Paulistano conhece todo o Brasil correndo

Paulistano conhece todo o Brasil correndo

Vinicius Brosso Alvares já passou por 22 estados e DF

SILVIA HERRERA

19 de julho de 2020 | 16h21

O “Forrest Gump” paulistano Vinícius Brosso Alvares já conheceu 22 estados mais o Distrito Federal correndo. Ele é daquele tipo de corredor de rua movido a esporte e qualidade de vida. Há quase três anos ele está focado no Projeto Correndo Pelo Brasil, concretizando um sonho. A meta é conhecer os principais pontos turísticos dos 26 estados brasileiros mais o Distrito Federal. Ele estava quase batendo a meta, quando a COVID-19 surgiu na vida de todos nós.

Vinicius já passou por Oiapoque, divisa do Amapá com a Guiana Francesa

Ele estava em Macapá quando foi decretada a pandemia pela OMS. Como próximo destino seria Manaus pesquisou um imóvel em um local bem afastado onde pudesse treinar sem aglomerações, para depois retomar o projeto. Achou um studio na Avenida Solimões, ao redor da Universidade, e foi pra lá. Só que a quarentena de 40 dias já chegou a quatro meses. E como vai rolar a Maratona de Manaus em novembro, Vinicius deve ficar por lá muito tempo ainda.

Vinicius está treinando em Manaus

Até os 18 anos Vinicius, que é da Vila Prudente, sempre foi muito magrinho. Brincava o dia inteiro na rua e praticava muito esporte. Mas depois começou a trabalhar em Segurança Patrimonial com uma rotina bem puxada. “Comecei a me dedicar muito ao trabalho e o esporte ficou de lado”, lembra. “Trabalhei durante 15 anos em São Paulo para conseguir comprar minha casa na Zona Sul, perto do Citibank Hall. Tive oito promoções, entrei como porteiro e cheguei a coordenador da Segurança, liderando 50 pessoas”, conta.

Vinicius antes de começar o projeto e depois

Após quitar a casa, Vinicius reparou que aquele cara que adorava esportes não existia mais, o que via no espelho era um homem com 90 quilos, que saia do trabalho e emendava na balada, exagerando nas bebidas e noites em claro.  Com alguns incômodos no estômago foi procurar o médico que diagnosticou gastrite e esofagite. “Nesses 15 anos ou estava trabalhando ou na balada me divertindo”, frisa.

Resolveu recuperar a forma. Decidiu dar um tempo nas baladas e voltar a se dedicar ao esporte, cuidar da saúde. E teve uma ideia ousada: “Vou alugar meu imóvel já com os móveis e a minha fonte de renda vai ser o aluguel, que seria R$1.200,00 – que hoje é um salário mínimo. E assim posso sair para correr o Brasil inteiro e depois publicar um livro, com base em um diário eletrônico”.

Vinicius fez um planejamento prévio com as localidades que conheceria correndo durante três anos. A proposta é conhecer bem cada local, não apenas correr uma prova e fazer a foto com a medalha em um dos pontos turísticos e ir embora. Ficar no mínimo um mês. “Selecionei os principais pontos turísticos do Brasil. Primeiro lugar foi Rio de Janeiro, onde conheci Copacabana, Ipanema, Leme, Leblon. Em homenagem ao Tim Maia corri do Leme ao Pontal, que deu 34km”, conta.

No começo ele estava acima do peso e o objetivo não era participar de corridas, mas apenas correr, como treino mesmo, para manter a forma e se alimentar melhor. “Uma vida voltada à saúde e a correr pelo Brasil”, destaca.

 

Para economizar Vinicius se hospeda em hostels em troca de trabalho por hospedagem. E no tempo livre estuda sobre corrida, treinos, alimentão e  se exercitava. O condicionamento físico vai melhorando e ele começa a participar de corridas. A primeira delas é a Meia Maratona do Rio. Depois ele segue para o Espírito Santo onde corre a 10 Milhas da Garoto. De lá sobe para o Sul da Bahia. Conhece Porto Seguro, Caraíva, Trancoso. “Com o tempo, perdendo peso e adquirindo performance, começo a ver que está dando certo. O tempo passa a ser o meu amigo. Tenho tempo para treinar e para estudar sobre boa alimentação, treinos e descanso, com fontes seguras”, explica o corredor autodidata.

