Fique ligado nos sinais do quadril

Fique ligado nos sinais do quadril

SILVIA HERRERA

04 Fevereiro 2017 | 17h55

Confira os cuidados e tratamentos para os membros inferiores entrarem no ritmo perfeito e evitar lesões.

People photograph designed by Kjpargeter

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Pode até parecer pouco, mas as lesões no quadril representam de 3 a 11% do total de traumatismos nos membros inferiores e, na maioria das vezes, podem ser causados por microtraumas de repetição. Aquele lance de correr em desnível, tipo tá raso tá fundo, e achar que é normal. Vai que você está entre esses 11%? Esses microtraumas de repetição geram sobrecarga excessiva nos tecidos sem que eles tenham tempo suficiente de cicatrização. Não é só isso. O ortopedista Giancarlo Polesello, especialista em cirurgia de quadril, professor e chefe do Grupo de Afecções do Quadril da Santa Casa de São Paulo e médico do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês, ouve diariamente os mais diversos relatos, inclusive de corredores de rua.

Ele explica que correr na areia fofa da praia, por exemplo, não é perigoso, desde que sejam tomados alguns cuidados. “Correr no desnível pode ter efeito como se um membro inferior fosse menor que o outro por conta do desnível da praia. Isso pode gerar sobrecarga mecânica e dor nos membros inferiores, no quadril e pelve”, alerta. Para aliviar esse tipo tensão, o ortopedista recomenda aos corredores melhorem a propriocepção e fortalecimento da musculatura em torno do quadril e da pelve antes de aventurar-se por esse tipo de terreno. Aliás, mesmo na praia, o corredor deve usar o tênis. Nossa essa foi direto pra mim que amo correr descalça na beirinha do mar… Polesello explica, que além do risco de machucar os pés, a absorção da carga axial que vem do solo em direção ao corpo é maior. E a outra dica seu treinador já repetiu 10 trilhões de vezes: antes de começar a correr, realize uma boa avaliação funcional e prepare seu corpo para a atividade (veja as dicas abaixo). Estes cuidados vão contribuir muito para a longevidade da corrida e evitar afastamento por lesões.

O “xis” do problema é que o quadril tem uma grande quantidade de estruturas que podem ser lesionadas por nós, intrépidos corredores, quando aumentamos a intensidade e duração da atividade física, sem orientação profissional adequada. É aquele velho caso de começar a correr e no mês seguinte se inscrever para todas as 10k, dando sprint negativo. Para piorar, claro sempre dá para piorar, a anatomia complexa do quadril pode tornar o diagnóstico difícil ou confuso. “Lesões no quadril implicam em longos períodos de afastamento, pois podem necessitar de cirurgia e reabilitação intensiva, antes do retorno ao esporte”, alerta o ortopedista.

Ouça os sinais do seu corpo, veja se a cartilagem vai bem obrigada. Como dizem os fisioterapeutas, a dor boa é a muscular as outras são perigosas. Se começar a sentir uma dorzinha no quadril que não melhora com nada – nem fisio nem massagem nem remédio – é melhor correr para o ortopedista.  Problemas com cartilagem podem ser o estopim da artrose, ou seja, o desgaste dessa cartilagem.

 

Além dos corredores, estão nessa lista de próximas vítimas: boleiros, praticantes de tênis, golfe, hockey, beisebol e até beach tenis. Até um aparentemente inofensivo leg press (aparelho de musculação) ou agachamento, executados com a biomecânica errada pode acarretar uma rotação interna da articulação incorreta e causar danos. “Se o praticante, por ventura, apresentar algum bloqueio de rotação interna do quadril pode levar a graves lesões da articulação, dentre elas a lesão no lábio acetabular, causada pela síndrome do impacto femoro-acetabular, frouxidão ligamentar, displasia ou outras afecções. Forças axiais e torcionais na prática esportiva também podem levar a essas lesões. Fraqueza da musculatura adutora do quadril foi observada em atletas com lesão labial. Lesões ligamentares do joelho e na coluna vertebral foram observadas em esportistas que têm deficiência na rotação interna do quadril”, explica Polesello. Nessas situações, pode ser indicada a artroscopia para correção das lesões dentro da articulação, que deve ser feita o mais rapidamente possível, já que geralmente esse tipo de lesão é progressiva levando a artrose da articulação do quadril e necessidade de outras intervenções por vezes mais agressivas, como uma prótese articular.

O ex-corredor de rua Eduardo Pierre Tavares teve diagnóstico de artrose de quadril há cerca de quatro anos. Antes ele disputava meias maratonas e 10ks e teve que encerrar sua carreira como corredor de rua. Ele entrou em contato comigo com as dúvidas abaixo e eu acrescentei mais algumas. Se você também tiver dúvidas, escreve em comentários que encaminho para o dr. Polesello. #CorridaParaTodos #Quadri

Gostaria de saber se há casos de corredores com artrose de quadril que de alguma forma se recuperaram e voltaram aos treinos? Imagino que o universo de pessoas que passam por isso e tem de abandonar as provas é grande.

