Novos caminhos para a corrida de rua

Novos caminhos para a corrida de rua

Entrevista com Ligia Pimenta, doutora em Psicologia pela PUC, e referência internacional em processos colaborativos

SILVIA HERRERA

31 de maio de 2020 | 10h45

De um dia para outro, chegou a COVID-19. Uma nova doença, sem cura, que pôs o mundo de joelhos. O único remédio disponível oferecido de imediato tinha um gosto muito amargo: o distanciamento social. Trancar toda a população dentro de casa. E foi como dezenas de países fizeram, alguns com êxito e outros nem tanto, enquanto o saldo de mortes só foi aumentando. Até a corrida de rua chegou a ser proibida  em alguns países, como a Espanha e Itália. Na Irlanda foi criado um horário de saída de casa para atividade física, dividido por faixa etária. A Olimpíada foi transferida para 2021, as maratonas foram sendo adiadas, e a mais antiga delas, a de Boston, teve a edição cancelada pela primeira vez na história, virando uma opção virtual, para quem assim desejar. E no Brasil? E na sua cidade? Sem julgamentos, é hora de nós, corredores de rua, pararmos para conversar. O que você está fazendo? Qual sua sugestão? Escreva aqui nos comentários.

Mulher foi perseguida e multada na Espanha por correr na rua

Entrevistamos Ligia Pimenta, doutora em Psicologia pela PUC, tem muita experiência como facilitadora, em conduzir conversas transformadoras, para entender melhor esse momento em que vivemos e tentar traçar algumas soluções para nosso universo da corrida de rua. Ela tem vasta atuação no terceiro setor, governo e grandes empresas, tendo inclusive trabalhado como consultora da Unesco, criando espaços, onde as boas conversas possam transformar. Transformar pessoas, relações, contextos, que possam gerar transformações satisfatórias e necessárias.

MOMENTO COMPLEXO

Enquanto não existe vacina será que corro o risco de contaminar alguém ou de me contaminar, se sair correndo sozinho às 5h?  Como é uma doença nova, não há essa resposta. Segundo os infectologistas, o risco seria mínimo. E seu correr sem máscara com meus amigos às 10h da manhã em volta de um parque, que está fechado? Os infectologistas diriam que nesse cenário há  risco de contaminação. Mas se na minha cidade há menos de cem casos de contaminação, posso correr em uma estrada de terra que não passa uma alma viva? Médicos do esporte dizem que sim, desde que você corra sozinho. E se na cidade que eu moro tem mais de seis mil mortos, como a capital paulista, posso correr de máscara? Sim, você estaria obedecendo a lei, que é sair de máscara.  Mas cá entre nós, você consegue mesmo correr de máscara? Qual sua dica? O que fazer para não pirar durante a quarentena já que a minha válvula de escape é exatamente a corrida na rua e não tenho condições de comprar ou alugar uma esteira e correr em casa? São muitas as variantes…

corredora usa máscara para correr na Itália

Ligia tem algumas considerações bem interessantes sobre todos esses pontos. Confira abaixo alguns trechos da nossa conversa, realizada na quinta-feira, durante uma Live. Ou se preferir, confira a íntegra no link abaixo. E mais. Ligia faz um convite para marcarmos uma roda de conversa virtual, para juntos, nós corredores, encontrarmos saídas para nosso novo normal, novas possibilidades, com a mente e ouvidos abertos. Será uma oportunidade para transformarmos essa realidade que se aproxima  Todos estão convidados, basta mandar uma mensagem ou deixar seu comentário abaixo.

Ligia Pimenta é psicóloga e atua em processos colaborativos

O que é transformar?

Ligia Pimenta – Transformar é a mesma coisa que mudar? Transformar é aquilo que de fato vem de dentro para fora. As pessoas precisam ter uma maior autoconsciência, maior consciência das relações, do mundo, dos desafios, do que me ajuda, o que preciso aprender para que de fato essa transformação aconteça e permaneça. Neste momento de pandemia há uma característica de complexidade, onde não há uma solução fácil, do tipo um mais um é igual a dois. Também não é algo complicado, porque quando surge algo complicado você chama os especialistas e eles resolvem. Na complexidade muitos fatores ocorrem simultaneamente, onde o mundo se torna VUCA.

E o que é VUCA?

Ligia Pimenta – VUCA é uma sigla em inglês que surgiu na Guerra Fria, quando os militares norte-americanos começaram a se perguntar: “afinal que mundo é esse? Um mundo tão volátil, que é tão incerto, tão complexo e tão ambíguo?” E este é o mundo VUCA (sigla em inglês para estas palavras), que não começou com a pandemia do coronavírus. Não é um vírus que se transforma no VUCA. Ele já vem assim desde o final da década de 60; começou a ser utilizado nas grandes empresas na virada do milênio; e hoje dialoga muito com esse contexto que estamos vivendo, onde o mundo é volátil, ele escorre pelas nossas mãos. É líquido, fluído. Você não tem mais a previsibilidade do que vai acontecer amanhã.  De uma hora para outra o mundo mudou. Não é só não vou correr a Maratona de Tóquio (foi cancelada para os amadores em março), é o que farei amanhã? Que mundo teremos pós-pandemia? Quando será de fato essa pós-pandemia? Quais serão as consequências disso?