Cidade de Zé Doca fica no Maranhão

Com a chegada do verão, Vinícius decide ir para o Sul do Brasil. “Faço Floripa, Curitiba e Porto Alegre em três meses e ganho o apelido de Forrest Gump. Corri a ilha de Floripa inteira. Fiquei em um hostel na Lagoa da Conceição e cada dia corria para uma praia diferente”, lembra.  Depois a viagem prossegue para Mato Grosso do Sul, Brasília, Goiás, Chapada dos Veadeiros, Tocantins. E quando chega em Aracaju (SE) os tempos baixam significativamente. “Decido me inscrever numa 10K e venço! Eram 1.200 pessoas. E decido aliar performance ao projeto, com treinos mais técnicos para chegar entre os primeiros”, conta. E de lá pra cá ele já subiu no pódio 21 vezes, dez delas no degrau mais alto e com algumas premiações em dinheiro. Atualmente seus tempos são: 5km em 15:46, 10km em 32:30, 21km em 1:12:00.

Vinicius e Marilson em Recife

Entre as corridas, uma que marcou muito nosso Forrest Gump foi em Recife, uma das etapas do Circuito Banco do Brasil. Nessa prova Vinicius conhece na largada o fundista Marilson Gomes dos Santos, tricampeão da São Silvestre e bicampeão da Maratona de Nova York, que é o padrinho do circuito. “Para mim ele é o melhor corredor de rua do Brasil e disse pra que ganharia aquela prova pra ele. E ganhei em 33 minutos e recebi o troféu dele. Depois conversei bastante com ele”.

Outra prova que ele gostou muito foi a Maratona de Juazeiro do Norte, no Ceará. “Além do percurso muito difícil, muito sobe e desce, a temperatura é muito alta. Ganhei por faixa etária, fiz os 42km em 3 horas e 10 minutos. Fui muito marcante por conta da dificuldade”, lembra. E um dos locais mais lindos por onde ele correu até agora foi na Chapada Diamantina. “Lá conheci dois fundistas da elite, o Daniel e o Galego, que me convidaram para treinar nas montanhas finalizando nas cachoeiras. E em 15 dias conheci com eles todas as trilhas e me torno guia do lugar”, conta. Cada cantinho ele tem uma recordação, um perrengue, algo engraçado pra contar. O diário já está com 300 páginas.

Cachoeira do Sossego, na Chapada Diamantina

Agora faltam quatro estados para o Vinícius finalizar o projeto: Rondônia, Roraima, Acre e Mato Grosso. “O planejamento era finalizar em agosto, mas com a pandemia resolvi ficar em Manaus até tudo passar”, explica.

Para economizar, Vinicius opta por caronas e viagens rodoviárias ou de barco. “Com as redes sociais comecei a ficar conhecido e começaram os convites de hospedagens. E uso o dinheiro do aluguel para comprar equipamento e alimentos. Aqui em Manaus já tenho três locais para ficar, em Boa Vista mais dois, no Mato Grosso também. Mas devido à pandemia tive que me isolar e alugar uma kitnet. Espero que a pandemia termine logo, porque a situação financeira apertou. E aceito apoio para concluir este projeto.” Para apoiar – Banco Santander – agência 0001 – c/c 02020945-5

 

Vinicius venceu a etapa Recife do Circuito Banco do Brasil

E Vinicius já tem  o segundo projeto na cabeça: correr a América do Sul, inspirado no livro “Diário de Viagem”, de Ernesto Che Guevara. “Já li cinco vezes este livro e vi o filme duas vezes. Além de percorrer a mesma trilha do livro, passar pelas mesmas cidades, quero participar das corridas”, observa. E tudo dando certo, Vinicius pretende correr a África, depois a Europa e o mundo inteiro.

Durante muito tempo na vida Vinicius focou no ter e nos bens materiais. Depois percebeu que isso não era o mais importante. “Comecei a dar mais valor às pessoas, à natureza. O material não tem tanto valor mais pra mim. Consigo ser feliz com um salário mínimo e fazendo o que eu gosto”, argumenta.

Atualmente ele faz dois ciclos de treinos diários, de manhã corre das 4h às 6h; e no fim de tarde faz fortalecimento. A planilha está em 500km por mês. Boa sorte Vinicius, estamos na torcida para que você realize todos os seus sonhos!

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