Leite condensado não é indicado para esportistas

Leite condensado não é indicado para esportistas

Ministério da Defesa usaria ingrediente para "aumentar" a energia dos soldados

SILVIA HERRERA

28 de janeiro de 2021 | 16h29

Boa parte da lista dos alimentos consumidos pelo governo federal em 2020 é o sonho de consumo de qualquer criança: pizza (R$1,2M), biscoito (R$ 50,1 M), chocolate (R$ 16,1), bombom (R$ 8,8M), amendoim torrado (R$ 4,4M), batata frita (R$ 16,5 M), macarrão (R$ 17,7M), pão de queijo (R$ 8,7 M), requeijão (R$ 15,6 M), salgado (R$ 14, 7 M), sorvete (R$ 13,9 M), suco ( R$ 52, 5 M), refrigerante (R$ 31, 5 M), pudim (R$ 6,5 M), bolo (R$ 18, 1M), pipoca (R$ 1 M),  doce de leite (R$ 8,9M), chiclete (R$ 2,2 M) e leite condensado (R$ 15,6M), este último – é uma preferência nacional, e do atual presidente. Engordei meio quilo só escrevendo essa lista. No fim, jogaram a culpa do cardápio nos soldados, para terem mais “energia”.

Mais da metade do leite condensado é açúcar

Posso estar enganada, mas nunca ouvi da boca de um recruta que há alguma iguaria que contenha leite condensado na hora do “rancho”, que aliás é praticamente espartano. Já almocei por duas vezes nesses locais: uma quando meu irmão estava “servindo” na PE; e outra no refeitório dos oficiais dos Bombeiros. Não recomendo a experiência. O mais estarrecedor foi a justificativa oficial: “a aquisição de altas quantidades de leite condensado pelas Forças Armadas se dá pelo potencial energético do item para a alimentação de 370 mil homens e mulheres, que realizam refeições em 1.600 postos militares em todo País”. A justificativa acrescenta ainda que usam o leite condensado no lugar do leite. Só que na mesma lista também há leite em pó, R$ 16 milhões, um milhão a mais do que o condensado. E realmente não há leite fresco na lista. Deveriam anunciar o cardápio atual das Forças Armadas na campanha de alistamento, com certeza a quantidade  de interessados iria dobrar…

Nas corridas nunca vi ninguém saboreando leite condensado, nem em saladas de frutas. O pessoal, me incluo aqui, aprecia mais um açaí ou mesmo uma cerveja gelada depois de cruzar a linha de chegada e, como no ano passado só teve corrida até março,  quem caiu no doce foi mais por tédio do que “para ter energia”. Nas minhas planilhas nutricionais nunca houve espaço para leite condensado, mas sim para castanhas, água de coco, massas. Para verificar o potencial nutricional do leite condensado, conversei com o DR. Eduardo Rauen, nutrúlogo e médico do esporte do Hospital Albert Einstein, que tem entre seus pacientes vários maratonistas:

“O leite condensado contém muito açúcar, e por isso é um alimento não recomendado para esportistas pela nutrologia. Só em casos de exceção, para um doce no fim de semana. No entanto, para atletas nunca indicamos esse item, por ser um açúcar simples e rápido.”

A cada 100 gramas de leite condensado há 54 gramas de açúcar – mais da metade – e 341 calorias! O produto foi desenvolvido em laboratório pelo francês Nicolas Appert, em 1820. Ele pesquisava formas de conservar os alimentos, retirando água e colocando açúcar.  Desde 2015, a Organização Mundial da Saúde recomenda diminuir a ingestão de açúcar, a no máximo 50 gramas por dia – no caso de adultos. O ideal seria metade disso – 25 gr, mais ou menos duas colheres de sopa rasas. Nessa conta não entram o açúcar das frutas (frutose) nem do leite (lactose) – aqui é o leite da vaca!  O açúcar é essencial para o bom funcionamento do organismo, mas na medida certa. Em 2018, o

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se prontificou a reduzir o açúcar – dados do Ministério da Saúde apontavam média diária de 80 gramas por brasileiro e por causa disso o aumento da obesidade e várias outras doenças. A meta era atingir essa redução até 2022, e que iriam divulgar o primeiro índice em dezembro de 2020. Alguém viu isso por aí?

 

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