Mulheres ativas têm 25% menos chances de ter câncer de mama do que as sedentárias

Mulheres ativas têm 25% menos chances de ter câncer de mama do que as sedentárias

Confira a história da maratonista e coach Debs Aquino

SILVIA HERRERA

16 de outubro de 2021 | 10h06

Uma revisão de 73 estudos sobre a relação da prevenção do câncer e a atividade física, publicada há dez anos,  concluiu que as mulheres ativas tiveram 25% menos chance de ter câncer de mama em comparação com as sedentárias. Ou seja, isso já seria um bom motivo para aposentar o controle remoto e iniciar as caminhadas. Mais, as mulheres ativas têm uma recuperação 20% melhor, nos casos de incidência de câncer de mama, do que as sedentárias. E foi durante um autoexame que a maratonista amadora Deborah Aquino, a Debs, notou algo diferente e foi procurar o médico. Esta atitude pode ter salvo a vida dela.

A Influencer Debs Aquino na Maratona de Nova York, em 2017

Mas não é o que acontece na maioria das vezes. Infelizmente, durante a pandemia do coronavírus, muitas mulheres deixaram de fazer os exames de rotina  e até chegaram a abandonar os tratamentos. De acordo com o Data SUS, mais de um milhão de mulheres não fizeram os exames preventivos, o medo da Covid-19 foi um dos motivos, o que acabou resultando em  66 mil novos casos da doença nesse período. E um dos grandes problemas é a falta de próteses mamárias no SUS. A fila de espera para a reconstrução de mama pode chegar a sete anos, tempo que a paciente vai ficar mutilada, e são feitas campanhas para doação de recursos para esse fim.

Há a estimativa de 66.280 casos novos de câncer de mama para cada ano do triênio 2020-2022, número que corresponde a um risco estimado de 61,61 casos novos a cada cem mil mulheres, segundo o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), órgão do Ministério da Saúde. E estudo de fevereiro de 2021, divulgado pela Agência Internacional de Pesquisas sobre o Câncer,  mostra que pela primeira vez na história o câncer de mama é a neoplasia mais diagnosticada no mundo, passando o de pulmão pela primeira vez. E, segundo a mastologista  Monique Valois (também ginecologista e 0bstetra do Hospital Dia Campo Limpo, administrado pelo CEJAM), a prevenção nunca foi tão importante, com a realização do autoexame e exames de rotina. “Alguns estudos indicam que até 40% dos casos de câncer poderiam ser evitados”, completa.

O câncer de mama é o mais comum no mundo

Debs Aquino conta sua história no livro “Num Piscar de Olhos”. A maratonista foi diagnosticada com câncer de mama em 2013, aos 38 anos. “Em 2013 tudo estava dando certo, achei que seria o melhor ano da minha vida, me casei, nossa Lua de Mel foi correr a Maratona de Berlim, depois fomos para a Itália. Não poderia ser mais perfeito, mas desde abril já estava acompanhando alguns nódulos. Isso foi uma saga particular. Desde que descobri o nódulo tinha algo que me dizia que eu já estava com câncer”, conta Debs.  E apesar dos médicos falarem que não era nada, ela foi atrás. “Em dezembro de 2013 foi diagnosticada com câncer de mama”, lembra.

Ela costuma dizer que o câncer foi um “presente” para ela. Debs explica que nessa época, ela estava um pouco desconectada da realidade, um pouco deslumbrada com o sucesso nas redes sociais, ela foi uma das primeiras influencers de corrida de rua no Brasil, e logo conquistou 10 mil seguidores no seu perfil no Instagram, hoje são 129 mil no @debsaquino. Ela recebeu o diagnóstico enquanto estava com a filha, de 2 anos no colo, na sala de espera da sua dermatologista. “Pensei, se eu morrer de câncer o que vou deixar pra minha filha? Vou deixar um Instagram que fala de corrida, umas medalhas, um troféu e é isso. Meu marido com certeza vai se casar de novo e minha filha nem vai se lembrar de mim”, refletiu Debs naquele segundo. E essa reflexão a fez mudar imediatamente o rumo de sua vida. Desde então, todos os dias quando ela acorda pensa em qual legado vai deixar para a filha e sua família. “Para mim essa foi a maior lição. Viva a vida todos os dias, você não sabe o que vai acontecer amanhã”, explica.  Ela teve que fazer mastectomia e se submeter a 16 sessões de químio, que ela encarou como se fossem cada um dos quilômetros de uma corrida.  “A corrida me ajudou muito a enfrentar a químio, a passar essa fase de uma forma menos pesada”, explica. Ela acredita que por ser ativa e sempre ter tido hábitos saudáveis passou melhor pelo tratamento. “Praticamente não senti os efeitos colaterais quando comparo com minhas amigas sedentárias que tiveram câncer na mesma época”, compara. Durante todo esse processo ela não parou de se mexer, e fez as atividades que conseguia, como correr, pedalar ou nadar.

