Eleonora Mendonça, a ativista por trás da Maratona do Rio

Eleonora Mendonça, a ativista por trás da Maratona do Rio

Confira entrevista exclusiva com nossa eterna maratonista que completa 73 anos

SILVIA HERRERA

13 de novembro de 2021 | 10h13

Não sabendo ser impossível, foi lá e fez. A carioca Eleonora Mendonça é dessas. Ela tem estilo e fôlego de sobra para encarar qualquer desafio. Neste sábado, 13 de novembro, ela completa 73 anos e há 30 criava a primeira Maratona e Meia Maratona do Rio, evento que terá sua 19ª edição nesta segunda-feira, 15 de novembro, marcando a retomada das grandes corridas de rua no Brasil. Eleonora, que corre diariamente, estará lá na chegada para receber os concluintes.

Eleonora Mendonça luta pela paridade de gênero no esporte há mais de 3 décadas. Foto Acervo Instituto Eleonora Mendonça

Muita gente nem imagina, mas correr uma maratona era proibido para as mulheres até o início dos anos 1970, e a carioca teve papel fundamental na liberação dessa e de outras modalidades para as mulheres. Atleta do tênis do Fluminense, uma lesão no joelho a levou para o atletismo no mesmo clube. Só que naquela época, a distância mais longa permitida a uma mulher eram os 800m. Nos anos 1970, ela foi fazer seu mestrado em Educação Física em Boston (EUA), meca da corrida de rua, e lá entrou para o Comitê Internacional de Corredores, se tornando a presidente em 1979. Conseguiram a liberação dos 1.500m rasos, distância que ela mesma quebrou vários recordes sul-americanos; e da maratona olímpica, que foi disputada pela primeira vez pelas mulheres na Olimpíada de Los Angeles, em 1984.  Eleonora foi a única representante brasileira, finalizou com o tempo de 2h52m19s, foi a última a cruzar a linha de chegada, a 44ª. O resultado pouco importava para as 50 atletas de 28 países, todas saíram de lá vitoriosas. E Eleonora foi detentora do recorde brasileiro feminino na maratona por oito anos, batido por ela quatro vezes.

Chegada de Eleonora Mendonça na 1ª maratona olímpica feminina em 1984. Foto: Acervo Instituto Eleonora Mendonça

Além de atleta, ativista, organizadora de corridas de rua, ela também criou a primeira revista de corrida de rua, “A Corrida”, e trabalha há mais de três décadas defendendo a participação de cada vez mais mulheres no esporte. Em 2017, fundou o instituto que leva seu nome, do qual é a presidente, e em julho deste ano foi homenageada com uma linda exposição no Centro Cultural dos Correios no Rio de Janeiro.

Eleonora vive parte do ano em Boston (EUA), e parte no Rio. “Não consigo parar, continuo a me exercitar todos os dias. Levanto-me, escovo os dentes e vou correr, ou vou para a musculação. No Brasil, tocamos os projetos do meu instituto e nos EUA, estamos dialogando para melhorar os dilemas que estão ocorrendo no esporte, e para o reconhecimento dos atletas que fizeram a diferença, para o esporte ser o que é hoje”, observa a campeã, que concedeu entrevista exclusiva para o Blog Corrida para Todos.

Qual a melhor lembrança da primeira Maratona Olímpica feminina?

Eleonora Mendonça: Até 1984, a distância máxima de uma competição olímpica para as mulheres era 1.500m. E o Comitê Internacional dos Corredores, do qual eu fazia parte, fez muito lobby para a paridade nos eventos internacionais. Lutamos muito. Em 1981 conseguimos que o Comitê Olímpico Internacional (COI) aprovasse para as mulheres competirem nas olimpíadas as distâncias de 3 mil metros rasos e a maratona. E essa primeira maratona olímpica feminina marca minha carreira como ativista e atleta, um fato duplamente comemorado e reconhecido. Foi um momento maravilhoso, um sentimento de missão cumprida. Lembro nitidamente de entrar no túnel que dá acesso ao estádio, e pensava, meus pés não me falhem agora. São muitas as lembranças e as emoções. E são elas que me motivam a fazer sempre algo mais pelo esporte em geral, mas principalmente o atletismo.

