Robson Caetano da Silva: “É hora de ficar quietinho”

Robson Caetano da Silva: “É hora de ficar quietinho”

Confira entrevista com o campeão olímpico

SILVIA HERRERA

24 de maio de 2020 | 12h54

Fiz uma Live com o grande campeão Robson Caetano da Silva, o maior velocista da história do Brasil. Ele brilhou nas pistas de 100m e 200m em todo mundo entre 1978 a 2001. Ele é o único velocista  brasileiro a participar de duas finais na mesma Olimpíada, em Seul- 1988, onde conquistou o Bronze nos 200m. E, oito anos depois, outro Bronze no revezamento 4×100 em Atlanta. Até hoje é dele o recorde sul-americano dos 100 metros (9,99, que virou 10s, no México/1988). No Pan de Havana, em 1991, conquistou dois Ouros (100m e 200m). Nos 200m, Robson foi campeão do GP da IAAF em 1989; tricampeão na Copa do Mundo: Camberra 1985, Barcelona 1989 e Havana 1992. Em 1989, estabeleceu marcou 19.96 no Meeting de Bruxelas, marca que foi recorde sul-americano por dez anos.  Ou seja, um monstro do nosso esporte.

Mas como o campeão está encarando a quarentena imposta pelo coronavírus? “Esse momento de distanciamento social está servindo para que a gente faça um mergulho profundo na própria essência. Tem pessoas muito centradas que entendem a situação, outras entendem, mas são obrigadas a sair para trabalhar, precisam ir para o front, e os alienados, aqueles que jogam com a sorte”. Confira abaixo os principais trechos dessa entrevista, e abaixo o link com vídeo na íntegra.

Você está sempre se reinventando, foi Campeão da Dança dos Famosos, comentarista da Globo, da Recorde. Hoje faz parte do time do Bradesco, do canal Viva a Longevidade – e  tem sua assessoria de corrida de rua no Rio, com foco em qualidade de vida. Aliás, toda a comunidade da corrida de rua te adora. Como está  o trabalho na assessoria durante a quarentena? E como conseguir ficar leve durante a quarentena?

Robson Caetano da Silva – Moçada é preciso respeitar, o papo é sério. Tem gente que reage de forma assintomática ao coronavírus, tem gente que reage de forma sintomática, e tem gente que reage muito mal, e o medo é você ir parar num hospital que não tem como te receber. E talvez você saia de casa para ir ao hospital e não volte nunca mais. O assunto é muito sério. É preciso botar a mão na consciência. Politizaram o combate. Por aqui,  suspendemos os treinamentos na praia. Tem um ou outro aluno, que estamos trabalhando a distância. Tenho mandando dicas para quem me pede, e os vídeos da plataforma do Bradesco. Sou professor de Educação Física no Colégio Ao Cubo, e como a maioria das pessoas, tive o salário reduzido. Mas temos todos que fica quietinhos. É preciso se adaptar e treinar dentro de casa.  Estou em casa há mais de 70 dias, já estou criando raízes aqui. Mas vai passar. Todos nós temos que trabalhar para pagar as contas. Mas agora é hora de ficar quietinho, e sem perder o bom humor, até a pandemia do  coronavírus passar.

Você participa dos Jogos Olímpicos desde 1984 como atleta e como jornalista. E até Tokyo foi adiada. 

Robson Caetano – Vamos por partes. Comecei em 1978 e queria competir nos campeonatos estaduais. E uma coisa que foi bem marcante no início da minha carreira foi ter ouvido esta frase da minha técnica Sonia Ricete: “Robson, você é Olímpico! Se você ficar preocupado com o Estadual, vai ficar no Estadual. Pense grande, seja Olímpico.” A partir disso comecei a investir no meu potencial, físico e mental. Essa frase virou uma tábua onde eu pudesse me agarrar e encarar a vida em busca de dias melhores. Nos anos 80 era impossível ver os treinos dos outros atletas, facilidade que temos hoje. Tudo era muito empírico. Comecei a mentalizar uma corrida ideal para levar aos Jogos Olímpicos, e aí em 1984 consegui chegar até a semifinal dos 200m. Mas senti o peso dos uniformes dos adversários. Aqueles uniformes lindos e o meu… O choque foi muito grande e não passei pra final. Saí muito frustrado, além de não ter conseguido o resultado cometi um erro muito infantil – saí da Vila Olímpica. Mas peguei esses tijolos, das tijoladas que recebi ao longo de cinco anos de trabalho, e construí algo positivo para chegar melhor na próxima Olimpíada, em Seul-1988.  E nessa segunda olimpíada eu estava realmente muito mais preparado para encarar uma final.