Giancarlo Polesello – Realmente, Eduardo, o universo de corredores e outros esportistas que têm lesões aumenta a cada dia, tanto pelo aumento do número de praticantes como pelo aumento na expectativa de vida. A artrose que você se refere é um processo degenerativo que desgasta a cartilagem articular, ou seja, a camada que recobre as superfícies ósseas e que evita atrito osso no osso. A ciência ainda não tem meios eficientes de reparo da cartilagem, mas muito estudo vem sendo feito. Enquanto não se descobre uma maneira eficiente de repor a cartilagem perdida, o método mais eficiente é evitar que uma lesão que pode afetar a cartilagem se expanda a ponto de tornar-se irreversível. A doença mais comum do quadril e que leva à artrose, tanto em atletas quanto nos sedentários, chama-se impacto fêmoro-acetabular, um conjunto de alterações da anatomia óssea, que tem fator genético como causa e que, na sua perpetuação, provoca o dano articular. Sendo assim, o recomendável para alguém que se encontre na situação de dor e inaptidão esportiva é procurar um especialista para saber em qual grau a artrose se encontra e fazer o diagnóstico preciso da sua causa. Uma vez estabelecido que a causa é o impacto fêmoro-acetabular e que ele encontra-se em fase em que não há grande lesão da cartilagem, pode-se sim tentar preservar a funcionalidade articular e muitos atletas voltam ao esporte nos mesmos níveis de antes da lesão.

Há algum tratamento novo? 

Giancarlo Polesello – Hoje em dia existe tratamento com remédios e fisioterapia para os praticantes de atividade física antes que a lesão articular se expanda e acabe por danificar a cartilagem, que deve ser preservada sempre que possível. Por sinal, quanto mais precoce o tratamento, maiores chances da lesão ser contida. Importante frisar que o atleta deve fazer uma avaliação com profissional especializado como médico ortopedista, fisioterapeuta, educador físico antes de começar a prática esportiva. Esse profissional vai avaliar se o “giro” do quadril é adequado para essa prática. O problema é que dentro da articulação, qualquer uma, não há sangue. Dentro de uma articulação há liquido articular, uma espécie de lubrificante e que também nutre as estruturas. Saber isso é muito importante, já que não tendo irrigação sanguínea a capacidade de cicatrização de lesões diminui drasticamente. Sendo assim, tudo o que se deve evitar é ter uma lesão dentro de uma articulação. Quando isso já aconteceu, geralmente o paciente não melhora com remédios ou fisioterapia, ou ainda ocorrem períodos de melhora intercalados com períodos de dor, o que é comum observar-se na prática clínica. Uma vez que isso esteja acontecendo, a intervenção com cirurgia artroscópica muitas vezes está indicada, pois a estabilização dessas lesões antes que ocorra expansão para a cartilagem pode preservar a articulação. A técnica artroscópica na articulação do quadril é relativamente nova e consegue com uma intervenção minimamente invasiva avaliar a extensão do dano articular e promover o reparo e estabilização destas estruturas, propiciando o retorno às atividades normais em muitos pacientes atletas e ativos que num passado recente não tinham outra opção a não ser parar seu esporte ou conviver com dor.

Nos casos que haja a necessidade de colocação de prótese o paciente pode voltar a correr? Em quais situações o corredor amador terá de se aposentar?

Giancarlo Polesello – Não é recomendável voltar a correr no caso de colocação de prótese. Mas a aposentadoria depende de vários fatores. Se o corredor souber preservar-se de lesões, conhecer seu corpo e ter conhecimento adequado, a resposta pode ser nunca.

O que seria impacto-femoro acetabular em linguagem mais simples?

Giancarlo Polesello – O contato anormal entre o acetábulo, que é o receptáculo da cabeça femoral no quadril, e o fêmur. Nesse contato anômalo, o conflito ósseo pode afetar a cartilagem que recobre as superfícies articulantes e com isso danificar irreversivelmente a articulação.

4 DICAS DE FORTALECIMENTO

da fisioterapeuta Andreza Maroneze

Ponte: deitar de barriga para cima com os braços esticados e joelhos dobrados. Contrair o abdome e elevar o quadril, mantendo suspenso por 10 segundos e retornar. Repetir 3 vezes.

Prancha ventral: deitar de barriga para baixo com os cotovelos e antebraços posicionados no chão na largura dos ombros e pernas estendidas com a ponta do pé apoiada no solo. Contrair o abdome e elevar o tronco com o corpo alinhado e paralelo ao chão, manter suspenso por 10 segundos e retornar. Repetir 3 vezes.

Equilíbrio estático: iniciar o treino descalço com apoio de 1 pé no solo, fixar o olhar em um ponto à frente e manter a posição de 30 segundos a 1 minuto. Após a proposta ser cumprida, feche os olhos. Em seguida, dificulte o estímulo utilizando outra superfície: almofada, colchonete ou cama elástica.

Equilíbrio dinâmico: iniciar o treino com apoio de 1 pé no solo, fixar o olhar em um ponto à frente e movimentar os braços como se estivesse correndo. Manter o movimento de 30 segundos a 1 minuto. Após a proposta ser cumprida, movimente a perna oposta para frente e para trás simulando a atividade. Em seguida, dificulte o estímulo utilizando outra superfície: almofada, colchonete ou cama elástica.

Saiba mais: site O Quadril

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