Daniel Ferreira do Nascimento se prepara para a Olimpíada no Quênia

Daniel Ferreira do Nascimento se prepara para a Olimpíada no Quênia

Confira entrevista exclusiva com o maratonista brasileiro

SILVIA HERRERA

14 de julho de 2021 | 12h14

Desde que começou a treinar em 2012, o sonho dele sempre foi participar de uma olimpíada. Aos 22 anos, a hora de Daniel Ferreira do Nascimento chegou. O fundista que é de Paraguaçu Paulista, mas corre por  Bauru, interior de São Paulo, estreou na maratona com vitória, em maio deste ano, carimbando seu passaporte para o Japão em grande estilo, com a marca de 2:09:04, melhor estreia de um sul-americano na história e melhor tempo de um brasileiro nesta prova nos últimos nove anos. Agora ele está se preparando no Quênia, de onde seguirá para Sapporo, a 800km de Tóquio, para a Maratona Olímpica, que fecha a Tokyo2020 em 7 de agosto, às 19h (horário de DF). Entre 25 e 31 de julho, junto com ele vai embarcar seu técnico Neto Gonçalves, que fez de tudo e mais um pouco para ajudá-lo nesse sonho olímpico. Confira abaixo entrevista exclusiva com o maratonista brasileiro.

Danielzinho estreou na maratona este ano e com vitória – foto arquivo pessoal

Treinar no Quênia, em Iten (Cidade dos Campeões) é o sonho de todo maratonista da elite. Há campings disputadíssimos que reúnem os melhores do mundo. Com a ajuda de seu clube, a Associação Bauruense de Desportos Aquáticos (ABDA), e do seu treinador Neto Gonçalves, Danielzinho conseguiu viajar para lá no início do ano, o que foi crucial para a conquista do índice olímpico, e retornar para finalizar a preparação olímpica. Ele ainda não foi apresentado a Eliud Kipchoge, a lenda máxima das maratonas – único a completar os 42k sub2-, mas isso é questão de tempo. “Estou treinando bem próximo ao grupo dele. Kipchoge treina muito forte e está focado em defender seu título olímpico, ele venceu na nossa casa (Rio2016) mesmo com o clima bem quente. Todo dia ele acorda às 4 da manhã para treinar”, conta. Aliás, tente descobrir quem é o Daniel na foto abaixo, em um de seus treinos no Quênia*. Ele está totalmente integrado e com shape de queniano.

Daniel Ferreira do Nascimento está se preparando no Quênia

Na maratona, além de Danielzinho, que recentemente ganhou um patrocínio da adiadas, competem pelo Brasil Daniel Chaves (2:11:10), que também é atleta adidas e está no Quênia, e Paulo Roberto de Almeida Paula (2:10:08), que mora em Portugal e participará de uma olimpíada pela segunda vez (Londres2012 – chegou em 8º). O  recorde da maratona olímpica é do queniano Samuel Wanjiru (2:06:32 – Pequim 2008). A única medalha olímpica do Brasil em maratona é de Vanderlei Cordeiro de Lima (()2:12:11, bronze em Athenas-2004, quando o ouro escapou de suas mãos por conta de um irlandês maluco que o segurou. E o melhor tempo é de Marilson Gomes dos Santos em Londres-2012 – 2:11:10, quinto a cruzar a linha de chegada. Tomara que uma medalha olímpica venha e que seja um presente de aniversário para Danielzinho que vai completar 23 anos em 28 de julho.

Como é seu dia a dia no Quênia?

Daniel Ferreira do Nascimento – Estamos tranquilos, vivendo um dia por dia, e sempre mantendo o foco, prestando atenção até nas pequenas coisas para chegar 100% no Japão. Depois do treino é colocar as pernas pra cima e tomar bastante água, e ouvir música para relaxar, cuidar do psicológico. Na maratona, nos momentos críticos é psicológico que conta, e você tem que estar preparado para isso, por que lá na maratona olímpica, uma hora vai começar a doer dos pés à cabeça.

Quais são os planos para a maratona olímpica?

Daniel Ferreira do Nascimento – Por mais que minha grande oportunidade tenha chegado, este sempre foi meu objetivo desde que comecei a treinar em 2012. E por mais difícil que pareça ser, você sempre tem que seguir acreditando. Mesmo neste momento difícil que estamos passando no mundo, por conta da pandemia do coronavírus, vou dar meu máximo para representar bem o meu país. Vamos embarcar entre 25 e 31 de julho. Chegando lá vamos ter que entrar numa bolha, para que não haja risco de contaminação por Covid-19. E chegando lá temos que fazer a aclimatização. Aqui no Quênia estou treinando em altitude, com um clima bem parecido com o do Brasil, mas independentemente disso, é bom se aclimatar no local da maratona olímpica, que faz parte da estratégia para manter o foco na prova.

Qual sua playlist favorita nos treinos?

Daniel Ferreira do Nascimento – Eu gosto muito mesmo de música. Nos treinos coloco uma música calma, com batidas que sincronizem com meu batimento cardíaco. Para relaxar a cabeça eu coloco Os Barões da Pisadinha, Cupinzeiro, e os cantores novos como Gabriel Príncipe e João Gomes.

Todo maratonista tem um ritual na véspera da corrida. Qual é o seu?

Daniel Ferreira do Nascimento – É colocar as pernas pra cima e tomar bastante água, e ouvir música para relaxar, cuidar do psicológico. Na maratona, nos momentos críticos é o psicológico que conta, e você tem que estar preparado para isso, por que lá na maratona olímpica, uma hora vai começar a doer dos pés à cabeça. E você tem que estar psicologicamente preparado para superar isso.

Qual sua expectativa para a Olimpíada? Acha que dá para tentar quebrar o recorde brasileiro da maratona?

Daniel Ferreira do Nascimento – O percurso da maratona olímpica é muito mais tático do que rápido. Vou tentar melhorar minha marca, mas para quebrar recordes a melhor é a de Berlim, ou outra Major que permite pacers (coelhos) para ditarem o ritmo, o que facilita a quebra dos recordes. Na maratona olímpica isso não é permitido. É um contra o outro e Deus por todos. E todo mundo em busca de resultado. Se formos analisar, nos últimos anos não saíram marcas tão expressivas nas maratonas olímpicas como nas Majors. Na maratona o percurso é sempre difícil, para proporcionar um melhor espetáculo.

O que você vai levar na mala para te dar sorte?

Daniel Ferreira do Nascimento – Vou levar minha motivação e meu tênis para competir. Também vou levar livros, música e muito foco. E nossa bandeira, que é o principal.

Qual sua mensagem para os leitores que estão começando a correr?

Daniel Ferreira do Nascimento – Minha mensagem para os leitores, que estão começando no esporte e para àqueles que já correm também, é sempre acreditar no seu sonho, e nunca desistir. Hoje em dia, o mais fácil sempre é desistir. Acredite até o final, por mais difícil que tudo possa parecer. Quando começar a ficar fácil, não se engane, é você que está ficando mais forte. E quando você pensar que está ficando muito forte, na verdade você estará fraco, pois você ainda poderá ficar muito mais forte do que você pensa.

Obs.  – Daniel Ferreira está com o tênis vermelho, puxando a fila.

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