Pedalando pela preservação do Cerrado

Pedalando pela preservação do Cerrado

Especialistas percorreram 400km em expedição científica

SILVIA HERRERA

09 de outubro de 2021 | 10h43

É possível preservar o Cerrado, bioma que abriga boa parte de todas as nascentes brasileiras. Esta é a mensagem de esperança que três pesquisadores trouxeram na volta do TransCerrado, uma expedição científica, que percorreu 400km em prol desse bioma. São eles o ecologista Paulo Moutinho, 59, anos, que é PhD, cientista sênior e cofundador do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia); o engenheiro florestal Valderli Piontekowski, 41 anos, que é Mestre, coordenador de Inovação Tecnológica no IPAM; e técnico em Telecomunicações Márcio Bittencourt, 52 anos, que é especialista em navegação marítima. Entre 29 de setembro a 6 de outubro, eles pedalaram cerca de 90km por dia por esse bioma que pede socorro.

O  únicos animais silvestres avistados no TransCerrado foram os pássaros

Eles saíram de Brasília e se embrenharam no Alto Paraíso de Goiás, no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Entre os três ciclistas, Paulo era o único representante da corridas, mas uma lesão no calcanhar o afastou da modalidade. Valderli  destaca que para encarar esse desafio é preciso treinamento prévio. Ele pedala há dois anos, explorando trilhas no Distrito Federal e no entorno. E atua nas áreas de Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto como programador especialista para a produção de mapas relacionados à intervenção humana na cobertura do solo. “Duas noites dormimos em pousadas, uma noite dormimos em rede, onde cederam espaço num bar, e uma noite dormimos de improviso numa pedreira, também em rede”, conta. Para alimentação levaram castanhas, barras de cereais, bananinhas e miojo para cozinhar, quando fosse preciso. E fizeram paradas estratégicas para se alimentar em pousadas e restaurantes.

TransCerrado 2021: Márcio Bittencourt, Valderli Jorge Piontekowski e  Paulo Moutinho

Márcio ressalta que o desmatamento aumentou muito e que viram áreas enormes queimadas. Esta é a terceira edição da expedição. Mas não viram nem lobo guará nem veado campeiro, apenas pássaros. “O que mais chamou nossa atenção foi a perseverança do povo sofrido das roças, que amam o local onde moram e, mesmo com um cenário tão negativo, se negam a ir embora, acreditam que tudo pode melhorar”, destaca Márcio, que acrescenta que ainda há um fio de esperança, com algumas veredas bem preservadas, e que os vizinhos ao parque da Chapada dos Veadeiros já aprenderam que é possível construir sem desmatar. “Eles dão exemplo”, comenta.

Parte do trabalho desse projeto do TransCerrado é  mapear centenas de milhares de quilômetros para que num futuro breve os cicloturistas e caminhantes possam percorre-las com total segurança, e conferir de perto as belezas do Cerrado. Márcio é militar da reserva da Marinha, onde trabalhou por 30 anos. Há 15 anos, faz parte da coordenação do grupo de ciclistas Rebas do Cerrado, o maior grupo de mountain bike do Brasil. Nos últimos quatro anos, tem participado como voluntário na estruturação, implementação e sinalização de trilhas de longo curso, que ligam unidades de conservação no Centro-Oeste.

DESTRUIÇÃO

Eles explicam que de 1985 a 2020, mais de 45% da área do Cerrado já foi convertida para outros usos, substituindo a vegetação nativa por pastos, agricultura. “Muita gente considera o Cerrado o primo pobre da Amazônia, esta tem uma legislação que a protege muito mais, e tem que ser assim; porém o Cerrado tem taxas maiores de destruição e uma proteção menor por legislação. O Código Florestal é menos restritivo no Cerrado, por exemplo, em termos de manutenção de reserva legal, áreas de proteção permanente, do que na Amazônia”, compara Moutinho. “Se o desmatamento continuar nessa toada, destruindo a vegetação, destruindo nascentes, irrigando em larga escala sem o manejo hídrico adequado, certamente teremos problemas graves de produção de alimentos e geração de energia. E há também o problema do fogo, queimou-se em 2020 mais de 6 milhões de hectares, uma área dez vezes maior que o Distrito Federal. Por isso é preciso avançar com as medidas de proteção desse bioma, que é a savana mais biodiversa do mundo”, contextualiza o cientista. Nas duas últimas décadas, Paulo Moutinho tem estudado os impactos do desmatamento nas mudanças climáticas e nas populações. Em 2017, ele fez uma longa jornada de bicicleta, com outros dois parceiros, por 1.100 km do trecho não asfaltado da Rodovia Transamazônica para chamar a atenção para os problemas socioambientais da região.

E como nós, corredores de rua da maior cidade brasileira podemos ajudar para frear a destruição do Cerrado? Valderli responde que podemos atuar como fiscais. “Por exemplo, informando as autoridades competentes as irregularidades que presenciarem”, ensina.

Expedição científica percorreu região da Chapada dos Veadeiros

O TransCerrado teve sua primeira edição em 2019, quando mais de 700 km foram percorridos de bicicleta, de Goiás Velho até o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, falando sobre conservação e desenvolvimento de agricultura sustentável no Cerrado. E no próximo ano voltarão à Chapada dos Veadeiros para traçar os caminhos longos, que farão as conexões entre todos os biomas brasileiros. “Há ainda muito o que se percorrer e conhecer. É uma região muito importante do ponto de vista ambiental e hídrico”, finaliza Paulo. Confira mais imagens de todas as expedições no Instagram: @bike_transcerrado

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