Só para os fortes

Só para os fortes

SILVIA HERRERA

29 Outubro 2016 | 07h00

Concluir a Spartathlon, corrida entre Atenas e Sparta, exige a coragem de um Pheidippides.

 

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O mensageiro grego que inspirou a maratona moderna, quando correu entre Marathon e Atenas e garantia a vitória grega frente aos persas, fez muito mais.  Correu também de Atenas e Esparta – um trajeto cinco vezes maior que a maratona (246km) – em um dia e meio (36 horas), isso com sandálias de couro em 490 a.C. Para testar se esse feito seria humanamente possível, em 1982 um maratonista e comandante da RAF britânica, John Foden, e mais quatro colegas da RAF decidiram correr o mesmo trajeto relatada por Heródoto. E conseguiram!!! E a partir de 1983 começou a ser realizada a ultramaratona mais difícil do planeta, Spartathlon, a primeira edição com 45 atletas de 11 países. A deste ano contou com 400 atletas de 40 países. Até hoje apenas 15 brasileiros e 1 brasileira conseguiram completar esta façanha, entre eles Urbano Cracco, de 29 anos.

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Ele ficou entre os 10 primeiros em boa parte da prova, chegando a segundo, mas foi derrubado por sua lanterna, que quebrou justo à noite no trecho íngreme, cheio de pedregulhos, finalizou em 24º, melhor classificação entre os cinco brasileiros que estavam na corrida. Apenas um brasileiro já venceu esta prova, o santista Valmir Nunes em 2001. Na edição de 2003, Nunes chegou em segundo; e em 2007, em terceiro. Cracco ouviu falar pela primeira vez desta prova em 2011. E, se for aceito em 2017, agora já com lanterna nova, pretende dar seu melhor e voltar com o troféu da vitória para Lins (SP), sua cidade natal. Este ano além de Cracco mais quatro brasileiros participaram da prova:  Fábio Rodrigo Machado, Eduardo Santanna, Flávio Fernandes Vieira, Ariovaldo Branco Trindade, e apenas Machado não completou. Aliás, dos 400 participantes, só 230 completaram.

Cracco tem avô italiano e sangue competitivo nas veias, perder o motiva ainda mais. “Sou professor de Educação Física, comecei a correr as 5k, como não ganhava nada fui para as 10k, depois para 21k, 42k e para as ultras, foi quando comecei a ganhar”, conta ele, que teve a iniciação esportiva no judô, aos 11 anos. O cara é dão competitivo que não perdoa nem par ou ímpar.

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O caminho para a histórica Spartathlon, sempre realizada no final de setembro, é duro. O critério de seleção é o mérito. O corredor interessado envia seu currículo para avaliação dos organizadores, que chamam os melhores do mundo em março, quando é feita a inscrição (520 euros) – que inclui hospedagem e alimentação durante os seis dias, almoço com o prefeito e festa de premiação. O objetivo dos organizadores com essa seleção é que o maior número de pessoas consiga completar a prova. “Se você colocar na ponta do lápis vai ver que é a prova mais barata do mundo, além desse valor só gastei 1,80 euro pra andar de metrô”, conta Cracco, que também não teve dificuldades para se comunicar, mesmo não falando inglês. “Um dos brasileiros mora na Inglaterra há vários anos e virou nosso intérprete, o que facilitou muito, mas se o corredor falar o inglês consegue se comunicar com todo mundo”, avisa. Os competidores chegam em Atenas na quarta, descansam; na quinta tem o Congresso Técnico; na sexta é a largada; no sábado a chegada em Esparta; domingo voltam para Atenas após o almoço; segunda de manhã é livre e há evento a noite; terça cheque out.

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Conhecida por ser a corrida mais cansativa do mundo, o percurso é bem técnico e exige muito dos participantes – tem pedregulhos, caminhos enlameados (sim, às vezes chove), travessia de vinhedo e campos de oliveiras; e para finalizar com chave de ouro – uma subida de 1.200 metros e descida do Monte Parthenio na calada da noite. Esse monte, coberto com pedras e arbustos, foi onde Pheidippides conheceu o deus Pã (deus da natureza e protetor dos pastores) e onde quebrou a lanterna do Cracco, que perdeu dezenas de posições por não ter levado uma lanterna reserva. Mesmo 2.500 anos depois o cenário é o mesmo – sem estrada, apenas uma trilha. É um teste de resistência física e mental. “A chegada em Esparta é linda, você chega por cima em um cenário histórico, o primeiro exército do mundo era de lá, é emocionante. Você está concluindo a prova mais difícil do mundo no lugar onde foi escrita a história da humanidade, além disso a população está toda lá te esperando, aplaudindo, as crianças acompanham de bike, pedem autógrafo, incrível! ”, lembra Cracco.

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A largada é dada às 7 da manhã. Durante os 246km de corrida há 75 postos de apoio e seis de controle, com distâncias entre 3k e 5k. “Os postos têm água, baldes de gelo, banheiro, hidratação, alimentos, massagistas, fisioterapeutas, médicos e enfermeiros. Você nunca se sente sozinho; nesses pontos também levam sua mochila, tudo perfeito”, explica. O tempo de cada competidor é aferido nesses pontos, a tempo mínimo de corte para passar por eles. “O corredor tem de fazer um bom planejamento, senão é cortado mesmo. Eu fecho a cara e corro o tempo inteiro, mas tem muita gente que anda bastante. Aliás, tem um morro de pedras que não tem como correr mesmo”, observa.

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Durante as 36 horas, a prova é acompanhada pela polícia, ambulâncias e sempre há um hospital por perto. O primeiro corte acontece no km 81, os corredores têm que chegar até às 16h30; o segundo é no km 124 às 23h; o terceiro é no km 148,4km às 3h30 (sábado); quarto no 172km às 7h30; quinto no 195km às 11h; e o último no km 245,3km às 18h.

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Mesmo os melhores atletas começam a alucinar no trecho final. “O pior pra mim foi a falta de experiência, de não ter levado baterias extras ou mesmo uma lanterna reserva, e a descida final, força muito mesmo a coxa”, destaca.

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Ele não quis comer nada durante as 28:35:04 de corrida, diz que passa mal, também não se pesou, mas sabe que chegou bem seco em Esparta em 24º lugar. Cracco finalizou a prova com gosto de quero mais: “Se me aceitarem volto em 2017, agora que já sei como é sei que dá para fazer melhor!” O campeão foi Andrzej Radzikowski, que cruzou a linha de chegada com 23:01:13.

Andrzej Radzikowski

Andrzej Radzikowski

O próximo desafio de Cracco? Advinha? Vai representar o Brasil no mundial de ultramaratonas, 100k na Espanha, dia 27 de novembro na cidade de Los Alcazarez. #corridaparatodos

Quem se candidatar em 2017 para a Spartathlon? Clique aqui

 

Confira o vídeo oficial da prova

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