Robson Caetano da Silva: “A solução dos problemas está na busca por práticas saudáveis”

Robson Caetano da Silva: “A solução dos problemas está na busca por práticas saudáveis”

SILVIA HERRERA

28 Agosto 2015 | 08h59

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O medalhista olímpico analisa o cenário da corrida de rua e o desempenho do Time Brasil no Mundial da China.

Prestes a completar 51 anos em 4 de setembro, o medalhista olímpico Robson Caetano da Silva anda preocupado com o futuro do atletismo no Brasil, ainda mais depois dos resultados pífios do Time Brasil nessa modalidade no Mundial da China, que termina neste domingo, dia 30.

Acredita que a solução está em dar mais oportunidades às crianças e jovens no esporte, como uma ferramenta de cidadania. Por isso, há três anos desenvolve dois projetos em seu instituto “Vem Ser”, que oferece iniciação ao esporte para crianças das UPPs,  e “Futuro Campeão”, para lapidar talentos. “São ações sociais que auxiliam a realização do sonho de ser um atleta, o sonho de ser alguém, mas precisamos de mais recursos para continuar”, conta.

Ele, que veio da Favela Nova Holanda, foi descoberto na escola pela treinadora Sonia Ricetti. Com essa oportunidade novas portas se abriram e aos 18 anos já estava em sua primeira olimpíada. Em seguida foi se destacando, ganhando vários Pans, Mundiais e duas medalhas de bronze olímpicas –  200m (Seul 1988) e 4x100m (Atlanta 96), só de recordes brasileiros são 23 e, até hoje, detém a melhor marca Continental (América do Sul)  dos  100 metros rasos – 10 segundos. Por conta de todas essas conquistas e seu exemplo de superação, ele hoje é uma celebridade do mundo running. Basta surgir nas corridas dominicais ou nos campeonatos de atletismo que se forma uma multidão ao redor dele, todo mundo quer uma selfie com ele, que com o maior carinho vai atendendo um a um.

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Já tive o prazer de trotar um pouco em sua companhia no Parque do Ibirapuera. Mesmo sem praticar há anos, a postura e a respiração são invejáveis. “Raramente corro agora, gosto mesmo é de fazer caminhada para curtir o sol nascendo na praia. Ando de bike e faço musculação, prática que  a melhor idade teria que fazer com mais frequência. A partir dos 50 é uma boa hora de incrementar os treinos para fortalecimento da musculatura e ter uma melhor qualidade de vida após os 65 anos”, conta ele, que também gosta de andar de skate e voar de asa delta.

Além de jornalista, Robson é formando em Educação Física, mas nunca pensou em ser treinador de corrida de rua. “Percebo que hoje em dia, as pessoas pagam a assessoria esportiva para, além do treino para evolução na corrida, buscar carinho e companhia. O personal está virando um psicólogo”.

E para aposentar o controle remoto e dar férias para o sofá, deixando de fazer parte das estatísticas de obesos, Robson dá uma preciosa dica: “Tem que dar o primeiro passo, não tem muito segredo, as respostas para seus problemas não estão dentro de casa, mas na busca por práticas saudáveis. Saia de casa, as redes sociais são ferramentas fantásticas, mas é preciso o contato físico, conversar olho no olho, as redes sociais estão deixando as pessoas muito frias!”

Atletismo: “Falta trabalhar o emocional”

Esta semana Robson Caetano deu plantão em frente à TV para conferir todas as provas de atletismo no Mundial da China. “O Brasil depende de uns poucos heróis, como a Fabiana Murer que foi prata no salto com vara. Ela perdeu o ouro por conta do emocional. A cubana Yarisley Silva é mais forte psicologicamente e por isso fez a passagem do sarrafo com uma técnica mais apurada. Só falta a Fabiana aprimorar isso que vai conseguir saltar mais de 5 metros.” E dispara: “Você tem que competir sem medo, sou torcedor e acredito no Time Brasil, o que faço é uma análise técnica.”

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Mas os 400 metros, em sua análise, foi um desastre, os brasileiros nem foram para a final. Para Robson esta é a prova concreta que a consultoria do ícone do atletismo Michael Johnson, que está treinando a equipe brasileira, foi um equívoco. “Qual a razão de convidar um atleta norte-americano, que não mora no Brasil e que não tem interesse em revelar seus segredos para o Brasil vencer? Há melhores opções aqui, por que não convidam alguém como eu, que defendi o Brasil em cinco finais olímpicas? Fora o escândalo de doping dos atletas dos EUA, que envolve 80% deles”, questiona.

O mar não está para peixe no atletismo por aqui. O Brasil não teve nenhuma medalha de atletismo na última olimpíada, decepcionou no Pan de Toronto – a expectativa era de 20 medalhas, trouxemos 13, só uma de ouro. E também não brilhou neste mundial. “Para criar uma cultura de esporte no Brasil não podemos destacar apenas o futebol, temos que investir nos campeonatos universitários como a Jamaica e os EUA, entre outros países, fazem”, afirma.

E como a corrida de rua pode contribuir para a melhoria do cenário do atletismo verde amarelo? “ Hoje tem corrida em todas as cidades, boa parte delas não são oficiais, mas elas contribuem na proliferação da busca da qualidade de vida, mas ainda não melhoram em nada as condições dos atletas.”

Ele destaca que há corredores amadores com uma boa situação financeira que viajam para Nova York para correr a maratona, mas não sabem qual é sua pisada. E do outro lado há atletas que não tem recursos para comprar um bom tênis para treinar. “Tem que baratear o material esportivo, não dá para pagar R$ 700 em um bom tênis de corrida, tinha que custar no máximo R$ 100, se tivesse recursos teria uma fábrica de tênis mais baratos, assim todos os 7 milhões de corredores brasileiros poderiam comprar um bom par para treinar corretamente, tem muita gente ainda que corre descalço porque não tem como comprar um par de tênis.”

Robson Caetano da Silva conclui que a essência do espírito esportivo se perde nesse panorama comercial. “As taxas crescentes de obesidade comprovam isso, o brasileiro não é um povo esportivo, 85% da população não tem acesso ao esporte, não tem acesso nem ao tênis indicado para sua pisada nem à TV a cabo para assistir as competições que na maioria, não passam na TV aberta”, finaliza o campeão, que gentilmente atendeu o pedido de entrevista do blog.  #corridaparatodos

créditos das fotos: arquivo pessoal de Robson Caetano da Silva