Qual é o limite do seu joelho?

Qual é o limite do seu joelho?

SILVIA HERRERA

01 de abril de 2017 | 07h07

Confira o que é a teoria do envelope de função e como ela pode “esticar” sua vida de corredor.

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Quando o assunto é corrida de rua e esportes de alto impacto tudo pode acontecer ao joelho como, por exemplo, lesões no menisco, na patela, na cartilagem e até nos ligamentos. Haja gelo! Mas nenhum joelho é igual ao outro. Há pessoas que logo na primeira corrida podem desenvolver tendinites e outras, como Dean Karnazes, podem correr 50 maratonas em 50 dias e ainda tem fôlego e saúde extra para mais 50. O que determina essa predisposição é o envelope de função de cada um, uma teoria desenvolvida em 1996 por Scott Dye, ortopedista e pesquisador da Universidade da Califórnia (EUA), que leva em conta a força despendida em cada tipo de atividade física e a frequência.

“Dye explica que o joelho é como se fosse uma engrenagem, uma transmissão biológica, e o envelope de função mostra a zona de equilíbrio (zone of homeostasis) do joelho do paciente, até onde ele pode ser sobrecarregado sem risco; a zona onde ele já corre risco de sobrecarga (zone of supraphysiological overload), quando o joelho começa a doer e inchar, e a zona de falha estrutural (zone of structural failure), na qual ocorrem as lesões, ou seja o segredo é evitar sobrecarregar além do limite que leva a falha definitiva”, explica Marco Demange, Professor Doutor do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Além dessas três zonas há a do sedentarismo (zone of subhysiological underload) que quanto maior for, menor será a zona de equilíbrio. “Não praticar nenhum tipo de atividade física é muito ruim”, acrescenta o médico. É aquela velha história, usar o bom senso sempre.

dr Marco Demange

dr Marco Demange

Veja os gráficos abaixo. Por exemplo, ao se lesionar o atleta tem que ficar de repouso, ou seja, vai aumentar a zona inferior – do sedentarismo – e consequentemente diminuir a de equilíbrio. Quando ele se recuperar, as zonas de risco de sobrecarga e de falha estrutural vão aumentar também. Ou seja, para não se machucar o atleta deve sobrecarregar menos e com menor frequência do que estava acostumado anteriormente. Com mais fortalecimento e voltando aos exercícios lentamente, o envelope de função (a zona de equilíbrio), que é dinâmico, vai se ampliando. Outro fator que diminui a zona de equilíbrio é a idade.

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Tudo bem, mas como saber qual é o limite do seu joelho, antes que as lesões surjam e acabem por aposentar o corredor amador antes do tempo? Quais são os sinais que meu amigão, o joelho, vai dar?  Simples, quando ele entrar na zona de sobrecarga o amigão começará a doer um pouquinho e/ou dá uma inchadinha. Sinal amarelo, hora de diminuir a rotina de treinos e dar dois passos pra trás. Se você não der bola, se auto medicar e continuar com tudo pode se lesionar, ganhar uma fratura de stress e a mais variada gama de “ites” nos elementos do “amigão” e ficar de “molho” por meses. E na volta, ter de começar do zero com muita paciência. “Até o funcionamento da cartilagem necessita de tempo para se refazer”, observa o ortopedista.

Na rotina de consultório, Demange tem atendido muitos casos semelhantes de corredores. Na maioria, homens, na faixa dos 45 anos, recém separados, que começaram a correr junto com um amigo que já corre há anos e depois das primeiras 10k, se sentindo confiante e querendo desafiar o amigo, já se inscreveram para correr a primeira maratona em Nova York e dão uma passada no médico antes. “Maratona tem que se preparar muito e por um bom tempo, o limite do seu amigo não é o seu. O envelope de função do joelho dele é outro. Se forçar muito seu joelho ele vai inchar e doer, cada um tem que entender o seu limite”, conta.

Para ilustrar esta situação Demange busca um exemplo do setor automotivo. “Uma Ferrari a 150km/h faz muito mesmo força e demora muito menos tempo para atingir essa velocidade do que um Uno Mille, porque os envelopes de função deles são totalmente diferentes. Não é porque seu amigo é maratonista que você tem que ser também, cada um tem um joelho diferente e um envelope de função distinto”, compara.

O médico alerta que não dá para todo mundo seguir o mesmo esporte. “Mesmo em corrida, a estrutura dos maratonistas é totalmente diferente da dos velocistas, tudo implica. O ideal é encontrar um esporte que sua estrutura física possa se adequar melhor”, recomenda o médico que para manter a forma faz academia e corre só na esteira, no máximo meia hora.

Outro caso comum no consultório são relatos de homens que deram uma torcidinha no joelho no futebol na quarta à noite, tomaram um remédio para dor, a dor passou e foram correr a 10k no domingo e acabaram com joelho doendo muito e inchado, nesse momento foram procurar o médico. “Até o envelope de função voltar ao normal, a zona de equilíbrio diminui, não será possível praticar na mesma intensidade, aliás, toda vez que o corredor ultrapassar o limite do envelope de função, o limite será menor. O problema de continuar sobrecarregando o joelho na zona de sobrecarga é que você pode ultrapassar o limite para a zona de falha estrutural, rasgar o menisco, romper um ligamento, e tchau corrida e futebol”, explica.

O que piora o cenário, segundo o ortopedista e acho que a maioria dos leitores corredores vai concordar, é que o corredor começa a se acostumar com as dores. Quem já correu uma maratona sabe que dói tudo nos três primeiros dias depois da prova, por isso o corredor perde o parâmetro de dor e só dá atenção a ela quando está na máxima intensidade. Outra característica é o jeito jovem dos corredores, que sempre aparentam ter bem menos idade. “A cabeça dos corredores de rua é muito jovial, mas tem que se levar em conta que a idade faz parte do cálculo do envelope de função”, destaca.”. A carapuça serviu pra mim… E para vocês? Alguma dúvida? Em caso positivo a escreva nos comentários abaixo que vou encaminhar para o dr Demange. #corridaparatodos #envelopedefunção #ortopedia

No próximo post, dicas do dr Marco Demange para executar corretamente os exercício de força para fortalecimento dos joelhos.

Saiba mais:

Para ler na íntegra a teoria do envelope de função, clique aqui

 

 

 

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