O que te impulsionou para abrir a Printer, sua empresa de organização e produção de corrida de rua?

Eleonora Mendonça: Nos anos 1970, eu estava nos Estados Unidos, e conheci as pioneiras das corridas, inclusive as que foram banidas das corridas por terem corrido acima de 800m. O que impedia isso? A razão era simples, se uma mulher corresse todos os participantes seriam desclassificados. O problema estava nas regras, no COI e nas confederações. Tomei conhecimento dessa discriminação lá. Em 1976, fui convidada a correr a São Silvestre (ela foi pódio). Antes de vir perguntei qual outras corridas teriam e fiquei assustada com a resposta. Eram só algumas poucas militares. E me ofereci a ajudar a organizar. E assim nasceu a Printer, com meu amigo Paulo César Teixeira dois anos depois. O jornalista Yllen Kerr também participou, mas não queria que o nome dele aparecesse. Fizemos a primeira corrida em Copacabana, 8km, em julho de 1978. Na época trabalhava na New Balance, e trouxe dos EUA vários tênis para dar como prêmio. Na época todo mundo fazia cooper, que era a corrida. A gente distribuía ficha de inscrição correndo de manhã. Foram 400 participantes. Fizemos várias outras provas, com visuais diferentes. Percebemos que as pessoas queriam distâncias maiores. Decidimos fazer a meia maratona, em junho, e um mês depois, a maratona. A largada e chegada foram na Escola de Educação Física do Exército, para ser a chegada numa pista de atletismo, como nas olimpíadas. E quero deixar registrada aqui a minha tristeza, que na Rio 2016 foi negada à maratona essa tradição. Terminaram no Sambódromo. Uma vergonha! Única maratona olímpica do mundo que não terminou em um estádio.

Naquela época você tinha a dimensão da importância do esporte para o empoderamento das mulheres?

Eleonora Mendonça: Sinceramente não. Queríamos apenas dar uma oportunidade de as pessoas correrem. Já se sabia que a corrida era uma atividade para a vida inteira. Você só precisa de um bom calçado. Pode correr sozinha ou em grupo. Queria abrir essa porta da corrida de rua para o brasileiro. Plantamos a semente das corridas de rua no Brasil, e há corrida que iniciamos que são feitas até hoje, como a Leblon – Leme, além da Maratona do Rio. Queríamos oferecer uma atividade saudável aos brasileiros, oferecer qualidade de vida.

O que você destacaria da Corrida Feminina Avon, a primeira do gênero na América Latina, uma 5km realizada em 8 de junho de 1980?

Eleonora Mendonça: Essa corrida foi um marco na América Latina. As mulheres tiverem que lutar para participar das corridas de rua, foram discriminadas, criticadas: “seu lugar não é aqui, é na cozinha”. E a importância da primeira corrida de rua feminina aqui foi uma oportunidade de empoderamento sem igual. A mulher se liberta através do esporte, principalmente no esporte individual, você está lutando com você mesma. É o seu momento. Não importa se o motivo é estético, ou saúde, ou esporte, a corrida é um momento só dela. Às vezes me pego pensando, nossa, participaram 450 mulheres nessa prova, nunca imaginaria esse crescimento, hoje as mulheres são maioria. Fizemos essa corrida para mostrar ao COI que a mulher poderia correr, e que isso era benéfico para a saúde.

Qual sua mensagem para as mulheres que vão correr pela primeira vez na 5km, da Maratona do Rio, no dia 15 de novembro?

Eleonora Mendonça:  A primeira corrida é o primeiro passo, ela é única. Curta o momento, estabeleça um objetivo alcançável e leve com você os bons momentos.

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