Triatlo celebra 35 anos no Brasil

Triatlo celebra 35 anos no Brasil

SILVIA HERRERA

11 Maio 2018 | 20h57

“O fato do triatlo ter sobrevivido é uma vitória”, conta Roger de Moraes, campeão da primeira competição do esporte realizada no Brasil. #BlogCorridaParaTodos #triatlo

Roger venceu o Triathlon Café do Brasil aos 17 anos, em 1983, no Rio.  Filho de militares, nadador, judoca e corredor dos 3.000 metros com obstáculos, lendo uma revista descobriu o Ironman do Havaí um ano antes e resolveu então participar. Para marcar a data, acontecerá neste domingo, dia 13 de maio,  a primeira etapa do Campeonato Estadual do Circuito UFF (Universidade Federal Fluminense) com a presença de lendas do esporte no berço do triatlo brasileiro, o Rio de Janeiro, inclusive Roger.

A abertura do circuito vai rolar no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste carioca. Os cerca de 400 atletas serão divididos nas distâncias Sprint (750m de natação/20km de ciclismo/5km de corrida) e Standard (1,5km de natação/40km de ciclismo/10km de corrida) e vão disputar prêmios em dinheiro: R$ 8 mil para o Sprint e R$ 12 mil para a Standard.

Ninguém sabe ao certo quem é o pai ou mãe do triatlo, mas a modalidade teria surgido em 1974 em San Diego (EUA), como forma de treinamento nas férias dos atletas de um Clube de Atletismo, quando os técnicos passavam uma planilha de manutenção física com maior foco na natação e no ciclismo. O grande fato histórico foi a realização do primeiro Ironman, em  18 de fevereiro de 1978, disputado entre militares norte-americanos baseados no Havaí. No Brasil, foi o Triathlon Café do Brasil, disputado no Rio, em 1983, por jovens de todas as classes sociais motivados pela superação.

Roger de Moraes, em 1983

“O Rio  sempre foi um dos maiores protagonistas da história do triatlo em nosso país. Aqui realizamos a prova pioneira em 1983 e foi aqui que surgiram nomes como Fernanda Keller, Alexandre Ribeiro, Armando Barcellos e tantos outros”, afirma Júlio Alfaya, presidente da Federação de Triatlhon do Estado do Rio de Janeiro. “Como resultado disso, fomos honrados com o apoio do Ministério do Esporte através da UFF, garantindo-nos a continuidade da trajetória de sucesso da modalidade no calendário nacional. Uma nova safra de excelentes atletas vem surgindo com este projeto e o Rio de Janeiro continuará à frente de seu tempo de forma marcante para as novas gerações”, acrescenta o dirigente.

Entre as triatletas de alto rendimento confirmadas estão Luiza Cravo, Giselle Bertucci, Maria Soledad Omar, Fernanda Palma e Clara Carvalho. No masculino, os destaques são Paulo Maciel, Peter Pichnoff, Pedro Apud, Gustavo Slaib, Santiago Ascenco e Luiz Francisco Paiva.

Pioneiros

Amigos há mais de 35 anos e dois dos principais nomes da primeira geração de triatletas brasileiros, Armando Barcellos, de 52 anos, e Carlos Dolabella, de 57, competirão na Sprint. Como nos tempos de alto rendimento de ambos, um não quer perder para o outro. “O Armando me deu seis minutos de vantagem. Vai ser difícil ele me pegar. Apostamos uma bike nova”, brinca Dolabella, que veio de Miami, onde vive há mais de 20 anos, especialmente para comemorar a data e disputar a primeira etapa do estadual.

Confira abaixo, a entrevista por telefone com Roger de Moraes, primeiro campeão do triatlo brasileiro, educador físico, professor e pesquisador na área de fisiologia do exercício.

Roger de Moraes

Qual seu balanço dos 35 anos do triatlo no Brasil? O que pode ser aprimorado, o que não funciona?

