Volta à Ilha: 16 horas de superação

Volta à Ilha: 16 horas de superação

SILVIA HERRERA

11 de abril de 2017 | 13h05

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Quatrocentas equipes e histórias diferentes, tem as das mulheres (30% dos participantes), de quem já passou dos 60, dos canelas finas, dos amantes da cerveja, da cachaça e até dos deficientes visuais. A corrida de 140km ao redor de Florianópolis, Volta à Ilha, foi realizada sábado (8/4/ 2017). Fui até lá conferir, acompanhei a equipe Run&Beer, amigos de treino da Run&Fun (Mizuno) do parque paulistano Severo Gomes.

Oitenta por cento do percurso (veja os vídeos abaixo) é por praias, trilhas nas pedras, morros, mangue e tem até uma travessia de balsa. As equipes podem ser formadas por no mínimo duas pessoas e no máximo 12. Os times largam entre 4h15 e 7h30, os mais lentos primeiro. No fim da manhã já estão todos juntos. A prova termina às 20h30 com queima de fogos e muita celebração.

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Logo no embarque de São Paulo para Florianópolis, na véspera da prova, encontrei com o corredor José Manuel, que já fez a prova várias vezes e iria repetir a dose. Os olhos deles brilhavam só de contar como é a prova. No aeroporto de Floripa meu aplicativo do Uber deu pau e tive que recorrer ao serviço tradicional. Na fila do táxi fiz amizade com um casal de corredores e rachamos a corrida para o centro. Em Floripa o Uber é bem competitivo, por exemplo uma corrida do aeroporto até o centro custa R$ 15, e no taxi R$40!

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Quem vai competir a Volta à Ilha o melhor local para se hospedar é no centro, no Hotel Majestic (Av. Beira-Mar Norte, ao lado do Shopping Beira-Mar), o QG da prova. A retirada do kit, congresso técnico, jantar de massas, largada, chegada, premiação, balada pós-prova são realizados ali e nas imediações. Marinheira de primeira viagem me hospedei em Jurerê – 45 minutos de distância da largada/chegada…

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Passei a tarde no Majestic, acompanhei a entrega dos kits e bati papo com vários corredores. Um deles me chamou a atenção, calçava um tênis diferente, que nunca tinha visto. Era um tênis de perfil baixo da marca chinesa 361º , aquela que patrocinou os trajes dos voluntários da Rio 2016. A turma parecia correr bem rápido, a perna deles é da grossura do meu braço. Me contaram que eram patrocinados pela marca e que o tênis é ótimo para as provas, não para rodar. Era a dupla da equipe Companhia dos Cavalos, os gaúchos Ernani Souza e Élson Gracioli, que acabaram vencendo a prova e fazendo o recorde da categoria – 140km em 09:49:50!!

Emoção

No hotel também conheci o triatleta e empresário Fábio Charneski, coordenador da equipe de Floripa Sexto Sentido formada por cegos! Ele, louco por performance e atleta de Iron Mam, conheceu o projeto em 2008 e desde então se tornou voluntário, como guia, avisando de cada obstáculo, descrevendo o cenário e cuidando de tudo durante a corrida. O principal desafio é o guiar com segurança os atletas por todas as trilhas, costeiras de pedras e o asfalto, já que as avenidas estão em obras. “É uma equipe de esporte adaptado e meu trabalho é 100% voluntário. Em 2012 nos organizamos melhor, montamos um projeto e começamos a formar mais guias”, conta Fábio. Os atletas cegos correm rápido, media de 4:30 de pace, e os guias precisam ser 20% mais rápidos. “O cego precisa sempre do guia, só consegue treinar acompanhado, por isso criamos um cadastro. Temos 50 pessoas cadastradas mas que estão ativos são 22”, explica.

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O projeto precisa de guias de todos os tipos, dos caminhantes aos avançados, como os oito que participaram da Volta à Ilha. Este ano como o motorista era novo, Fábio correu apenas um trecho e ficou coordenando tudo do microônibus, como vão em 17 não caberia na van, veículo utilizado pelas outras equipes. Largaram às 4h30 e chegaram 45 minutos antes do horário de corte. O pior parte é a trilha da Cachoeira de São José, depois a Praia Brava. “São degraus de pedra o cego vai atrás do guia segurando na mochila, vamos caminhando bem devagar mesmo para ninguém se machucar”, explica. A equipe (foto acima) é mista: Eva, Edilene, Lenira, Camila, César, Zé, Ademir e Maurício. As mulheres são as mais rápidas do time.  A meta do Sexto Sentido é terminar 30 minutos antes do encerramento, conseguiram!! Chegaram a 45 minutos!!

Só Alegria

Na véspera em Jurerê, reunião no quarto do capitão da Run &Beer e depois terminar de preparar os sandubas de peito de peru/presunto com queijo e tomate. Acordamos às 3h da matina para o café da manhã e saída foi às 4h14. Na van sobrou bom humor, amizade e organização. O planejamento começou no ano passado pelo capitão do time, Wagner, que tem seis Volta à Ilha no currículo, mais o treinador Murilo. A equipe não teve que se preocupar com nada, só treinar forte, comprar a passagem aérea e fazer os depósitos que foram sendo pedidos no wa do grupo (inscrição da prova, hospedagem, camisetas, alimentação e transporte na prova).

