Corridas fora da Lei

Corridas fora da Lei

SILVIA HERRERA

24 de julho de 2017 | 10h10

Em Campinas, lei garante o direito à premiação em dinheiro nas corridas de rua, mas alguns organizadores estão descumprindo a legislação e corredores têm que entrar na justiça. #corridaparatodos

Os vencedores da Corrida Integração (EPTV), Corrida da Lua (Promoworld) e Track& Field Run Series (Latin Sports), entre outras, treinaram forte, subiram ao pódio, mas ainda não receberam a premiação em dinheiro, garantida por lei desde 2015. “A Lei 14.952/14, regulamentada pelo Decreto nº 18.966/15, obriga o pagamento de premiação em dinheiro aos atletas vencedores de corridas de rua, maratonas e meias-maratonas no município de Campinas quando a inscrição para o evento estiver condicionada ao pagamento de valores. No entanto, os organizadores não cumprem isso e a Justiça está do lado dos corredores: temos 23 ações em andamento neste sentido, referentes a provas realizadas em 2016 e 2017, e em quatro casos já houve sentença em prol dos corredores”, conta o advogado Reginaldo Ezarchi.

A Latin Sport, que realiza a Track& Field Run Series em todo o Brasil, entrou com recurso da decisão do juiz favorável ao pagamento da premiação a Edson Tibúrcio, vencedor dos 10k da etapa Campinas de 2016. “Como ainda não houve julgamento do recurso ainda não somos obrigados a nenhum pagamento. As premiações das corridas seguem um padrão nacional sem remuneração em espécie”, respondeu por e-mail a empresa, que não organizará mais a etapa do Circuito Track & Field do segundo semestre em Campinas. Procuradas, as outras duas empresas não se manifestaram.

Além da T&F, Edson Tibúrcio, 37 anos, venceu a Corrida da Lua, ambas 10k. Ele foi atleta do Clube Cruzeiro entre 2012 e 2013 e vive das premiações das corridas de rua. “Comecei a correr em1999, tenho muitas vitórias marcantes, por exemplo, este ano venci pela terceira vez consecutiva a corrida do aniversário de Cambuí (MG). E desta vez tinha um queniano, venci e fui o recordista do percurso. Outra prova emocionante foi a Meia Maratona Internacional de Praia Grande, em 2014, cheguei em segundo com 01:05:02 e disputando com os africanos”, conta.

Tibúrcio também espera a premiação de outra prova, a Etapa Submarine da Night Run, na qual o irmão dele, o Vanderlei, foi o terceiro colocado. “Infelizmente alguns organizadores de corridas de rua vêm desrespeitando a lei de Campinas que prevê o pagamento de premiação, muitos atletas vivem com dinheiro de premiação de corrida, inclusive eu”, diz. O fundista é da equipe D Run e Bionexo. A ideia da lei partiu dos próprios corredores de Campinas, que observaram o aumento significativo do número de provas com valor alto de inscrições, mas sem premiação em dinheiro.

Vida de corredor profissional não é moleza, Tibúrcio roda até 30k por dia, com apenas uma folga semanal. Ele conta com o patrocínio da Beeforyou. No próximo domingo, dia 30/7, ele vai competir os 10k da Challenger, em Paulínia. Domingo passado ele venceu a Corrida de São Sebastião do Paraíso, em Minas. Boa sorte Tibúrcio!

Valorizar o esporte

À espera de cinco premiações, entre elas o 5k da Corrida da Integração do ano passado, o fundista e treinador Elias Bastos, torce para que esta lei se torne nacional, valorizando o atletismo no Brasil. Natural de Assis Chateaubriand (PR), ele estreou nas corridas de rua para ajudar a levar comida pra casa. “Comecei a correr em 1988, em Vilhena (RO), na minha segunda corrida, com 13 pra 14 anos, minha mãe me disse: ‘filho, você não vai correr porque à noite não vai ter comida pra jantar em casa…’ Respondi que iria. Fui sabendo que em casa faltava um pacote de arroz. Cheguei em décimo e ganhei um pacote de arroz de 5kg! Foi muito gratificante e por isso não desisti do atletismo. Por isso que é importante ter uma premiação para os atletas, ou dinheiro ou algo de valor”, observa. Detalhe, essa corrida do saco de arroz, a segunda competição dele, era uma São Silvestre à noite, no último dia do ano.

Bastos, 42 anos, é treinador da fundista paraguaia Carmen Martinez, personal trainer e mora em Campinas. Sua corrida inesquecível foi a Maratona de Miami, em 2005, a qual venceu com a marca de 02:17:26! Ele treina em dois períodos e costuma rodar 180k por semana. Bastos ama correr, ele acaba de vencer a Maratona de Campinas com 02:28, essa ele recebeu o prêmio, e o próximo 42k será dia 6 de agosto em Assunção (Paraguay), da qual busca a segunda vitória, a primeira foi há sete anos. Aliás a melhor marca dele é 02:12:08 em Milão. Atualmente Bastos está sem patrocínio.

Entenda a Lei da corrida de rua

O advogado explica que, segundo o artigo 3º da Lei 14.952/14, os organizadores dos eventos de rua em Campinas, devem destinar no mínimo 10% do valor arrecadado com as inscrições para as premiações em dinheiro dos atletas. A lei especifica que estes valores devem ser distribuídos, nos eventos com até mil participantes, entre os cinco primeiros colocados na categoria geral, masculino e feminino, e o primeiro colocado nas categorias por faixa etária, masculino e feminino. No caso de eventos com mais de mil participantes, devem ser premiados os cinco primeiros colocados na categoria geral, masculino e feminino, e os três primeiros colocados nas categorias por faixa etária, masculino e feminino. “Só ficam excluídas desta lei as corridas que são realizadas por entidades beneficentes que revertam os valores arrecadados em obras sociais”, explica Ezarchi.

Segundo informações divulgadas no site da Câmara de Campinas, o vereador Tico Costa, autor do projeto, argumentou que “essa lei vem de encontro ao desejo de maratonistas e corredores que se utilizam das provas para arrecadar um capital mínimo que lhes garanta recursos para as próximas competições”.  O vereador afirmou que antes de encaminhar o projeto de lei ao plenário, onde foi aprovado por unanimidade quanto a legalidade e ao mérito, fez diversas reuniões com atletas amadores e entidades ligadas a esse esporte. “Além de ajudar os atletas que se destacam, os eventos na cidade se tornarão atraentes para competidores de outros municípios. Isso aumentará a qualidade técnica das corridas e ampliará a participação geral”, afirmou Tico Costa.  

Documento

para ler a íntegra da lei.

 

 

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