Há 10 anos Adriana Aparecida da Silva quebrava o recorde Sul-Americano da Maratona

Há 10 anos Adriana Aparecida da Silva quebrava o recorde Sul-Americano da Maratona

Maratonista brasileira fez a marca de 02:29:17 na Maratona de Tóquio

SILVIA HERRERA

26 de fevereiro de 2022 | 14h02

A corrida de rua ressignificou a vida de Adriana Aparecida da Silva, natural de Cruzeiro, interior de São Paulo. Na adolescência,  ser a mais rápida significava levar comida para casa. E de pódio em pódio ela conseguiu competir na São Silvestre e ser a terceira, em 2004. Com o prêmio, deu uma casa para sua mãe. Mas que isso, chamou a atenção do treinador Cláudio Castilho, hoje CEO da CBAt, que a levou para as maratonas. E com isso, sendo uma atleta da elite, foi contratada pelo Esporte Clube Pinheiros e assinou um patrocínio com a ASICS. E há dez anos, em 26 de fevereiro de 2012, tentando uma vaga para a Olimpíada de Londres, ela quebrou o recorde Sul-Americano da Maratona feminina com o tempo de 2:29:17, que continua sendo o recorde brasileiro. Atualmente o recorde mundial dessa modalidade, corrida de rua com 42.195m, pertence a queniana Brigid Kosgei (02:14:04- Chicago/2019), e o Sul-Americano, da peruana Inês Melchor (02:26:45 – Berlim/2014).

Adriana Aparecida da Silva venceu o Pan de Guadalajara, em 2011

O feito brasileiro foi feito na Maratona de Tóquio. Como a organização não convidou a atleta brasileira, só queriam fundistas com tempo máximo de 2 horas e 30 minutos, Adriana teve o apoio fundamental da ASICS e do Pinheiros para fazer pressão. E ela foi lá, com seu jeitinho carinhoso, e conseguiu  o recorde sul-americano, brasileiro e pessoal, e assim carimbando seu passaporte para disputar a primeira olimpíada. Por conta da pandemia do coronavírus, a Maratona de Tóquio 2021 vai ser realizada em 6 de março de 2022, com presença confirmada dos dois recordistas mundiais: Brigid Kosgei e Eliud Kipchoge. A etapa virtual já está acontecendo, os corredores podem completar a prova remotamente até 5 de março.

Adriana Silva participou de dois Jogos Olímpicos, Londres e Rio; e é bicampeão Sul-Americana, com recorde estabelecido em 2011, que foi quebrado em 2019, pela peruana Gladys Tejeda (02:30:55). Na Maratona de Tóquio, em 2012, cerca de 284 mil pessoas participaram do sorteio que selecionou 36 mil participantes. Apenas 46 mulheres correram abaixo de 3 horas, e nossa Adriana foi a nona a cruzar a linha de chegada.  Venceu a etíope Atsede Habtamu, que estabeleceu recorde da prova, com 02:25:28. No masculino venceu o queniano Michel Kipyego, com 02:07:37.

Ficha da Adriana Silva, na Tokyo Marathon 2012

3 PERGUNTAS PARA ADRIANA APARECIDA DA SILVA

Qual sua lembrança desse momento histórico na Maratona de Tóquio em 2012?

Adriana Aparecida da Silva – Dia desses estava procurando alguma foto desse dia, mas não encontrei. A lembrança mesmo é o resultado em japonês, que está no site. Eu tinha uma grande missão naquele dia. Foi uma prova muito dura e já entrei com uma grande responsabilidade, apesar de não ter sentido isso na largada. Independentemente de como saísse o tempo eu estava lá para dar o meu melhor. Eu tinha treinado muito para essa prova e sabia que estava muito bem. O desafio era correr a maratona para 2:30:06 e há muito tempo que uma corredora brasileira não fazia uma marca desse nível. Ou fazia esse tempo ou não iria para as olimpíadas. A Maratona de Tóquio já tinha o selo Ouro da federação internacional e era uma das Majors, e dentro dos critérios da organização não aceitavam atletas da elite com tempo superior a 02:30, e na época meu tempo era de 02:32, que tinha feito na Maratona de Berlim, e por isso não queriam me aceitar de jeito nenhum. A 20 dias da competição, ainda sem a resposta da organização se eu poderia ou não competir, e já traçando um Plano B que seria correr a Maratona de Londres, em abril, mas eu já estava chegando no pico (melhor momento) do meu volume de treino para correr os 42k. E quando faltava 15 dias a organização liberou minha participação dando somente a inscrição (a organização das provas banca a vinda dos atletas, inclusive com cachê). E foi aí que o Clube Pinheiros e a ASICS me ajudaram com a passagem aérea, hospedagem e alimentação. Fui muito bem recebida lá pela ASICS Japão, até fui convidada para a inauguração de uma loja em Tóquio.

E como foi no dia da Maratona de Tóquio?

Adriana Aparecida da Silva – O dia amanheceu com a temperatura baixa, menos 3ºC, muito frio. Sabia que estava muito bem treinada, mas tudo pode acontecer numa corrida de longa distância. Completei a primeira metade da prova, os 21km, com 01:15:06, uma marca muito apertada para conseguir o índice olímpico, e se ocorresse algo errado na segunda parte da prova já estaria fora dos Jogos Olímpicos. Mas consegui negativar a prova (fazer a segunda parte da maratona mais rápida do que a primeira), com 01:14:27. Cruzei a linha de chegada muito feliz, no TOP 10, fui a nona. Na hora não tinha a noção do que tinha acontecido, e foi o Cláudio que me deu a notícia, que não só eu tinha conquistado o índice olímpico e que eu tinha acabado de bater o recorde brasileiro e sul-americano. Foi muito marcante para mim esse 26 de fevereiro de 2012.

Você é bicampeã Pan-Americana, como foi a primeira vitória em Guadalajara (México – 2011), com a marca de 02:36:37?

Adriana Aparecida da Silva – Foi a maratona que mais gostei. Não é uma maratona fácil, era um percurso em looping, com quatro voltas. Ganhei uma medalha de Ouro e bati o recorde Pan-Americano, uma vitória em cima da favorita, a mexicana Madai Perez (recordista mexicana), com muito sol, temperatura de 28ºC , muito quente e muito seco, apenas 20% de umidade, e muita emoção no final. É a maratona que lembro com mais carinho, a que me trouxe muito aprendizado e me trouxe reconhecimento. Dali para a frente não era mais Adriana Silva, mas Adriana Maratonista. Ao vivo no Terra, 30 mil pessoas assistiram a vitória. Foi uma surpresa muito grande, não só lá no México, mas no Brasil também.

 

 

 

 

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