Andrezinho, do projeto social ao alto rendimento: um exemplo para a molecada de Itaquera

Andrezinho, do projeto social ao alto rendimento: um exemplo para a molecada de Itaquera

Há 16 anos ele não tinha onde morar, hoje está entre os 5 melhores atletas do Brasil

SILVIA HERRERA

13 de fevereiro de 2021 | 12h16

O despertador toca às 4h20 na casa de André Luiz Silva Antonio, de 34 anos. Ele calça o tênis e se manda pelas ruas de São Bernardo do Campo para correr 8 quilômetros antes do nascer do sol. Se alonga durante o banho, engole café e zarpa às 6h para o trabalho, onde tem de bater o cartão às 7h. Ele é o encarregado da Oficina Ortopédica no setor de Prótese e Órtese do Hospital das Clínicas em São Paulo. A labuta vai até as 16h.

De lá, ele vai direto treinar 60 minutos no  Parque Ceret. Toma uma ducha gelada e acelera para a Faculdade de Educação Física estudar. A aula começa às 19h. Volta para casa às 23h, e a filha de 3 anos o recebe com um grande sorriso e cheia de energia, quer brincar de cavalinho. Consegue ir dormir lá pela meia-noite e meia. No dia seguinte, é a mesma batida. No sábado, ele ‘descansa’, só corre 10km. E no domingo tem longão de 20km.

“Um dia não podia ter apenas 24 horas, é muito pouco”, brinca Andrezinho, que é o atleta mais antigo de meio fundo do A.D.C. São Bernardo, onde está desde 2012. Sua dedicação ao esporte vem dando resultados expressivos. Em dezembro, Andrezinho, como é conhecido no mundo das corridas, entrou para o seleto time dos cinco melhores atletas de alto rendimento de sua categoria no Brasil.

Projeto AEC Kauê abriu as portas do esporte para Andrezinho

Ele é  o atual campeão do Troféu Cidade de São Paulo (10 km, de 2020), tradicional corrida de rua em celebração ao aniversário de Sampa. Está vitória encerrou um jejum brasileiro de três anos, quando só africanos subiram no degrau mais alto do pódio. Em dezembro, na última edição do Troféu Brasil de Atletismo, maior competição da América Latina, ele foi 5º nos 5 mil metros (30:23:53) e, dois dias depois, o quarto nos 4 mil metros (14:27:23), melhorando sua marca nas duas distâncias. Seu sonho é ser top 3 no Troféu Brasil. E tem reais chances para isso. A competição está prevista para junho.

“Meu trabalho é minha válvula de escape, assim corro bem, sem me preocupar em como pagar as contas”, observa. “Com os dois salários, mais as premiações, consegui comprar um apartamento, onde minha mãe mora hoje com meus irmãos em Itaquera. E, independentemente de vencer, meu objetivo na corrida é sempre buscar o meu melhor, e os resultados vão aparecendo”, conta.

Ele acrescenta que, desde março de 2020 e até agora sem provas e, consequentemente, sem premiações, muitos atletas que não têm uma segunda renda estão sofrendo bastante. Outro ponto positivo é que, por ser profissional da área da Saúde, já recebeu a primeira dose da vacina contra o novo coronavírus.

Além de focar no Troféu Brasil, outra meta de Andrezinho é abrir uma assessoria esportiva, mas só depois de se formar em 2021 e, assim, poder oferecer mais qualidade de vida para as pessoas, principalmente para a criançada no projeto AEC Kauê, onde seu sonho começou, em Itaquera, na zona leste paulistana.

“Nunca passou pela minha cabeça
que um dia seria do alto rendimento no atletismo

Na infância, Andrezinho sonhava em jogar futebol, ser um dos astros do gramado. Apesar de ter nascido e se criado em Itaquera e a família toda torcer pelo Corinthians, ele é palmeirense. Como a situação financeira de sua família era bem apertada, entrou no Projeto  Kauê aos 12 anos para jogar futebol com a molecada. “Naquela época, passávamos muita dificuldade, até meus 12 anos minha família mudou umas 40 vezes de casa, algumas vezes fomos despejados, até minha mãe – para não ter de morar na rua – decidir invadir uma casa. O dono foi lá para nos tirar, mas quando nos conheceu, ele se sensibilizou e nos emprestou o imóvel por um tempo, mas não tinha nem água nem luz. Foi a casa que ficamos mais tempo, dois anos e meio, e como era o mais velho da família, eu que ia buscar água. Nunca me envolvi com nada errado, e trabalhava com tudo que aparecia, como puxar carrinho na feira, ambulante na Rua 25 de Março… Tudo para levar comida pra casa, que era perto do projeto social”, explica.

