O matemático que amava correr

O matemático que amava correr

Alan Turing, o pai da Computação, era maratonista

SILVIA HERRERA

10 de abril de 2021 | 10h20

Em tempos de EAD, os pais estão aprendendo barbaridade. Me incluo nessa lista. Esta semana, meu filho me apresentou um “novo” corredor:  Alan Turing!  O nome era familiar, fiz um esforço: Turing, Segunda Guerra, Enigma. Lembrei, ele foi o gênio da matemática que desvendou o código secreto nazista, e assim ajudou a  localizar o exército alemão, o que foi fundamental para a vitória dos Aliados. O pai da Ciência da Computação era um gênio e corria!

Alan Turing era maratonista sub3

Aliás, o rosto de Turing estará estampado nota de 50 libras, que será lançada em 23 de junho, dia do aniversário do gênio britânico, que teve um trágico fim. Condenado a prisão por ser gay – sim, era um crime ser homossexual na Inglaterra dos anos 1950, por reconhecimento a seu trabalho foi oferecido a ele uma “alternativa”: a castração química. Dois anos depois, em 1954, foi encontrado morto em sua casa aos 41 anos. E se hoje o mundo está todo interligada, via computadores, temos que agradecer a Turing.

Pesquisando nos jornais ingleses, apurei que o matemático amava correr, era sua válvula de escape. Começou  com os amigos na faculdade, e logo já estavam correndo maratonas.  No pós-guerra, ele costumava correr sozinho pelas ruas de Walton, região sul de Londres, região perto do  National Physical Laboratory, onde ele trabalhava. Por ser muito rápido e ter uma respiração bem barulhenta, chamou a atenção dos integrantes do Walton Athletic Club, um clube amador de corredores de rua, que o convidaram a ingressar para a turma. E Turing topou na hora. Era um dos mais rápidos do grupo, com o personal best em 2 horas e 46 minutos e 3 segundos! Os amigos da corrida não faziam a mínima ideia de quem   Turing realmente era.

O pai da computação era daquele corredor “sangue nos olhos” e treinava pra valer. E costumava viajar com a turma do clube para as maratonas. O seu parceiro de treinos,  J. F. ‘Peter’ Hardin, uma vez quis saber por ele treinava tão forte. Ele respondeu: “Tenho um trabalho tão estressante que a única forma para tirá-lo da minha mente é correndo forte.”

Enigma alemão

Apenas em 2009, depois de forte pressão da sociedade em campanha virtual, o governo britânico pediu desculpas publicamente por ter criminalizado Turing, e o ter submetido a um tratamento tão terrível. “Nós sentimos muito. Alan e milhares de outros gays, que foram condenados sob leis homofóbicas, foram condenados a tratamentos terríveis”, disse o primeiro-ministro Gordon Brown. E em 2013 veio o perdão real concedido pela rainha Elizabeth II. No ano seguinte, sua vida era retratada na telona em “O Jogo da Imitação” (The Imitation Game), interpretado por Benedict Cumberbatch. Boa dica para o fim de semana.

Alan Turing nasceu em 23 de junho de 1912, em Londres. Seu pai era governador de Madra, na Índia – então colônia britânica. Logo depois do nascimento, os pais deixaram Alan e seu irmão mais velho aos cuidados de um amigo, um coronel aposentado. Alan só iria rever os pais 14 anos depois. Aos 10 anos foi enviado ao colégio interno. Aluno extremamente inteligente, provocava os professores. Em 1927, ganhou de Natal do avô, o livro “Teoria da Relatividade” (Einstein). Ele devorou a teoria e fez um caderno com todas as suas anotações. A partir disso ele mergulhou na matemática. Conseguiu entrar no King’s College em Cambridge para cursar matemática, onde começou a correr com os amigos, e se formou em 1934 com muito destaque. Um ano depois, publicou o trabalho “

“.

Craque em decifrar códigos, desenvolveu estudos sobre algoritmos, que são a base da ciência da computação, e completou sua tese de doutorado na Universidade de Princeton (EUA) em 1938. No ano seguinte, de volta a Londres e com a entrada da Grã-Bretanha na 2ª Guerra Mundial, foi convidado a fazer parte do Bletchley Park code breakers, onde trabalhou em segredo e arduamente para conseguir decifrar o código militar alemão, o que foi crucial para a vitória. Em 1945 entrou para o National Physical Laboratory. Três anos depois foi trabalhar em no Laboratório da Universidade Manchester. Continuou correndo e fez um novo amigo de treinos, o jovem estudante de gramática Alan Garner. Treinavam juntos  três vezes por semana à noite. Garner se tornaria o biógrafo de Turing anos mais tarde, e lutaria muito até conseguir que o governo britânico se retratasse.

Alan Turing nasceu em 1912

Turing desenhou softwares, computadores, desenvolveu testes. Em julho de 1951 foi aceito na Royal Society, porém, foi preso em em janeiro de 1952 por ter cometido crime de “homossexualismo”, julgado em 31 de março de  1952. Tanto ele, como o parceiro – um jovem de 19 anos, que mantiveram relações consentidas, foram julgados e condenados. Por seu relevante trabalho em prol da ciência, em vez da prisão ele poderia se submeter a castração química com injeções de estrogênio. O parceiro cumpriu a sentença de 12 meses preso. Alan Turing morreu dois anos depois. Teria mordido uma maçã envenenada, ele adorava a Branca de Neve, mas seu suicídio nunca foi comprovado.

 

 

 

 

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