Maratonista, adaptar-se é preciso

Maratonista, adaptar-se é preciso

Confira entrevista com o médico nutrólogo e do esporte, Dr. Eduardo Rauen

SILVIA HERRERA

17 de maio de 2020 | 10h10

No dia 11 de março de 2020 a Terra parou. Nesta data a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia do novo coronavírus: Covid-19. Nos quatro cantos do planeta foram iniciadas as quarentenas, já que o isolamento social é único remédio eficaz para conter a contaminação e diminuir o número de mortos. Pouco a pouco todas as maratonas foram adidas e, consequentemente, os ciclos de treinos interrompidos, algumas vezes a uma semana da corrida. E vale destacar que o treino para uma maratona é de no mínimo de seis meses, e exige total comprometimento do corredor amador, com relação a treinos, alimentação e vida social.

Recente pesquisa da Tícket Agora, maior plataforma de venda de inscrições de eventos esportivos no Brasil, indica que 20% dos esportivas trocaram os treinos pela dieta; e a maioria deles, 44%, diminuiu a frequência. E estes dados revelam que ao menos 60% dos esportistas estão fazendo sua parte, não treinando nas ruas para não contaminar ou ser contaminado, já que só quem tem sintomas graves foi testado até o momento. Vale ressaltar que a quarentena foi decretada em 23 Estados brasileiros, depois prorrogada em 18 deles e há mortes em todos os 26 Estados mais o DF.  E quanto menos gente se contaminar menor será o número de doentes a espera de um leito de UTI do Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, como metade da população não tem respeitado a quarentena, já há cidades com lockdown e a quarentena pode ser estendida até  final de julho. Os países que fizeram a lição de casa já começam a reabrir, como a Eslovênia.

Dr. Rauen acompanha de perto vários atletas

Para entender a melhor forma para os maratonistas se adaptarem a esse novo cenário, conversamos com o Dr. Eduardo Rauen, médico nutrólogo e do esporte, que acompanha muitos maratonistas, bikers, jogadores de futebol e atletas, em geral. “Temos que fazer algo, mesmo que não seja o ideal, qualquer atividade física que fizermos trará uma vantagem, neste momento, a imunidade”, afirma Rauen.

O médico faz uma analogia bem interessante: “um paciente grave com infecção da Covid-19 é como se fosse um maratonista que não descansa nunca. O paciente grave da UTI está exigindo tudo do seu preparo físico, da sua frequência cardíaca, da pressão arterial, do gasto metabólico, porque seu organismo está reagindo em tempo integral à uma infecção, o que é muito similar à uma atividade física intensa. Quem se prepara a vida inteira para correr maratonas, numa situação de doença é um tipo de paciente que consegue reagir melhor, com uma resposta imunológica melhor do que um paciente sedentário”.

Quem já completou uma maratona entendeu muito bem este recado. A partir do km 32, cada passada é uma superação, até cruzar a linha de chegada para comemorar a vitória. Tenho costume de dedicar cada quilômetro das corridas que participo a um amigo diferente, e durante o trajeto mando energias positivas para ele. Sempre dá certo e a jornada fica mais leve. Confira abaixo alguns trechos da entrevista. E baixo o vídeo, com a íntegra.

Além das restrições dos treinos e da alimentação, como gerenciar o estresse?

Eduardo Rauen – O maratonista pensa assim: “nossa, cancelaram o meu sonho”. Ele tinha prometido correr a maratona em homenagem a um ente querido. Essa pessoa tinha feito um planejamento, criado expectativas. Agora ela tem que saber gerenciar isso e usar toda essa energia para cuidar da imunidade, da saúde. Na verdade, estamos vivendo um grande problema. E, às vezes, é até um pouco de egoísmo ficar chateado por causa do adiamento da maratona planejada. É muito difícil, mas tem que aprender a lidar com isso. Hoje, muitas pessoas estão internadas fazendo a maratona da vida. Estão dentro da UTI fazendo sua grande corrida, e o prêmio é sair de lá com vida! Esta é uma reflexão muito importante neste momento para os maratonistas que estão sofrendo com suas provas canceladas e ou adiadas. Nosso momento é de se colocar no lugar do próximo. De usar a máscara, não para mim, mas para proteger você. É o momento de um cuidar do outro.

O corredor tem um pulmão melhor do que um sedentário?

Eduardo Rauen – Um paciente treinado tem uma capacidade aeróbica aumentada, ele tem um VO2 aumentado, o que significa uma maior capacidade de carrear oxigênio, por isso a resposta é sim. Ele será um paciente que terá uma resposta melhor ao tratamento com ventilação, do que um sedentário. E como a respiração é o sistema alvo desta doença, ele terá uma resposta melhor. O VO2 máximo (obtido em exame ergoespirométrico) indica o preparo daquele corredor. Quanto maior, melhor.

Quem ainda pode treinar na rua?

