Profissão: Super-Humano

Profissão: Super-Humano

Carlos Dias e Vladmi Virgílio se preparam para mais uma ultramaratona extrema

SILVIA HERRERA

20 de junho de 2021 | 10h23

Olha esta dupla: um recordista mundial invisual em distância em ultramaratona solo em praia (226km) sem guia e o outro correu de Crocks (aquela sandália plástica que a criançada adora) de Pacaraima ao Chuí em cem dias, feito é um recorde brasileiro e consta do Guiness Book. O objetivo de ambos não é o degrau mais alto do pódio, mas levar uma mensagem de esperança. O primeiro é o gaúcho e atleta invisual Vladmi Virgílio, que perdeu a visão aos 34 anos; e o segundo, o são-bernardense Carlos Dias. Aliás, Dias ganhou a alcunha de super-humano de ninguém menos que Stan Lee.

Vladmi Vírgilio e Carlos Dias se conheceram em DF

Os dois são ultramaratonistas de provas extremas e em outubro vão juntos correr a ultramaratona da Namíbia (Namib Ultra Marathon), o deserto mais antigo do mundo com a maior duna do planeta. Agora estão captando patrocínio, ainda falta uma cota, para esse projeto. Devem embarcar para a África em 15 de outubro, para a largada em 25 de outubro, são 250km em sete dias. Já confirmaram o patrocínio: Mossearth, Tegma Gestão Logística, Movida aluguel de carros, Wilson.sons e Tecon. E apoio: On Running, Movement, Fisio4sports Espaço Laser, Jungle, Instituto Vita, Passos Mágicos e Abner Seguros. E são embaixadores da KM Solidário. Só uma das inscrições custa US$ 3.800. “Cada corrida é uma ultramaratona atrás de patrocínio para poder participar”, compara Vlad. “E não aceito nenhum patrocínio por piedade, não uso minha deficiência visual para me beneficiar em nada, quero que as pessoas sejam iguais. A corrida me salvou, me despertou para vida; a corrida me dá felicidade”, completa.

Comparado com o Brasil, a Namíbia tem poucos casos e mortes por coronavírus. Até 17 de junho eram 69.096 casos e 1.073 mortes, com gráfico em queda; e a vacinação começou em 19 de março. “Eles tinham programado esta prova para abril, mas voltaram atrás em respeito às vítimas da pandemia”, explica Carlos, que tem mais de 140 mil km “rodados” e que forma com Vlad a única dupla brasileira nessa competição. A regra sanitária é realizar o teste de Covid-19 a 72 horas do embarque, que será entregue para a organização, que vai repetir o teste no hotel em Vinduque (capital da Namíbia) a 36 horas da largada, que será no deserto. Só atletas com teste negativos poderão participar. Mesmos os vacinados terão que fazer os testes.

ULTRAMARATURISTA

O nome Vladmi é de origem romena, vem dos castelos do Drácula. “Mas não sou vampiro não”, brinca o atleta de 50 anos. A dupla se conheceu pessoalmente depois da segunda matéria do Vlad no “Fantástico” (TV Globo) em 2014, logo depois dele ter cruzado o Deserto do Atacama, quando por coincidência ambos foram dar palestras no Distrito Federal, em locais distintos. “Dividimos os mesmos prazeres, competir na natureza. Aliás eu não compito, me considero um ultramaraturista”, afirma Vlad. “Minha intenção é aproveitar o momento, a natureza, a energia boa e a espiritualidade do local, o que se casa com os objetivos do Carlos. E ele consegue captar tudo isso e transmitir para mim, bem diferente de um guia de ultramaratonas, que se limita a falar: direita, esquerda. Por exemplo, na Nova Zelândia o Carlos me avisou que estávamos passando por uma região onde o capim era dourado. E paramos para apreciar esse presente da natureza, sentamos para sentir esse capim. Sentir a natureza com as mãos”, explica.

Carlos Dias já correu nos 4 desertos mais extremos do planeta

“O Vlad me guia, ele vê coisas que não percebo. Seria muita arrogância minha achar que o guia sou eu. Eu tenho um jeito de enxergar a trilha e ele tem outro. Ele percebe as cobras no escuro, ouve os carros muito mais longe do que eu”, acrescenta Carlos, 48 anos.

A prova do deserto da Namíbia tem 250km, é de autossuficiência (cada um por si) e cada atleta leva sua própria mochila, com equipamento e comida para os sete dias de ultramaratona. Não é permitido receber doação de comida ou de equipamento durante o caminho, e no Check Point tudo é checado. No primeiro dia são 40km até o acampamento, onde há uma tenda circular. E no meio há uma fogueira, onde é feita a comida. A segunda etapa contempla uma sequência de dunas, onde está a maior do mundo – 340 metros. “É preciso ter muita paciência para não passar do ponto, forçar demais e se lesionar. A prova testa sua organização e a parte mental, além da física”, conta Carlos. Depois há outras etapas de cerca de 40km, sendo a maior no quinto dia – conhecido por longday.

Na parte da alimentação vão levar comida liofilizada e farofa de mandioca, o segredo dos super-humanos brasileiros. “Vamos levar purê de batata, estrogonofe, macarrão a bolonhesa, comidas liofilizadas com bastante carboidrato. Não como nada disso no dia a dia, mas no deserto só é possível comer duas vezes ao dia, antes da largada cedinho, e depois que chegar no outro acampamento”, explica. Por isso, cada atleta chega a perder até nove quilos durante a ultramaratona. “Em cada check point o médico pede para cada atleta tomar uma capsula de eletrólito e beber meio litro de água na frente dele, e só libera depois disso. A prova é muito segura em relação aos cuidados médicos, e todo o staff médico é composto de voluntários. Estão ali por amor”, conta.