Roger de Moraes – Nos dez anos que competi como atleta, o número de atletas foi diminuindo e houve uma desvalorização do espírito do desafio de superação, de superar todos os limites, inclusive o financeiro para conseguir os equipamentos necessários para os treinos, o mais caro deles a bicicleta. Nos anos 80, o triatlo era bem popular. Nos anos 90, a modalidade começou a ser abraçada pelas classes mais abastadas e isso mudou a característica inicial, já que a superação financeira fazia parte do espírito inicial do desafio. Para quem tem bastante dinheiro é fácil comprar os equipamentos. Nesses anos, tudo piorou no contexto sócio cultural e o Rio sempre teve suas mazelas. Por exemplo, onde treinar? Há uma lei que só é permite treinar ciclismo no Aterro do Flamengo de madrugada, entre 3h e 5h30. Ou seja, a que horas o atleta irá dormir? Falta infraestrutura para todos os esportes no Brasil, não é um problema específico do triatlo. Por exemplo, não existe pista de atletismo no Rio, a pista seria o local mais apropriado para os treinos intervalados de corrida. Ou ponto, a atleta vai pedalar nas ruas e os motoristas xingam, chamam de vagabundo, jogam os carros em cima dos bikers. É um problema sócio cultural aliado à falta de estrutura. A maioria da sociedade no Rio enxerga o triatlo como lazer, principalmente o ciclismo, consideram ‘coisa de desocupado’ sair pedalando por aí.  Veja, mesmo na Escola de Educação Física da UFF, onde o aluno aprende tudo sobre esporte, você não pode nem caminhar por lá, há casos de assaltos e estupros.

Como é no exterior? 

Roger de Moraes – Competi muitos anos na Alemanha. Lá você tem infraestrutura, tranquilidade e estabilidade psicológica para treinar. O governo alemão valoriza o atleta, todos os tipos de atletas. Sabem que quanto mais pessoas praticam uma atividade física regular, menores serão os gastos com saúde. Praticar esporte diminui as doenças da população. Em cada bairro há uma pista de atletismo para você treinar. Há parques bem cuidados, com até esquilos. Aqui o governo só age depois de uma tragédia, isso desanima um pouco.

E o lado bom?

Roger de Moraes –  Temos atletas como  Thiago Vinhal, que vem se destacando no cenário internacional com bons resultados. Ele é negro, compete com uma bike nacional, do patrocinador, e foi o primeiro atleta afrodescendente a competir profissionalmente em Kona, no Ironman do Havaí. Esse é o lado bom. Imagine se ele competisse com o mesmo equipamento do campeão mundial? Pode ser que as coisas mudem. Ele não é dos grandes centros urbanos nem rico. Ele consegue bons resultados com as ferramentas que tem. Há bikes hoje no Brasil na faixa do R$ 80 mil, na nossa atual situação econômica é um absurdo alguém realizar uma compra dessas. Apesar desse cenário caótico não quero passar uma imagem de desencanto. Só o fato do triatlo ter sobrevivido nesses 35 anos é uma vitória. Há outros esportes, como o baseball por exemplo, que não vingaram no Brasil.

Qual das três modalidades você gostava mais?

Roger de Moraes – De pedalar. Mas além do atleta ter que comprar a bicicleta ainda tem o preço mensal da manutenção, as peças são caras. E também não há locais para treinar.

Qual a melhor lembrança da sua primeira vitória?

Roger de Moraes – Quando me disseram durante a etapa final da corrida, que eu era o primeiro colocado. Tinha treinado muito e sabia que iria bem, mas não esperava ganhar…

 

 

 

SERVIÇO:

CATEGORIAS (masculino e feminino)

Alto rendimento: Elite, Sub-23 e Junior

Faixas etárias: 14/15, 16/17, 18/19, 20/24, 25/29, 30/34, 35/39, 40/44, 45/49, 50/54, 55/59, 60/64, 65/69 e de 70 anos em diante

 

PROGRAMAÇÃO

 

Sábado (12/5):

11h às 18h – Retirada dos kits no Hotel Atlântico Sul (Av. Lucio Costa 18.000)

 

Domingo (13/5)

06:30 – Abertura da Transição (Check-In)

07:45 – Fechamento da Transição e final do check-in

08:00 – Largada Sprint (alto rendimento e PNE)

08:02 – Largada Sprint (faixas de idade)

08:15 – Largada Standard (alto rendimento e PNE)

08:17 – Largada Standard (faixas de idade)

10:30 – Cerimônia de Premiação

 

 

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