da população e, sobretudo, houve aumento significativo no número de veículos automotores nas ruas dos grandes centros urbanos. Ou seja, por conta dos congestionamentos, o tempo gasto nos deslocamentos também acompanhou esse aumento. Como é sabido, comprar um carro não é um investimento barato (especialmente no Brasil) e, tampouco, sua manutenção. Combustível, IPVA, seguro, estacionamento etc. – se colocarmos tudo no papel, fica difícil fechar a conta no final!  Todos os anos são batidos recordes e mais recordes de congestionamento… O transporte público, embora tenha melhorado com medidas como o corredor de ônibus, ainda está muito aquém de ser considerado um serviço público universal e de qualidade. Perdemos tempo, saúde e dinheiro com um sistema voltado ao transporte individual.  O tempo de deslocamento gasto associa-se diretamente ao bem-estar e qualidade de vida dos cidadãos, uma vez que, ao se perder mais tempo nos deslocamentos diários, diminui-se o tempo dedicado a práticas esportivas e de lazer. Especialistas de diversos países estão começando a discutir e reconhecer o papel de ‘transporte ativo’ como uma alternativa ao estilo de vida sedentário e como uma forma de melhorar a qualidade de vida da população. Assim, a Corridaamiga é criação recente (março de 2014) – inspirada na ideia da Rede Bike Anjo – de um grupo de corredores de rua já acostumados a se deslocar pela cidade utilizando seus pés. A ideia central: usar a corrida como mobilidade urbana. Tudo começou a partir da transformação que o uso da corrida como meio de deslocamento provocou em minha rotina, quando fiz estágio de doutorado na França e na Finlândia (e descobri que era possível fazer isso), proporcionando diversos benefícios, como otimização de tempo, redução de custos, melhoria da qualidade de vida. A ideia de tornar isso um projeto social objetiva disseminar, auxiliar e inspirar a prática da corrida como mobilidade urbana e, ainda, demandar por melhores condições do espaço urbano.  É fato: modos de transporte ativo nos despertam outra percepção da cidade, nota-se diferentes paisagens que não são possíveis perceber de dentro dos carros. E isso muda a nossa relação com a cidade, nos aproxima e nos faz querer cuidar mais dela.

Ultrapassaram os 100 voluntários?

Silvia Stuchi Cruz – Até novembro de 2015, o grupo atendeu cerca de 110 pedidos de corridaamiga, em sua maioria nos grandes focos de trânsito da capital paulista. Atualmente, a Rede conta com 106 corredores voluntários em mais de 15 cidades brasileiras. Vale a pena ressaltar que esses números são de pessoas que efetivamente acessaram nosso site e realizaram o cadastro. Temos ainda as pessoas que enviam mensagens e nos procuram de um modo mais “informal” para serem auxiliadas.

Quais são as principais dúvidas dos corredores que querem iniciar neste transporte?

Silvia Stuchi Cruz – Para disseminar essa prática da corrida como meio de locomoção (“run commuting”), surgiu a necessidade de compilar informações do cotidiano de quem usa a corrida para se deslocar. Muitas vezes, coisas óbvias para nós, como “colocar tudo em sacolinhas plásticas”, “ajustar bem firme a mochila”; “como eu faço se não tiver vestiário”; “ritmo de corrida mais lento”… etc não são tão óbvias assim, mesmo para o público de corredores. Além disso, como grande parte dos voluntários da rede corridaamiga não tem formação específica nas áreas de educação física e nutrição, muitas pessoas nos perguntavam sobre o volume ideal de km a percorrer por semana, se poderiam fazer os trajetos de ida e volta todos os dias da semana, o tipo de pisada, quais alimentos deveriam ingerir para conseguir manter essa rotina de deslocamento ativo… Assim, o apoio de profissionais da área, é importante para responder com propriedade essas questões. Começamos a elaborar o manual em fevereiro de 2015 com essa ideia, um grupo de cinco voluntários de Sampa elaborou um arquivo inicial, com os conteúdos principais. Após isso, deixamos o prazo de 45 dias para que os voluntários e colaboradores enviassem suas ideias. Em paralelo, trocávamos ideias com a equipe do The Run Commuter de Atlanta. Eles adoraram e nos auxiliaram muito com a experiência deles. Para construir as seções da assessoria e nutrição esportiva, fizemos algumas reuniões e trocamos vários e-mails com as equipes, pois os profissionais precisavam entender quais são as necessidades de quem corre como mobilidade urbana. No Manual, mencionamos no tópico “comportamento”, meios para os cidadãos reclamarem caso se deparem com problemas com táxis, transporte público, carros de empresas… e também, a denunciarem pontos de irregularidade nas cidades. Acreditamos que como estamos “com os pés nas ruas”, podemos também ser agentes multiplicadores, ajudando a fiscalizar e monitorar essas situações em nossas cidades.

Novidades para 2016?

Silvia Stuchi Cruz – O resultado está sendo incrível! Superando nossas expectativas. Primeiramente, é bem interessante esse trabalho em rede, de mobilizar pessoas… Quando há esse tipo de trabalho coletivo, os voluntários se sentem parte do projeto e se motivam a colaborar e divulgar. Os feedbacks estão sendo bem positivos… Realmente, as pessoas estão buscando outros modos de vida, para viverem com mais qualidade de vida. E nossa iniciativa pode auxiliar ou pelo menos instigar ou plantar essa sementinha da mudança e mostrar que sim, é possível viver de um jeito diferente. Pois uma coisa é certa: quem não tem tempo para praticar atividade física, está vivendo errado… Para 2016, como somos membros da comissão técnica de mobilidade a pé e acessibilidade da ANTP e membros da associação pela mobilidade a pé em SP, vamos continuar atuando e direcionando políticas públicas voltadas à “caminhabilidade” das cidades. Além disso, nossas atuações em “ativismo” continuarão. Exemplos: campanha calçada cilada – usando o app cidadera para mapear irregularidades nas calçadas (http://goo.gl/ErgUhy);  teste de velocidade em praça pública http://goo.gl/3oc8Rg> etc. Continuaremos divulgando a plataforma www.corridaamiga.com.br e realizando o cadastro como voluntário ou solicitante de corridaamiga. E ampliando os horizontes da prática para outras cidades e Estados do país. Promovendo: mais conteúdo em redes sociais, eventos em parceria com empresas privadas e instituições públicas, Dia de Correr ao Trabalho, Dia Corridaamiga, Test drive Corrida amiga, documentar histórias de voluntários e pessoas que fizeram do tênis o seu transporte…

 

Veja matéria da TV Cultura – Jornal da Cultura – (abaixo)

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