Eduardo Rauen – Temos que seguir as determinações das autoridades. Em São Paulo, capital, os treinos não podem ser realizados nas ruas e até os parques foram fechados. Não é seguro. Passo sempre próximo à Praça Vinicius de Moraes, em frente ao Palácio do Governo, indo para o Hospital Albert Einstein trabalhar e sempre vejo várias pessoas fazendo caminhada, elas não estão lado a lado, mais uma atrás da outra, e no sábado estava bem cheio. Não há contato físico, mas pode haver contaminação por conta da trajetória das gotículas. Há um estudo belga (clique aqui para ler) que mostra que durante atividade física, as gotículas podem chegar até 20 metros, no caso do ciclista. São pesquisas com um universo restrito, pois vivemos um momento crítico enfrentando uma doença nova, e é melhor respeitar as orientações. Quem mora em uma cidade que não foi decretada quarentena e os parques estão liberados, pode treinar na rua. Mas deve fazer treinos moderados. Não é a hora de fazer uma maratona. Porque depois esforço, desse estresse que vai exigir tudo do seu organismo, vai baixar a imunidade e você pode pegar uma gripe, herpes. Com acompanhamento de nutrólogo você pode controlar isso e não ter baixa de imunidade, mas são poucas as pessoas que têm acesso a isso. Sabemos que a maioria dos maratonistas corre na raça mesmo. Faça longões lentos e não passe dos limiares 1 e 2.

E com a diminuição dos treinos, como deve ser a alimentação?

Eduardo Rauen – É preciso fazer uma matemática aqui. Se os treinos diminuíram, o gasto calórico também diminuiu. Se diminuiu o gasto calórico tenho que diminuir a ingesta. O maratonista passa a vida inteira treinando, está acostumado a ingerir de 3 mil a 4 mil calorias por dia, mas ele gasta 1.200 calorias só no treino. De repente ele não está mais treinando. E agora ele parou. Agora ele tem que reduzir 1.200 calorias da dieta diária dele. Agora é o momento de recalcular a dieta. É igual as fases da nossa vida. Os pais ficam impressionado com o apetite dos filhos adolescentes. Eles comem muito porque estão na fase de crescimento.  Na menopausa, as mulheres têm mais facilidade de engordar. Comem pouco e engordam. E agora existe a fase da quarentena. E essa fase é uma menopausa forçada. De repente todo mundo parou, o gasto calórico caiu absurdamente e continuamos com os mesmos hábitos. E aí há o ganho na balança.

O maratonista mais rápido do mundo, Eliud Kipchoge, sempre faz um mês de off após uma maratona. A quarentena seria um bom momento para descansar?

Eduardo Rauen – Um atleta profissional como ele, sim. Mas um maratonista amador não. Ele vai perder muito da aptidão física. O Kipchoge tem uma equipe inteira de profissionais cuidando dele. E consegue fazer um off de maratona de uma maneira inteligente. Mas mesmo ele agora deve estar fazendo algum tipo de treinamento. Por exemplo, aquele maratonista muito magro que sempre sofre lesões, este é o momento de refletir: o que tenho que fazer agora que nunca tive tempo para fazer? Ele deve investir no fortalecimento. Meu maior problema no dia a dia do consultório e convencer um maratonista a fazer musculação. E todos devem fazer uma reeducação alimentar. Para maratona não adianta só o treinador, ou só o nutrólogo e o fisio. É uma união de coisas. Há pacientes que gastam menos energia para correr porque tem uma boa biomecânica, eles são os caras que terminam a prova mais inteiro, que ganham as provas. E tem o paciente que gasta muita energia para correr. E ele tem que melhorar alongamento, biomecânica, postura. Agora é o momento para aproveitar o tempo e melhorar isso. Você pode pegar uma situação de problema e usar a seu favor.

E para quem está perdendo peso durante a quarentena, o que fazer?

Eduardo Rauen –Esses são os hiper metabólicos. Eles são muito energéticos e dificilmente engordam, e  emagrecem quando param de fazer atividade física. Eles perdem massa muscular fácil, e na quarentena o melhor a fazer é musculação, fortalecimento. Já os que engordam com facilidade são os anabólicos, eles têm que comer menos. Não tem apenas uma resposta, há uma resposta distinta para cada indivíduo, avaliando cada caso. Mas de uma maneira geral, todo mundo tem que fazer alguma atividade física. Por exemplo, com duas cadeiras é possível fazer um treino de 40 minutos. Há várias lives e vídeos com os mais diferentes tipos de treinamentos, se você não tiver um Personal, é interessante fazer. Faz agachamento, três séries de 15 até joelho 90º graus vão aumentar a frequência cardíaca para 150, faz polichinelos, faz alguma coisa.  Mas cuidado para não se machucar em casa. Este mês já atendi dois casos de acidentes domésticos.

 

 

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