‘Mulheres, tenham coragem de se abrir’

‘Mulheres, tenham coragem de se abrir’

Você está acostumado a ler aqui sobre corrida e exercícios físicos. Hoje, peço licença para contar a história da Cecília*

SILVIA HERRERA

08 Março 2018 | 03h00

Foto: Arte/Estadão

Geralmente você lê sobre corrida e exercícios físicos aqui, mas hoje vou emprestar minha coluna para a Cecília*, de 26 anos. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida – se deparam com ainda mais violência. Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos – homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

“Minha família é do interior de Minas Gerais, perdi meus pais em um trágico acidente aos 7 anos e me senti muito solitária. No entanto, sempre fui muito determinada, alegre e realista.
Quando passei no vestibular para Medicina tive que me mudar para o interior de São Paulo, para uma cidade que nunca tinha havia estado antes.

Tudo ia bem na minha nova cidade até eu conhecer Walter*, um homem dez anos mais velho do que eu, super carismático, extrovertido e cheio de amigos.

Walter não trabalhava ou estudava, mas sabia como ninguém conversar com qualquer pessoa. Me apaixonei e começamos a namorar. No início, me sentia uma verdadeira princesa ao lado dele. Ele, sempre disponível, fazia o dia virar noite, não tinha chuva, não tinha sol, Walter fazia absolutamente tudo o que eu pedia. Passávamos várias noites bem juntinhos no meu apartamento.

Vivíamos um conto de fadas, até que, quatro meses depois, veio a primeira briga. Estávamos em uma festa, ele ficou bêbado e discutimos porque eu queria ir embora. Consegui convencê-lo e fomos para o meu apartamento. A discussão se agravou. Muito bêbado, ele gritava e me xingava de vagabunda, piranha… Minha primeira reação foi expulsá-lo, mas senti vergonha dos vizinhos do prédio e acabei deixando-o ficar por lá. Não sabia, mas foi nessa noite que o pesadelo começara.

Dois meses depois, Walter me agrediu fisicamente, foram vários socos e chutes. Resultado: quebrou meu celular e cortou minhas roupas. As agressões começaram a ser frequentes. Qualquer coisa era motivo suficiente para uma briga.

Quando saímos à noite com os amigos, se eu bebesse, ele dizia que eu era uma vagabunda, que ‘dava em cima’ de todas as pessoas, porém, se eu não bebesse, era uma velha chata. Nada, absolutamente nada que eu fizesse era certo para ele, que fazia questão de metralhar minha autoestima e me afastar de todos os meus amigos, até eu não ter mais nenhum.

Às vezes, quando estava tudo aparentemente bem, uma palavra que o desagradasse era o estopim para uma guerra nuclear. Walter se transformava em um monstro e fazia questão de me humilhar. Irônico e debochado, fazia pouco caso de mim, falava que eu era chata, reclamona, muito brega e inadequada e por isso não era popular como ele, que tinha vários amigos.

Abandono. Foram dois anos de agressões, humilhações e assédio moral. Mas o pior de tudo era quando Walter ameaçava ir embora. Fragilizada, sofria mais ainda só de pensar em ser abandonada pelo homem que amava. Com tantas perdas na minha vida, não suportaria mais uma. Era o meu maior medo. Entrava em pânico toda vez que ele dizia que iria embora.

Sem autoestima, tinha a certeza que Walter estava certo, pois ele tinha vários amigos, sobravam convites para festas e viagens. E eu não tinha ninguém, a não ser ele.
Demorou para eu ver a realidade que estava à minha frente. Era uma estudante de Medicina, que morava sozinha, totalmente apaixonada e dependente de um psicopata.

Por várias vezes fui com o rosto cheio de hematomas para a faculdade, resultado das agressões. Nunca tive coragem de contar a ninguém sobre as agressões. Muito menos compreendia o motivo de ficar insistindo nessa relação doentia.

Certa noite, um ano e meio depois do início do nosso relacionamento, fui espancada, com chutes, socos, quase fui enforcada. Durante essa agressão, Walter ria e me xingava exaustivamente. A partir desse dia prometi a mim mesma que nunca mais ninguém iria fazer mal para mim. Procurei pessoas mais próximas e pedi que fossem comigo à delegacia. Fiz a denúncia e procurei tratamento com psicólogos e psiquiatras.

Coragem. O tratamento foi evoluindo e tomei consciência da situação, que não adiantava tentar recuperar um falso amor, um relacionamento que tinha me deixado aos cacos. O livro ‘Sequestradores de almas’, da psicóloga Silvia Malamud, me ajudou muito nesse processo, percebi que não estava sozinha, que o comportamento dos agressores é muito semelhante.

E, ao conversar com outras mulheres, comecei a perceber o quão perigoso ele era, que todas as vezes que eu achei que pudesse morrer eram reais.

Mulheres tenham coragem de se abrir e seguir em frente. Não é fácil, a Justiça não tem as melhores condições, mas você não estará sozinha. Existem pessoas boas, que acreditam em você. Passem por cima da vergonha, da ilusão da dependência, seja psicológica ou financeira. Encare! Não voltem atrás porque cada dia que voltamos é um dia desperdiçado das nossas vidas, não vale a pena! Trilhe um outro caminho que você terá a sua vida de volta, dia por dia.

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vítima.