Trail Running: dicas do ultramaratonista Sidney Togumi

Trail Running: dicas do ultramaratonista Sidney Togumi

Confira as principais diferenças entre as corridas no asfalto e na montanha

SILVIA HERRERA

17 de abril de 2022 | 10h20

E aí? Pensando em trocar o asfalto pela montanha? Para te ajudar nessa transição, pedimos dicas para um cara que realmente sabe do assunto, o ultramaratonista e Sidney Togumi. Ele é referência nas corridas de montanha no Brasil, bacharel em Educação Física, treinador da UPFITRAIL Assessoria Esportiva, onde atende os principais atletas do trail running nacional. É também representante ITRA no Brasil, assessor da Confederação Brasileira de Atletismo para Trail Running, palestrante, pós-graduado em Treinamento Desportivo pela UNIFESP, especialista em Treinamento Desportivo, pela Universidade de Havana (Cuba) e escreveu uma de suas aventurar no livro “Gigante – 330km correndo pelo Valle D’Aosta”.

Togumi é assessor da Confederação Brasileira de Atletismo para Trail Running

Mas afinal das contas o que é Trail Running. Togumi explica que, resumidamente,  é uma corrida a pé na natureza, podendo ter entre 5 a mais de 300 quilômetros. Pode ser realizada na montanha, no meio da floresta, no deserto, no gelo. Pode ter desnível, muito desnível. Também pode ser em trilha, em estrada de terra, por vezes cruzar alguns rios, por vezes cruzar dunas e outras cruzar montanhas de gelo. As denominações são bem variadas, tem gente que entende como corrida em trilha ou corrida em montanha, outros já focam nas longas distâncias e preferem chamar de ultra trail ou ultramaratona de montanha. Togumi destaca que há dois pontos fundamentais para se levar em conta para quem quer experimentar a corrida em montanha: a distância e o tempo. “No asfalto, o campeão de uma 5k ganha em 17, 18 minutos; mas na montanha o tempo é sempre quase o dobro”, explica.

Fora a força nas coxinhas para encarar as montanhas, outra diferença é ter que realmente ler o regulamento para providenciar os equipamentos obrigatórios. Não é só calçar o tênis, colocar o peitoral com chip e se mandar, cada tipo de prova exige alguns itens de segurança obrigatórios, como apito, lanterna, entre outros. E caso o corredor não tenha providenciado esses itens será desclassificado. “Imagine que eu me perdi durante a competição e não fui localizado ainda com luz do dia, esses itens vão me ajudar a me manter seguro até alguém me encontrar”, frisa.

Os bastões também ajudam bastantes, os mais leves são os mais caros.  Os mais baratos custam cerca de 150 reais, cada. “Imagine você subindo ou descendo uma escada de emergência sem corrimão, esta é a diferença de correr com ou sem os bastões”, compara. E quantas montanhas precisam ter no percurso para levar os bastões? Tendo uma, o Togumi já leva. “O esforço a menos compensa nas subidas e descidas compensa o peso”, afirma.

E o principal de tudo, Togumi destaca que tem que ter desapego ao pace (minutos/km). “Se você ficar apegado ao seu pace vai se sentir desmotivado participando de uma corrida da montanha. Uma 10k, que no asfalta demora 1 hora, demora duas horas na montanha. E para começar distâncias menores, você vai correr de mochila, levar água, equipamento obrigatório, vai gastar mais energia”, observa.

Em 2021, Togumi concluiu em 14 dias o Desafio da Estrada Real. “Foram 710 quilômetros, saímos 17 de outubro de Ouro Preto e chegamos dia 31 em Paraty. A ideia era pagar 50km por dia, entre seis e oito horas por dia”, conta. Essa “aventura” foi gravada e vai ser lançada em forma de documentário em breve. Togumi brinca que faz ultramaratonas para poder comer de tudo que gosta e ainda por cima emagrecer. Para este ano ele pretende lançar um desafio pessoal de 160 milhas, sempre com algum propósito beneficente por trás.

DICAS DO SIDNEY TOGUMI

Togumi: “Se você ficar apegado ao seu pace vai se sentir desmotivado participando de uma corrida da montanha”

Perfil do atleta: se você gosta de velocidade, não gosta de subida ou de carregar peso, não experimente o trail running.

Primeira prova: não vá para as provas mais difíceis no começo. Não compre uma caixa do que você não sabe se vai gostar, antes compre uma unidade para experimentar.

Marcações: fique de olho atento na trilha para não se perder, a marcação é feita geralmente com fitas coloridas.

Equipamentos obrigatórios: manta térmica (um tipo de papel aluminizado que retém o calor), apito, lanterna e kit de primeiros-socorros. Algumas provas exigem vestuário específico. Esses equipamentos vão dar autonomia ao atleta, em casos de perigo. São obrigatórios pois a prova será ao ar livre. Numa corrida de rua, se acontecer um acidente em poucos minutos o atendimento médico é feito. Na montanha, boa parte do percurso é de difícil acesso e o transporte dessa pessoa que passou mal vai demorar um tempo considerável e esses itens vão ajudar muito nessa situação.

Hidratação: há os reservatórios de água para se colocar na mochila (camelback) e as garrafinhas que se encaixam na mochila, na aça da parte da frente. Essas garrafinhas são muito práticas na hora de reabastecer a água. Exemplo, o corredor tem um reservatório de 3 litros, e decide ir com ele cheio para não parar para reabastecer, porém ele vai fazer toda a parte da subida carregando esses 3 quilos. Vai que tomou 1 litro logo após a subida, carregou dois a mais sem precisar. Mas se tiver que reabastecer o reservatório, vai ter que tirar tudo da mochila para colocar a água e repor tudo novamente. Vai perder um tempão nisso. Já as garrafinhas são muito mais práticas para abastecer e você leva menos água na subida. Detalhe, leve ao menos um copo retrátil, no posto de hidratação só tem o garrafão para evitar lixo.

Força: faça treino de musculação, a força é extremamente importante na corrida de montanha.

Perigo: o que deixa o trail perigoso é o risco de acidentes. Se você está subindo na Pedra Grande, cai e tem uma fratura, talvez seja o caso até de um resgate de helicóptero. Ou no mínimo alguém para te carregar. Certa vez em um treino encontramos uma mulher a 500 metros do campo de pouso da Pedra Grande, ela tinha torcido o tornozelo e estava se arrastando sentada. Nós fizemos cadeirinha para ela, e isso demorou quase uma hora para percorrer essa distância.

 

 

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