Seria em pensar  no “novo normal”?

Ligia Pimenta – Fico pensando nisso, o que tínhamos antes era normal? O que é normalidade? O que virá? O que virá, de fato, é algo que não sabemos. É algo que precisamos construir juntos. Algo que precisamos construir de forma coletiva. A inteligência coletiva nunca foi tão necessária. Quando falamos do mundo VUCA, falamos desse lugar. E precisamos pensar nos aspectos que podem nos ajudar. Frente a volatilidade, ao inesperado podemos lidar com a resiliência. O que é isso? É a capacidade que todo ser humano tem de enfrentar as dificuldades e encontrar saídas. É a flexibilidade, a abertura para o novo. Ela enverga, mas não quebra.

É olhar para o problema e ter uma atitude racional?

Ligia Pimenta – Não só isso. Nós somos o racional E o emocional, tem se falado também muito do lado espiritual, um propósito, uma causa. É você usar os seus valores, crenças, emoções, pensamentos para encontrar saídas. Ser flexível. No momento de grandes transformações, como estamos vivendo agora, precisamos ter flexibilidade porque, quando não podemos mudar o mundo, precisamos pensar o que podemos mudar em cada um de nós. Este é o momento onde isso aparece com muita força. Num momento como esse é importante não perder o otimismo, a capacidade de acreditar. Ter a convicção, ter a fé – uso esta palavra independentemente do contexto religiosidade. Acreditar na  sua autoestima.

Como fortalecer a autoestima?

Ligia Pimenta – Posso fortalecer a autoestima com maior autoconhecimento. Quem eu sou nesse momento de pandemia. Nesse momento de complexidade, onde a única certeza que tenho é a incerteza.

Só no Brasil são mais de 28 mil mortes. Chegamos a um estágio da pandemia no qual  todo mundo já perdeu um ente querido ou conhece alguém que perdeu. 

Ligia Pimenta – Isso é o poder da rede. Em um momento você acha que está tudo distante, e aí vamos percebendo essas situações. Das pessoas que perdemos, das pessoas que ficaram muito doentes e já se recuperaram – e isso tem a ver conosco. É uma complexidade em um cenário aonde não podemos mais pensar no eu comigo, mas temos que pensar no nós. Temos que criar condições para que o Ego – eu na minha liberdade – se transforme em um Ecossistema, onde as relações e as escolhas se relacionam com o outro. Quando eu escolho o isolamento, ou sair, isso repercuti na minha comunidade, na minha sociedade, no meu país.  Então a visão sistêmica, onde o micro faz parte de um macro contexto de um mundo, de um planeta, isso nunca esteve tão próximo de nós.

Como enfrentar essa complexidade?

Ligia Pimenta – Com resiliência, para encontrar saídas que eu ainda não tentei, saídas que eu desconhecia, e que posso construir nesse momento junto com o outro. É o momento da inteligência coletiva. Momento do otimismo. Eu tenho que acreditar que vai dar certo. E isso vai depender do quanto acredito em mim. E sair da posição reativa.

Haja resiliência. Há pessoas que você tenta argumentar que a pandemia é séria, mas elas não ouvem.

Ligia Pimenta – Esse é o tipo de conversa que chamamos download. Eu falo, mas o outro não me escuta. Porque essa pessoa só escuta ela mesma. Ele dialoga com sua própria voz o tempo todo. Então você não vai convencê-la, você não vai conseguir convidá-lo a uma escuta qualificada. De fato, num momento como esse temos que escolher. E para escolher é preciso ter coragem. E a coragem também nos convida a lidar com os medos que estão aí. Sentir medo faz parte do ser humano, é saudável. O medo nos protege do perigo. Protege do risco, mas não pode nos paralisar. E é preciso ter agilidade para escolher. A vida não pode parar. Não pode esperar a pandemia passar para ver o que vai fazer. A temporalidade também está dentro desse mundo complexo.

Por vivermos em país, campeão de desigualdade social, a pandemia trouxe junto uma angústia,  de assistir de mãos atadas milhares de brasileiros, mais vulneráveis, morrerem de fome. E vimos a solidariedade surgir ações solidárias. Ter um propósito ajuda enfrentar momentos complexos como esse?

Ligia Pimenta – O propósito nos ajuda na incerteza porque frente as dificuldades, aos desafios, quando temos um propósito seguimos a diante. Não temos certeza do amanhã. O script da vida mudou. E tudo mudou com muita velocidade. E novos scripts são feitos. E agora, mais do que nunca, temos que olhar para esse momento volátil, da incerteza, e buscar quais são as competências necessárias que nos ajudam. É aceitação? Não a aceitação passiva, mas uma aceitação que provoca uma pausa para refletirmos e  fazermos as melhores escolhas, para ser mais ágil. Acelerar frente aos desafios que estão aí emergindo.

 

 

 

 

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