Da roça para a Maratona Olímpica

Da roça para a Maratona Olímpica

Daniel Ferreira do Nascimento estreou na maratona e ainda fez o índice olímpico

SILVIA HERRERA

26 de maio de 2021 | 10h26

O que você fez em 2020? Daniel Ferreira do Nascimento treinou forte em Bauru  e venceu: a Copa Brasil de Cross Country, a Meia Maratona Internacional de São Paulo; e os 10 mil metros do Troféu Brasil. Aos 23 anos e depois de um camping no Quênia, Danielzinho acaba de carimbar seu passaporte para Tóquio vencendo a Maratona do Bicentenário do Peru, aos 45 minutos do segundo tempo, em sua estreia na distância! A prova foi realizada entre as praias de San Miguel e Magdalena pela Federação Desportiva Peruana de Atletismo no domingo passado, 23 de maio. Foi a melhor estreia de um sul-americano nos 42k em toda a história:  2:09.04. Com este feito, o fundista  conquistou o índice olímpico e vai ser um dos três maratonistas brasileiros na Olimpíada de Tóquio. Detalhe, por conta da pandemia, o Peru fechou as fronteiras para os voos vindos do Brasil e Daniel conseguiu participar da competição, pois estava treinando no Quênia.

Daniel Ferreira do Nascimento venceu o Campeonato Nacional de Maratona “El Bicentenario del Perú”

No entanto, dois anos antes a promessa do atletismo quase desistiu após uma lesão no calcâneo. Ele achou que seria o fim de sua carreira, parou tudo e foi trabalhar na roça, em Paraguaçu Paulista, cidade do interior paulista onde nasceu. Por sorte, o irmão dele treinava em Bauru, na  Associação Bauruense de Desportes Aquáticos (ABDA), que apesar do nome contempla atletismo, e Daniel  acabou entrando para o time do treinador Neto Gonçalves. Com uma boa equipe multidisciplinar, os resultados começaram a aparecer, entre eles o de melhor brasileiro na São Silvestre de 2019, a décima primeira posição. “Daniel me procurou, pedindo uma oportunidade, ele estava um tempo parado, sem clube. Isso foi em maio de 2019 e desde então ele faz parte da nossa equipe e sou responsável pelo treinamento dele, e ele já participou de várias competições representando Bauru”, conta o treinador. Aliás, os jornalistas de Bauru elegeram Daniel o melhor atleta de 2020.

Daniel Ferreira do Nascimento treina com Neto Gonçalves há dois anos

Geralmente, os atletas profissionais só começam a correr maratonas depois dos 28 anos. “Conversamos sobre essa possibilidade, de correr a primeira maratona, praticamente durante todo ano passado. Fiz alguns contatos com outros treinadores e decidimos que sim, seria possível Daniel participar de uma maratona, tomando os cuidados adequados com as cargas de treinamento. E saiu tudo dentro do planejado”, explica Neto.

O problema era conseguir correr uma maratona rápida, já que todas as Majors foram adiadas para o segundo semestre. A ideia inicial seria correr a Maratona de Berlim, uma das adiadas. Depois surgiu a Maratona de Hamburgo, que foi transferida para a Holanda, mas exigia tempo de qualify.

Daniel Ferreira do Nascimento chegou no Quênia em 14 de abril de 2021

Do início do ano até abril, Daniel treinou normalmente em Bauru, e surgiu a oportunidade de realizar o primeiro sonho: treinar no Quênia. Com o apoio dos patrocinadores e do clube, Daniel e Neto voaram para Nairobi em 14 de abril, de onde foram para Iten – cidade dos campeões. Neto voltou nove dias depois e Daniel ficou treinando, a principio voltaria dia 12 de maio. Aproveitou e foi treinar também em Kaptaga, com atletas da Coreia do Sul. A ideia era treinar para o Troféu Brasil e o Campeonato Sul-americano.

No Quênia, Daniel viu a lenda das maratonas – Eliud Kipchoge treinando, e se motivou mais ainda em superar seus limites. Lá surgiu a oportunidade para realizar o segundo sonho: estrear na maratona e tentar fazer o índice olímpico.  A ABDA pediu para a Confederação Brasileira de Atletismo inscrever o Daniel na maratona peruana.

Em entrevista para o canal Contra Relógio, Daniel disse que planejava concluir os 42km em 2 horas e 8 segundos, mas que sentiu o “muro”  da maratona a dois quilômetros da chegada, quando seu ritmo caiu. Esta semana, Daniel ainda está no Peru e tem que fazer alguns exames para a Olimpíada, e retornará para o Quênia, onde fará a preparação para a Maratona Olímpica.

“Estava treinando no Quênia, muito focado para fazer o índice olímpico e não tinha provas. Graças a Deus o Peru sediou uma maratona… Pensei vou voltar ao Peru, país em que competi meu primeiro Sul-Americano quando tinha 13 anos. Vim pela Europa porque não estão aceitando voos vindos do Brasil e estou muito feliz. O percurso é muito bom, rápido, o clima estava perfeito e entrei muito focado no que eu queria”, disse Daniel a Confederação Brasileira de Atletismo.

A marca de Daniel é a quinta melhor da história na América do Sul, atrás de outros quatro brasileiros: Ronaldo da Costa (2:06:05), em Berlim; Marilson Gomes dos Santos (2:06:34), em Londres; Vanderlei Cordeiro de Lima (2:08:31), em Tóquio; e Luiz Antônio dos Santos (2:08:55), em Roterdã. O resultado é também o melhor da história alcançado em competição na América do Sul. Com a qualificação de Daniel, o Brasil passa a ter três atletas nos Jogos Olímpicos na maratona. Já têm vagas Paulo Roberto de Almeida Paula (2:10:08) e Daniel Chaves da Silva (2:11:10). O prazo para a obtenção de índice termina no dia 31 de maio.

Neto reforça que esta vitória é reflexo do trabalho em conjunto com a ABDA, que dá o suporte, a logística, como a médica Daniela Seda e a fisioterapeuta Alessandra Marques, que foram fundamentais para a recuperação completa de Daniel, logo que ele entrou na equipe. “Daniel é um talento e sabemos que é necessário o Brasil investir para que ele, como outros, possam se desenvolver, e para isso é necessário valorizar os profissionais que trabalham com esporte no país”, finaliza o treinador. Fica a dica para as marcas esportivas. Que venha Tóquio!!

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