Debs e a filha Duda, foto do livro “Um Piscar de Olhos” -Guto Gonçalves

Dra. Monique Valois acrescenta que há fatores de risco que podem ser evitados para se “correr” do câncer de mama, como por exemplo, sedentarismo e obesidade, e que realmente ter hábitos saudáveis tornam o tratamento mais leve. “Realmente faz diferença, a pessoa ativa e que tem hábitos saudáveis se recupera melhor e sente menos os efeitos colaterais, e tem menos chances que a doença volte, em torno de 20% a menos. É muito importante praticar atividade física pelo menos 3 horas por semana, ou seja, aumenta a chance de cura. E fazer os exames de rotina, descobrindo o câncer no início, aumenta a chance de cura em 90%”, acrescenta a médica. E por isso, todos os anos, a campanha Outubro Rosa serve para conscientizar e informar sobre a necessidade dos exames e, também, como um incentivo e encorajamento para que as mulheres possam aprender a fazer o autoexame e a cuidar mais de sua saúde. “A mamografia pode detectar o câncer de mama em até um ano antes de conseguir ser apalpado”, observa Monique.

Uma das principais preocupações para mulheres que são acometidas pelo câncer de mama, além do agravamento da doença, é perder um ou ambos os seios. Mas hoje, via cirurgia plástica, a reconstrução mamária auxilia as pacientes que precisaram retirar o seio. “É uma cirurgia plástica reparadora, que visa auxiliar a autoestima de mulheres e também dos homens, pois ainda que o índice seja baixo, também eles podem ter câncer de mama”, explica Arnaldo Korn, diretor do Centro Nacional – Cirurgia Plástica.

TATUAGEM REPARADORA

Tatuagem Reparadora Sergio Leds – antes e depois

A reconstrução mamária é feita após a mastectomia, ou seja, depois da remoção da mama em consequência ao tratamento do câncer. Há mais de uma opção para esse procedimento, o primeiro, que é o mais conhecido, trata-se do implante de silicone debaixo da pele, e o segundo, o retalho abdominal, que tira pele e gordura da região do abdômen para utilizar nos seios. Depois também é importante a reconstrução da auréola e do bico. E o tatuador Sergio Leds, fundador do studio Leds Tattoo, foi o primeiro no Brasil a desenvolver uma técnica em 3D, que deixa a mama reparada igual a mama natural, o que resulta em um baita ganho de autoestima. O problema é que faltam próteses mamárias no SUS, com filas que podem chegar a sete anos. O tatuador sempre faz parceria com o Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho para oferecer as tatuagens reparadoras gratuitamente para as pacientes do SUS. E trabalha também em conjunto com a oncologista Vivian Coski, que acaba de publicar o livro “Oncologia Integrativa”, e a fisio oncológica  Taluana Jamel, do perfil PitadaPositiva, e por meio delas é possível se inscrever nas campanhas para serem atendidas pelo SUS. “Não tem preço deixar um ser humano feliz, faço esse trabalho com muito amor. É muito bonito ver as mulheres, antes mutiladas, felizes de novo. Ter o dom para realizar isso é realmente muito gratificante”, conta o tatuador.

CAMPANHAS PARA RECONSTRUÇÃO DE MAMAS

As próximas campanhas para atendimento para reconstrução de mama serão dias 18 e 19 de outubro no Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho, e nos dias 26 e 27 no Leds Tattoo, com a presença da dra Marcela Barreto, oncologista, e a Taluana.  “Fora o Outubro Rosa, se a paciente passou pelo SUS e precisa fazer a tatuagem reparadora, e não tem como bancar esse procedimento, fazemos alguns atendimento durante o ano, por isso podem entrar em contato conosco. Mas o principal problema é a escassez de próteses, a fila pode demorar até sete anos mutilada”, explica o tatuador Sergio Tattoo. Quem quiser e puder doar o dinheiro para as próteses de silicone, ou mesmo as próteses, as doações podem ser feitas para: Doações (doutorarnaldo.org)

Confira abaixo as entrevistas completas:

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