O Grilo da Sorte

O Grilo da Sorte

O que o segmento da corrida de rua tem a aprender com os grandes shows de rock

SILVIA HERRERA

03 de maio de 2022 | 15h21

O esporte namora com o entretenimento há anos. O público gosta de assistir um senhor espetáculo no estádio, com a família a tiracolo. E, como os grandes times de futebol, o KISS é sinônimo de diversão, e sabe como agradar a Kiss Army (torcida) brasileira  desde 1983, quando se apresentou por aqui pela primeira vez cercada de lendas, como de devoradores de pintinhos e adoradores do demônio. As “tias do zap” já atuavam ccompartilhando as fake news na Ditadura Militar.

Paul Stansley tirou onda com o grilo no show paulistano – reprodução do telão

Na época eu era  uma pirralha e fui proibida de ir ao “espetáculo de circo psicodélico” por meu pai, o fotojornalista Antonio Lucio. Por ironia do destino, foi exatamente ele o escalado para registrar o show dos “malucos de cara pintada”, que incendiaram o  Estádio do Morumbi, para o Estadão e Jornal da Tarde. No dia seguinte, fui presenteada com as fotos desse show, que decoraram meu quarto por anos. Ainda tenho três delas, as únicas que não colei na parede e resistiram ao tempo. E no sábado, 30 de abril, lá estava eu no estádio do Palmeiras, e levei meu filho de 16 anos, para testemunhar a última turnê da banda de Nova York (EUA), “End of the Road Tour, a sétima apresentação deles em Sampa. Foi um espetáculo perfeito, milimetricamente planejado, com coreografias de luzes, explosões,  muito gelo seco, elevadores no palco, Stanley voando na tirolesa, guitarra soltando fogo, Gene Simmons cuspindo sangue, o baterista solando nas alturas, erguido por um elevador, e muito rock, acabando com chuva de papel picado e Stanley quebrando a guitarra.

Mas quem roubou a cena foi um intrépido grilo, que pousou no microfone de Paul Stanley, no intervalo antes do início de Dr. Love. O vocalista não perdeu a oportunidade e iniciou um diálogo com o inseto verdinho. O público gritava: grilo, grilo, grilo. Os vídeos bombaram na internet.

Segundo a cultura chinesa, o grilo atrai fortuna. E quando surge assim, de repente,  é sinal de sorte e de vida longa para todos os presentes. Vida longa à banda, ao exército que trabalha com ela, à produtora brasileira Mercury Concerts que está completando 30 anos, ao público de 45 mil pessoas e até à Sociedade Esportiva Palmeiras. E vamos combinar, todo mundo está precisando de sorte nesse mundo maluco, que acaba de passar por dois anos pandêmicos. O show do KISS, que seria em 2020, teve todos os ingressos vendidos antes do início da pandemia. O público estava esperando há mais de dois anos, assim como os corredores estavam esperando as maratonas presenciais.

Fãs brasileiros foram maquiados ao estádio. Foto: Divulgação/Mercury Concerts

Outro ponto que me chamou a atenção foi o volume do show, que foi no ponto certo. Bem mais baixo do que bandas como Scorpions e Guns, nos quais a potência sonora reverbera no peito, e o ouvido fica zunindo três dias. E isso foi muito bom, já que o público infantil foi em massa. A pirotecnia também foi mais visual do que ensurdecedora. Um show de encher os olhos, sem ficar surdo, com atrações para todas as idades. Aliás, Stanley nasceu com apenas um ouvido, e sofreu muito por isso, mais muito mesmo, durante toda a infância – foi apelidado de Monstro Stanley. Na adolescência a primeira coisa que fez foi deixar o cabelo crescer e esconder seu “problema”. Ninguém veria que ele não tinha uma das orelhas. Focou no seu sonho, ser um rock star, e com muito trabalho e determinação, conseguiu.

Show de luzes e tecnologia no Kiss. Foto Divulgação//Mercury Concerts

Mas o que é que tem a ver o KISS com corrida de rua, você deve estar se perguntando. Vamos lá. Tem tudo a ver. O corredor adora se divertir, é um ser que não se incomoda nem em acordar cedo no domingo para curtir a sua balada, a corrida. Antes da pandemia começava a participar de eventos temáticos como a do Wally. Corridas com muito valor agregado, com a fantasia do personagem para você correr com ela, com itens de colecionador para comprar na hora. Medalhas e troféus do personagem, e show de rock para terminar. Conversando com corredores, todos me falaram que a do Wally foi a melhor corrida temática que já participaram. Não era uma corrida para crianças, mas as famílias foram para a caminhada. Os jovens ficaram curiosos e foram também correr pela primeira vez. E quem corre pra valer, largou na primeira bateria. No trajeto havia painéis para quem quisesse fazer uma pausa e procurar o Wally. Hilário.

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O show do KISS me fez refletir que há público para corridas de rua como entretenimento. Como eram as Maratonas de Revezamento do Pão de Açúcar, com milhares de participantes, bandas se apresentando no percurso. Como as Nike 10k, uma delas teve até confessionário móvel. Imaginem uma corrida com fogos no pórtico da largada? Com chuva de papel na chegada? Há uma demanda reprimida para as corridas diferentes, para as famílias, e por que não dizer, para quem já passou dos 70 anos. Sim, os quatro músicos do KISS têm mais de 70 anos e estão em plena forma física. Não consigo imaginar nenhum deles fazendo hidroginástica, entregue ao sofá fazendo palavras cruzadas e reclamando da vida. Porque, vamos combinar, encarar uma turnê mundial trajando um “modelito” que pesa 20 quilos, com aquelas botas de salto alto, e entregar um show de quase duas horas, pulando o tempo inteiro, é uma verdadeira maratona. Vida longa ao KISS e as corridas de rua, e se o grilo estiver certo, que a sorte esteja conosco e o KISS faça muitas últimas turnês, e de repente com direito até a corrida do KISS, para gente ir  maquiado, com muita pirotecnia, percurso com surpresas, e uma banda cover no final.

 

 

 

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