FAROFA E SALAME

Carlos fala que a farofa foi crucial em uma prova no Equador. “Tive muito enjoo e a única coisa que conseguia engolir era a farofa. Mas a primeira vez que levei farofa foi em uma prova que atravessa todo os EUA, que fiz na companhia de um ciclista, chamado Francisco. Saímos de Nova York rumo a São Francisco, eu correndo e ele, pedalando, pela rota 44 e depois pela rota 6. No estado de Nevada, paramos em um restaurante mexicano no meio do nada e eu tinha umas latinhas de feijão, que comprei em New Jersey. Eu tinha levado a farofa temperada e pedimos para esquentar o feijão, pedimos para fazerem arroz e dois ovos fritos. Um americano ficou olhando a gente comer com gosto tudo aquilo. Ele perguntou o que era a farofa, e pediu para experimentar. E adorou. Disse para ele que era um tipo de carboidrato, não tinha ideia de como traduzir a palavra farofa para o inglês. Ele perguntou qual cidade a gente iria dormir, e falamos. O homem mandou colocar cartazes na entrada dessa cidade, contratou um pessoal que ficou segurando cartazes de boas vindas, que nos avisaram que nosso hotel para o pernoite já estava pago. E esse homem mandou nos entregar um  bilhete, com a mensagem  que aquilo era em troca da farofa”, lembra. Desde então, Carlos coloca a farofa em saquinhos plásticos, tipo de gelinho, e faz isso também com paçoca. Outro item é o salame, que leva fatiado e embalado à vácuo “Graças a essa dieta do Carlos que nós não morremos na Nova Zelândia”, destaca Vlad. E para a Namíbia a dupla pretende levar além disso suco de goiaba e uma lata de sardinha, a salvação para os momentos mais críticos.

“Amamos desafios, mas respeitamos nosso corpo e as pessoas ao nosso redor. Queremos passar nosso melhor para as pessoas, sempre compartilhando emoções e histórias. E todo ano, nós vamos para um lugar extremo. Iríamos para a Namíbia em 2020, mas adiamos o plano por conta da pandemia. Vai ser nosso retorno, depois dessa tristeza toda com tantas perdas importantes, vamos em frente, passo a passo, é possível transformar este cenário caótico e entregar uma mensagem de força. Vamos todos renascer das cinzas”, espera Carlos.

CICLONE

Vladmi Vírgilio quebrou o recorde mundial na Extremo Sul Ultra Race, no Rio Grande do Sul

Vlad tentou completar a Extremo Sul Ultra Race (RS), na praia do Cassino, a maior ultramaratona de praia do mundo, sem guia por quatro vezes até quebrar o recorde mundial. Na primeira, foi “impedido” por um ciclone extratropical com ventos de 142km/h, e foi recolhido a contragosto pela organização da prova. Na segunda, ele pegou pneumonia na semana da prova. Na terceira, a mãe dele sofreu um AVC um mês antes. Na quarta, em 2019 deu tudo certo. “Sou uma pessoa que não posso ouvir a frase: ‘você não pode ou você não vai conseguir’, basta ouvir isso que vou lá e faço”, conta. Durante os 226km na beira da praia, correndo com os pés molhados, o mantra de Vlad era: “Eu Consigo”. “Nessa prova, os pés são realmente sacrificados, brotam bolhas a cada instante. E ficam úmidos e gelados o tempo todo. Como é perigoso correr descalço, o jeito é administrar a dor mentalmente e ficar imaginando a chegada, até com a música. Tropecei numa tartaruga enorme morta e fui parado por uma baleia de madrugada, também morta”, lembra.

Quanto maior a roubada, mais esta dupla gosta. E detalhe, nunca perdem o bom humor e o sorriso largo no rosto. Talvez por isso, Stan Lee tenha ficado de olho no Carlão. Depois dele ter corrido o Brasil de ponta a ponta (9 mil km em 100 dias); os quatro desertos mais extremos – Gobi, Saara, Antártida e  Atacama (2008) – e atravessado os EUA, correndo 5.100km em 60 dias; Carlão recebeu um e-mail do “History Channel”, no qual era chamado de Super-Humano, que Stan Lee havia criado um programa com esse nome e que Carlão com certeza era um super-humano, e que iriam provar isso. “Achei graça, não corro para provar nada para ninguém, corro porque gosto. E a produtora me ligou, e explicou que eu tinha sido escolhido para ser o super-humano do programa do universo da corrida na América Latina”, lembra. Carlão, começou a correr por brincadeira, na rua sem saída onde ele morava, e de repente o Stan Lee o brinda com essa homenagem. “Ser Super-Humano é não ser melhor que ninguém,  é assumir sua vulnerabilidade, que você tem medo, dor, tristezas, alegrias e entusiasmo, e apesar do caos e das adversidades sai em busca dos seus sonhos. Aceita correr riscos e volta para casa, sem lesões nem acidentes, pois conseguiu se concentrar. Se você parar para analisar, todos os super-heróis do Stan Lee tem uma fraqueza, e transformam em escassez e abundância”, argumenta. O mestre  das HQs Stan Lee (1947-2017) sabia das coisas.

Confira o vídeo da ultra da Namíbia

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