Você se sentiu “menos” perante os adversários por causa da qualidade do uniforme ou foi a comparação com o seu uniforme que despertou o complexo de vira-lata, por ser brasileiro?

Robson Caetano – Foi exatamente isso. Eu entrei na pista, já no aquecimento percebi a estrutura a disposição dos outros atletas, um Staff gigante cuidando deles. E eu sem Staff, pensei: como vou conseguir competir com esses caras. Fui sendo minado, de uma forma muito dura, ao longo das eliminatórias. Sem querer menosprezar a minha origem, eu continuava o favelado. Não estava me sentindo gigante e pronto para aquela competição.  Hoje, a gente usa a expressão favela, e a favela é grande. Comecei a trabalhar o mindset em cima disso: agasalho não vence prova, o que vence prova é o treino, é o ser humano, e seu treinar direito e fizer direito tudo que está programado ou vou chegar lá com chances de chegar a final –  porque queria apresentar para o Brasil e para a favela que a gente pode muito mais. Acho que eu errei um ponto nessa programação, deverei ter mentalizado a medalha de Ouro. Nosso cérebro é poderoso. E foi exatamente isso que aconteceu, cheguei nas finais do 100m e 200m, e consegui medalha nos 200m.

Robson Caetano é o primeiro da direita – foto de divulgação do documentário

E a final dos 100m em Seul foi outra “tijolada”. Aliás o documentário sobre ela  “The Race That Shocked the World” é incrível.

Robson Caetano – Foi algo fenomenal. Não era qualquer final, era a final. Em 1984, o Ben Johnson ficou em terceiro no 100m, e o técnico dele Charles Francis foi pesquisar o motivo do Ben não ter vencido. E descobriu que o Carl Lewis fazia uso do hormônio do crescimento, mas não descobri qual era essa fórmula. E foi atrás e consegui e levou a fórmula para o Canadá e investiu nisso. O Lewis venceu em 1994 com o tempo de 9,99, e treinaram para bater esse tempo. Em 1988, foram eliminatórias 1, 2, semifinal e final. Hoje é eliminatória 1, semi e final. Antes disso. Eu corri no México e fiz 9,99

Mas antes da Olimpíada você venceu no México com o 9,99 que virou 10s?

Robson Caetano – Outra tijolada. Eu corri naquele dia seguramente entre 9,95 e 9,97. Arredondaram para 9,99. Fiquei sem entender. E aí de repente, já tinha voltando para o Brasil e fui verificar os resultados – 10 segundos. Depois corri 9,98 no Célio de Barros (RJ) mas como era cronometragem manual não valeu. Só que no México o Juca Kfuri falou o seguinte: “O Robson correu um bom resultado, mas para chegar na final da Olimpíada ele vai ter que correr bastante porque o buraco é muito mais embaixo. Provavelmente ele fique pela semifinal”. E graças ao Juca fui para a final do 100m!

 

Medalha de Bronze 200m Seul – Robson Caetano

Qual é o sabor de uma medalha olímpica?

Robson Caetano – Ela tem o mesmo e peso, sabor e valor de uma decepção amorosa. A decepção amorosa dói. É o extremo. Ter a medalha olímpica e tão bom que até dói. Dinheiro nenhum no mundo compra. No pódio (200m Seul/1988) tinham dois caras dopados e eu. E eu pensava, esse lugar mais alto aí é meu. Me senti muito honrado de representar o Brasil, mesmo com o mesmo agasalho da competição, que estava até meio descosturado do lado esquerdo. Há um desconforto, mas o mindset, de mudar o simples favelado para o favelado que chegou ao pódio e fazendo por merecer estar naquele lugar, foi fundamental. Noventa por cento dos esportistas vão só que passar pelo esporte, não vão marcar sua presença. Falo isso no esporte individual.  Fiquei dez anos entre os dez melhores do mundo e meu recorde sul-americano até hoje não foi batido.

 

 

 

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