Até que em 2005, o convidaram para participar de uma corrida de rua. Ele treinou duas semanas com o pessoal e foi participar da  Zumbi Classic 10K, que ele completou em apenas 35 minutos! Um mês depois, lá estava ele no último dia do ano correndo a São Silvestre, que finalizou em 52 minutos! Com os amigos, as apostas eram corridas, quem perdia pagava a Coca-Cola. E como a grana era curta, ele dividia os tênis das competições com os amigos da Kauê.

“Nunca passou pela minha cabeça que um dia seria do alto rendimento no atletismo, meu sonho era ser jogador de futebol. Conheci o atletismo com o Fran (Francisco Carlos da Silva), idealizador desse projeto social”, conta Andrezinho. “Já são 16 anos na corrida e hoje não me vejo fora do atletismo”, completa.

Quando o esporte entrou na vida de Andrezinho, acendeu uma luz no fim do túnel. Com as premiações e a contratação do Esporte Clube Pinheiros, ele juntou dinheiro e conseguiu comprar um imóvel para sua família. “O esporte não se resume apenas a uma largada e uma chegada, ele tem o poder de transformar você em uma pessoa melhor. Tanto que o Projeto do Fran não é para formar atletas de alto rendimento e sim formar cidadãos. E foi o que aconteceu comigo. As crianças se espelham em quem está mais perto. Há uma fartura de maus exemplos na periferia e o projeto social fez e faz a diferença”, destaca Andrezinho, que conversou com exclusividade com o Blog Corrida para Todos. Confira.

No entanto, houve um gap no atletismo no fim de 2006, quando Andrezinho desanimou por não ter condições financeiras para comprar bons tênis de corrida e bancar nutricionista e fisioterapeuta. Ficou sem correr até 2008, ano que passou em um concurso público no HC, o que deu uma estabilizada financeira no orçamento da família. E vendo que os colegas do projeto estavam correndo pelo Esporte Clube Pinheiros, se animou e voltou a correr. “Muita gente pensa que o atleta da elite só treina, mas tem casos como o meu que alia uma profissão com a vida de atleta profissional”, explica. Com a indicação do projeto Kauê, ele conseguiu entrar no Pinheiros. No sub-23. “Foram três dias de testes e passei. Fiquei até 2012 representando o ECP, quando sai para entrar na equipe de São Bernardo. De todos os atletas do ECP, eu era o único que trabalhava fora e treinava”, observa. Ele acrescenta que no ECP conheceu o maratonista José Teles, atleta por quem tem a maior admiração, que também tinha outra fonte de renda e fazia 10km em 28 minutos (o recorde brasileiro dos 10km  é 27:28:12, de Marílson dos Santos). “Ele estava praticamente encerrando a carreira quando entrei no clube e ele me aconselhou a continuar no meu trabalho e conciliar com a vida de atleta de alto rendimento”, observa. Diferentemente dos salários dos jogadores de futebol, um atleta de nível olímpico, craque do atletismo brasileiros, chega a ganhar no máximo R$ 12 mil mensais, mas quem está começando ou não tem ainda bons resultados recebe por volta de um salário mínimo.

Andrezinho (à direita) no Projeto AEC Kauê

 

Como foram seus treinos durante a pandemia no ano passado?

André Luís Silva Antonio – A pandemia é muito complicada, muitas vidas perdidas, meus sentimentos a todos que perderam seus entes queridos. Como trabalho no HC, fazia testes da COVID-19 direto. Inclusive, já fui vacinado dia 19 de janeiro. Em março de 2020, com as pistas todas fechadas, parei total. Estava numa fase muito boa, vinha tendo ótimos resultados. Sou muito grato por não ter contraído o vírus, trabalhando em hospital, com uma criança em casa. Fui muito julgado durante a pandemia, estava ficando louco de ficar preso dentro de casa e decidi voltar a treinar nas ruas. Fui muito xingado nas redes sociais, mas resolvi não rebater. E passadas duas semanas, encontrei todos os meus algozes correndo na rua. Me julgavam principalmente por eu trabalhar no hospital. No entanto, me sentia e me sinto muito seguro dentro do hospital onde são seguidas à risca todos os protocolos de segurança.

Como você começou no atletismo?

