Você tem fome de que

Você tem fome de que

Confira dicas para planejar sua alimentação durante a quarentena

SILVIA HERRERA

30 de abril de 2020 | 10h38

Como diz esta música do Titãs: “A gente não quer só comida/ A gente quer comida / Diversão e arte/ A gente não quer só comida/ A gente quer saída
Para qualquer parte“. De um dia para o outro, para o bem de todos,  a quarentena  foi instituída. E a rua, habitat natural de nós corredores, está vetada. E como lidar com a alimentação? Será que minha fome é emocional? Devo me privar dos doces neste cenário de privações? Ou mandar ver nos chocolates e depois corro atrás do prejuízo? Estas questões não são simples, envolvem também o emocional, mas durante um debate em meio ao “oceano” de lives no Instagram, a nutricionista Roberta Lima e a psicóloga Vanessa Protasio, que são corredoras  e fazem parte do time de especialistas da Maratona do Rio, deram dicas preciosíssimas. Confira abaixo.

Roberta é a nutricionista da nossa seleção de Judô, esteve em todas as Olimpíadas desde 2008 e já estava de malas prontas para Tóquio, quando a Covid-19 paralisou os esportes em todo o planeta. Ela ressalta que nesse período de confinamento social, a alimentação está muito mais relacionada ao psicológico do que à nutrição, propriamente dita. Alguns sinais dos efeitos da quarentena são claros: perder uma noite de sono, se perder no meio do dia. Por exemplo, tenho três atividades para fazer e no fim do dia não consegui fazer nenhuma. Por que isso? “Você não se envolveu com elas. É precisar se adaptar ao hoje. O velho ditado: ‘Um dia de cada vez’ – agora está valendo. Ninguém estava preparado para essa situação, que impactou em tudo. É preciso equilíbrio nesse momento, em termos de alimentação, treinos e emocional. E com certeza, todo mundo ficou um pouco destemperado. Mas veja bem, é uma situação TEMPORÁRIA e é possível ter ganhos, temos capacidade de nos recriar e aproveitar o momento para aprender muito”, conta Vanessa, que é maratonista e há quatro décadas trabalha com atletas, para que consigam atingir seus objetivos.

O grande pulo do gato é se adaptar ao momento, ter equilíbrio mental. Roberta lembra que, “quem estava treinando para a Maratona do Rio, por exemplo, estaria neste momento num estágio de alto volume de treinos, que requer um volume alto de consumo calórico, para ter combustível energético para isso. No entanto, o cenário mudou para todo mundo de uma hora para outra. E ninguém vai correr mais a maratona em junho. Com isso, os treinos também mudaram e tiveram que ser adaptados, para os maratonistas manterem a forma, dentro de casa. E as necessidades calóricas são bem mais baixas agora.

Narbal e sua filha Lívia na Maratoninha Gloob (Maratona do Rio – 2019)

Faz parte desse processo de equilíbrio entender quando a fome é real e quando é emocional. “O primeiro passo é saber distingui-las. Na fome real você quer comer um pratão de arroz e feijão, bife, salada, macarrão. A fome real é de comida de verdade. Já a emocional é por um alimento específico: ‘tô com vontade de comer um bolo que minha avó fazia’. Porque o doce te remete a um momento de prazer, de felicidade. Isso não é fome de verdade, é fome emocional, é saudade da avó. ” E quando bater aquela fofinha, que você não sabe de que, Roberta dá um conselho: tome água e ligue para um amigo, ou arrume um armário. Como a fome é emocional, ela vai passar sem você comer. “Isso é uma forma de mudarmos a mensagem do nosso cérebro, mudando o comportamento”, observa.  “Quando você se vê em uma situação, na qual você não tem controle sobre ela, geralmente surge a fome emocional, vontade de comer aquilo que eu não tenho, como se fosse uma recompensa, você come e fica calmo. É você quem criou essa recompensa. E você pode ter atitudes diferentes, e retomar o controle da situação para não ficar ‘fraco’ durante esse momento de treino substituto que estamos vivendo”, completa Vanessa, que reforça a importância dos corredores procurarem os nutricionistas neste cenário de pandemia. “Esta história de: ‘é só hoje!’ não existe. Gera culpa, aí você vai querer treinar em dobro no dia seguinte para compensar tudo que você comeu na véspera. Esse comportamento não é o ideal nem o mais saudável. Há vontades e escolhas. Não busque recompensas, mas sim resultados”, acrescenta Vanessa. “Vontade todo mundo tem, quem treina muito ou quem treina pouco, a diferença é saber gerenciar essa vontade, tomar uma atitude e fazer a melhor escolha. Encare a quarentena como um treino de base, para se preparar para a retomar com toda força em breve”, completa. Sábias palavras, a carapuça serviu para mim.

ALIMENTAÇÃO – DICAS:

1ª) Crie um obstáculo no qual você terá sete dias para cumprir. Por exemplo, parar de comer doces. Por exemplo, no primeiro dia não coma doce no café, no segundo no almoço, no terceiro no jantar, no quarto, no café e no jantar, no quinto, no café e no almoço, no sexto no almoço e no jantar, e no sétimo não coma doces. Faça desafios, atletas precisam disso.

2ª) Para evitar ‘fome de doce’ aumente o consumo de alimentos ricos em  Cromo e Magnésio, que são as sementes,  grão de bico, cacau em pó, amêndoas. Bons para os lanches intermediários.

3ª) Evite o consumo de alimentos refinados, como arroz branco, pão branco, açúcar branco. Eles causam um desiquilíbrio na glicose e dão mais fome. Substitui pelo integral. Fibra traz saciedade, demora mais para ser digerido.

4ª) Comer em etapas. Coma primeiro a salada, depois faz o prato principal.

5ª) Aproveite a quarentena para manter o foco na alimentação durante as refeições. Olhando para uma comida que você escolheu ou fez. Sente. Coma com atenção, desligue a TV e o celular, coma junto com os filhos. Quem come muito rápido e sem prestar atenção ao que comeu daqui dois minutos estará com fome novamente.

6ª) Evite longos períodos sem se alimentar e beliscar o dia inteiro. Estabeleça horários fixos. Faça uma rotina para o corpo entender e ter fome nos horários certos.

7ª) Abasteça sua geladeira e faça compras de alimentos de forma inteligente. Compre frutas, verduras, iogurtes de qualidade. Faça chás, águas aromatizadas e deixe na geladeira. Evite comprar sorvetes, biscoitos, bolachas e doces.

8ª) Beba mais água e líquidos. Nossa imunidade começa pela boca e temos que nos hidratar bem.

9ª) Diminua a ingestão de álcool. É um momento tenso, mas o maior consumo de bebidas alcoólicas vai impactar negativamente na sua imunidade. Beba com responsabilidade.

10ª) Não seja pessimista. É preciso ver além. Viva um dia por dia. O que pudemos mudar para melhor na nossa vida deste novo jeito? Vamos sair mais fortes e equilíbrio dessa situação. Encare a quarentena como um treino de base.

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