Covid-19: estudo indica que distanciamento entre corredores deve ser de no mínimo 10m

Covid-19: estudo indica que distanciamento entre corredores deve ser de no mínimo 10m

Por conta da relevância do resultado, pesquisadores decidiram divulgar a conclusão primeiro ao público.

SILVIA HERRERA

10 de abril de 2020 | 21h06

“Esta é uma contribuição modesta de engenheiros aerodinâmicos para ajudar um pouco na luta mundial contra a COVID-19.” Assim começa a primeira nota do estudo “Distância Social  v2.0: durante caminhada, corrida e ciclismo“, liderado pelo professor de Engenharia Civil Bert Blocken, da Eindhoven University of Technology (Países Baixos) e da KU Leuven (Bélgica). Explicam que resolveram disponibilizar o conteúdo da pesquisa primeiro para população, via imprensa, para agilizar a divulgação da conclusão, que impacta diretamente na prevenção. Paralelamente, a pesquisa já foi encaminhada para as revisões técnicas, para posterior publicação em veículo científico. Os resultados indicam que o distanciamento social nas caminhadas deve ser  de no mínimo 4m; 10m nas corridas, e 20m nas pedaladas.

Pesquisa foi realizada por duas universidades

A OMS preconiza que é saudável se manter ativo para assegurar a saúde física e mental durante a quarentena e não vetam atividades ao ar livre, desde que obedecidas todas as regras, com distância mínima de 1,5m dos outros, sem aglomeração e com todos os cuidados de higiene.  No entanto, esse novo estudo indica que não é bem assim. Por meio de simulação, os engenheiros identificaram que as gotículas “voam” mais longe do que 1,5m – mesmo sem tossir ou espirrar.

A regra da distância de 1,5 m  é “muito eficaz” para as pessoas que estão dentro de casa ou ao ar livre, sem praticar atividades. Mas quem faz caminhada, corre ou pedala deve ser um pouco mais cuidadoso. Segundo Blocken,  “se alguém respira forte, tosse ou espirra ao caminhar, correr ou pedalar, a maioria de suas gotículas é leveda na corrente de fuga, para atrás dele. E a outra pessoa que vier atrás, sem saber,  vai entrar nessa nuvem de gotículas.” É o que os ciclistas chamam de  vácuo, que se forma atrás do esportista. Quando você pedala atrás de alguém,  entra nesse vácuo e faz menos força. Na corrida tem isso também, e os pesquisadores comprovaram, que independentemente da velocidade e da intensidade, essa corrente se forma inclusive atrás dos caminhantes.  Essa área foi chamada de slipstream no estudo. E a slipstream forma  uma nuvem de gotículas atrás do esportista.

Foram simuladas a liberação de partículas de saliva de pessoas em movimento (caminhada e corrida) e em diferentes configurações (lado a lado, na diagonal e logo atrás). Normalmente esses modelos de simulação são utilizados para pesquisar como  melhorar a performance dos atletas de elite,  tanto corredores quanto ciclistas, porque é muito eficaz pegar o vácuo dos líderes, em algumas provas isso é até proibido. Já para se proteger do coronavírus, concluíram, que é recomendável fazer justamente o oposto,  fugir desa nuvel de gotículas formadas atrás do líder  para se proteger.

Confira as imagens*  utilizadas na pesquisa para ilustrar essa situação. As gotículas foram coloridas e formam uma verdadeira nuvem. As pessoas que espirram ou tossem espalham as gotículas com maior impulso, mas também aqueles que expiram emitem gotículas, ou seja, a nuvem é sempre formada. Os pontos vermelhos representam as maiores partículas, que podem ser consideradas as mais contagiosas e pesadas – como do coronavírus-, se a pessoa de trás entrar na nuvem será  contaminada. “Seria interessante uma pesquisa específica, feita por virologistas, para avançar nos detalhes dessa contaminação. O perigo está em ficar atrás de alguém que esteja contaminado, e não saiba que está, porque essas gotículas vão acabar dentro do corpo dela”, acrescenta o professor.

Covid-19 são as gotículas vermelhas

As simulações sugerem que o distanciamento social não é tão importante  quando duas pessoas caminham ou correm lado a lado, sem vento, já que a nuvem vai se formar atrás da dupla. E o risco de contaminação é muito maior quando as pessoas andam ou correm logo atrás umas das outras, entrando na nuvem de gotículas das pessoas que estão à frente. Na diagonal o risco também é menor, a não ser que haja vento nessa direção.

Para sua segurança e de sua família, se for permitido na sua cidade, vá se exercitar em dias sem vento e sozinho, mantendo 10 metros de distância, no mínimo, do corredor mais próximo. E se quiser ultrapassar alguém, comece esse processo assim que visualizar a pessoa, mudando do lado da rua – para ter um distância segura. Nunca espere até o último momento para fazer a ultrapassagem, pois entrará bem no meio da nuvem de gotícula dela. Prefiro não arriscar e continuarei treinando dentro de casa, até a pandemia passar.

  • As simulações foram realizadas com o Ansys Fluent CFD, com base nos estudos intensivos de validação para liberações de gás e partículas em diferentes velocidades em torno de manequins em grande escala representando corpos humanos. Esses estudos de validação serão relatados na pesquisa científica, que será publicada posteriormente.

 

Clique aqui para ler a matéria no site holandês HLN

Documento

para ler o pdf da conclusão do estudo

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