André Luís Silva Antonio – Comecei como guia voluntário, assim corria e não precisava pagar as inscrições, já não tinha condições para isso. A solução para eu poder ter acesso ao kit era ajudando alguém. Fui na Estação Especial da Lapa e me ofereci para ser guia de um atleta deficiente mental. Ele era muito bom, corria 10km para 36 minutos. Ele treinava muito forte, mas às vezes ele parava do nada, essa era exatamente a deficiência dele. Como eu corria 10k para 35 minutos, unimos o útil ao agradável. Eu suava igual a um frango na panela para acompanhá-lo. E deu muito certo. Fui o guia em dezenas de corridas e duas ficaram na lembrança: Sargento Gonzaguinha e Troféu São Paulo. Nesse época, meu objetivo era me tornar um atleta de alto rendimento e sair no pelotão da elite dessas duas provas. Por quê? O pelotão dos atletas portadores de deficiência larga 15 minutos antes da elite. Quando a gente chegava no km 7, a elite nos passava. E consegui realizar esse sonho. Em janeiro de 2020, corri e venci o Troféu São Paulo. Perto da chegada, o povo gritando meu nome, o narrador da prova se deu conta que não era um queniano e foi a maior festa. O narrador falou tanto na hora da premiação que dei graças a Deus que o queniano, segundo colocado, não entendia português. E a Gonzaguinha, que também venci, fui o primeiro não militar a ganhar essa prova.

Você continua no Projeto Social?

André Luís Silva Antonio – Minha mãe e meus irmãos continuam morando na zona leste, vira e mexe estou lá e vou no projeto, aplicar treinamento para a criançada. Não podemos esquecer nossas raízes. Tenho muito a agradecer ao projeto. Na própria faculdade, consegui entrar com o apoio deles. Sozinho a gente não chega a lugar nenhum. No início do atletismo, que tive de dar uma parada, parei porque é necessário recursos para calçados, suplementação, fisio. E infelizmente, as empresas patrocinadoras querem só os atletas prontos, não querem investir nas jovens promessas, na recreação. No exterior, as grandes marcas começam a investir nos atletas na recreação. Nos EUA, as faculdades são muito caras, mas os atletas ganham bolsas, e as marcas já começam a patrocinar. Eles dão suporte. Tenho alguns amigos que moram lá. Por aqui, tenho há nove anos o suporte da Sport Nutrition, com nutricionistas, que fazem a grade de suplementação e alimentação. Também tenho o apoio da Ativando Fisioterapia, profissionais excelentes. E sou muito grato ao projeto, que me ajuda até hoje. No alto rendimento, você está no extremo o tempo todo. No ECP costumam dizer que quando você se torna atleta não é mais uma pessoa normal. E  o que torna você diferente não é nem tanto o tempo que você dedica ao esporte e sim o quanto você abdica de sua vida. Você se cobra o tempo todo.

Pensa em ser maratonista? 

André Luís Silva Antonio – Nunca me vi correndo uma maratona, já passei por grandes treinadores e o que estou agora, Marcos Quintanilha, está com essa ideia na cabeça. Para não criar confronto, topei correr uma meia e não é que cheguei em segundo lugar! Foi na  SPCity de 2019. Mas teve uma jornada antes. Lembra do incêndio e desabamento do edifício no Largo do Paiçandu , em maio de 2018? Fiquei mal com isso, pelo fato de já ter vivido a mesma situação. E houve uma corrida da subprefeitura em homenagem aos mortos nessa catástrofe e aos desabrigados. Nessa época só corria prova com premiação em dinheiro. Essa não tinha, mas resolvi correr, para prestar minha homenagem às famílias que perderam tudo. Venci a corrida e me disseram que teria um pódio, foi no Largo da Batata. Recebi um vaso húngaro, que valia mais de R$ 3 mil, e também uma viagem e hospedagem para cinco noites e quatro dias em Portugal, para correr a Meia de Lisboa. Foi uma baita surpresa. Fomos para o hotel mais chique de Lisboa, com tudo do bom e do melhor. Meu treinador me disse, como você ganhou a viagem, vamos fazer a SPCity como treino. Mas faltando 60 dias para a prova, sofri um acidente de moto. Resultado: 40 dias de cama. Fui correr a SPCity com apenas 15 dias de treinamento, sentei na graxa… fui o 15º colocado. Aí o treinador me disse: ‘Ano que vem vamos voltar nessa prova’. Voltei e fui segundo, perdi para o campeão pan-americano. Meu treinador quer que eu faça uma maratona, mas  só quero depois de me formar, termino a faculdade em 2023.

Como foi a viagem para Portugal?

André Luís Silva Antonio – Maravilhosa, voo direto da TAP. Um cara que nasceu lá na periferia, crioulo, que tinha tudo para dar errado, que só tinha um par de tênis, quando ia fazer feira e só depois das 2 horas para pegar as frutas caídas no chão, estava lá na Europa com os melhores atletas portugueses, comendo do bom e do melhor. Quem nos viu e quem nos vê. Mas, tirando isso, sou humildade pura, ainda não conquistei tudo o que eu quero, mas tenho tudo que preciso e saúde para correr atrás dos meus desafios. Estamos na luta.

Confira abaixo, o vídeo com a íntegra da entrevista

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