A estreante Agnes largou debaixo chuva às 5h30 e mandou muito bem, foi mais rápido que o previsto; seguida por Celso, Rogério, Cris, Gabi, Erico, Claudia, Gabi again, Celso again, Adriana, Rogério again, Erico again, Claudia again, Adriana again. No fim da tarde – relargada rumo  ao famoso Morro Maldito, trecho feito pelo capitão Wagner (foto abaixo); já está escuro quando Paulinho vai para o 16 – no mangue pela Base Aérea; como precisamos acelerar o último trecho é feito pelo Erico e Murilo, que faz as vezes de pace. Ufa! Conseguem terminar a 25 minutos antes do encerramento!! A equipe ficou com 10 atletas na véspera, o décimo primeiro teve um problema e não pode ir, e euzinha em fevereiro machuquei o menisco e ficarei de molho até junho. Mas resolvi ir, fiz o apoio da turma, marcando os horários de chegada, resgatando nos postos de troca, levando água. E como já está destacado no nome da equipe, acho que só eu e o Murilo não bebemos, na van da Run&Beer não faltou muita cerveja importada bem gelada e várias champanhes para celebrar a chegada!! Parabéns a todos e também aos motoristas Alessandro e Mário!!

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Caro leitor que está me acompanhando até agora, não esqueci da equipe campeã da categoria geral. É a equipe de Campinas D-Run Bionexo, com o tempo de 08:45:18. “Foi minha estreia e acabei correndo dois trechos de areia bem difícil, mas o visual é incrível e vou voltar em 2018”, conta Ricardo da Silva, um dos integrantes da equipe vencedora (confira a lista completa abaixo). E a premiação? It’s a good question. Perguntei a vários corredores e todos ficaram com aquela cara de interrogação, estavam lá por outro motivo: domar seus fantasmas e junto com os amigos realizar um sonho impossível individualmente – correr a Ilha da Magia inteira em menos de 16 horas. Só uma pessoa me disse que o prêmio seria R$ 16 mil. Será mesmo? Não. Os campeão levaram uma medalha para casa e muitas histórias para contar. A experiência inesquecível de correr 140k com os amigos é muito mais valiosa do que qualquer prêmio e move essas 400 equipes todos os anos.

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Breu

Ver todas as praias de Floripa em uma van durante um dia inteiro é só para os fortes, sem correr posso garantir que é muito pior. Ainda bem que há 17 postos de troca para fazer o apoio, aquele pit stop estratégico e curtir com as equipes, a energia é muito boa mesmo. Mas como já cobri outras provas grandes de revezamento fiquei decepcionada com a infra oferecida aos participantes. Alô Eco Floripa! Os trechos no asfalto são bem perigosos, o trânsito não é interditado e o corredor corre no contra-fluxo literalmente junto com os carros sem qualquer tipo de proteção, não há cones, faixas muito menos batedores; e no escuro! O posto de hidratação do trecho 16 estava posicionado em um local sem qualquer tipo de iluminação, sendo que as equipes mais lentas – grande maioria delas – passa por ele à noite. Também não vi nenhuma ambulância durante todo o trajeto. E dezenas de corredores se perderam nas bifurcações sem sinalização das trilhas dos trechos  4 e 7 . O que testemunhei foram as equipes protegendo literalmente seus atletas! Segurança deve sempre estar em primeiro lugar.

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10 Lessons Learned

  • Para não ficar preso no trânsito por conta dos jogos de futebol no Estádio da Ressacada, verifique os horários dos jogos antes de comprar sua passagem aérea.
  • Leve um par de tênis e uma muda de roupa para cada trecho que for correr (inclusive top e meias) mais uma toalha para se secar e mais uma troca de roupa seca para a chegada. Depois de cada trecho você estará suado e não terá como tomar banho. São horas entre cada trecho – e ficar molhado na van com o ar-condicionado bombando pode acabar em resfriado.
  • Além dos banheiros químicos, há os dos postos de gasolina e dos parques. Na Praia da Joaquina há ducha externa grátis e o banheiro custa R$2 por pessoa.
  • Leve uma pochete ou uma braçadeira para guardar um dinheirinho, RG (a organização pede na hora das trocas) e o celular. Como só há apoio nos postos se você se perder ou se machucar é fundamental levar o celular para pedir Socorro para a sua equipe.
  • Na hora de alugar a van e o carro solicite motoristas nativos ou que já correram ou dirigiram na prova, presenciei um motorista que estava indo para o lado errado. Outra opção é alguém da equipe dirigir.
  • No trecho da trilha da Cachoeira do Bom Jesus tem uma trilha difícil, boa para quem está acostumado com corrida de aventura ou já conhece o caminho. Alguns corredores se perderam este ano e correram quase dois 2k a mais. Ou, se possível, ir antes para fazer o reconhecimento na área, que não bem é sinalizada.
  • Alguns trechos não tem hidratação da organização, que pode ser feita pela equipe.
  • Para reconhecer de longe os atletas de sua equipe faça camiseta do time bem visível.
  • Para evitar que a planilha com as previsões de horários e postos molhe plastifique antes. Tem que ter uma na van e uma no carro de apoio.
  • Cálculo de gastos, a equipe Sexto Sentido (oito corredores mais oito guias), por exemplo, gastou R$ 550,00 com hidratação e kits lanches, mais R$ 150 com o carro; e mais R$ 350 de Diesel e o motorista do microônibus (conseguiram o veículo emprestado). A equipe Run&Beer, que levou cerveja e champanhe para 10 atletas, gastou R$ 1.300,00 só de alimentação e hidratação. Alguém da equipe tem que chegar antes e comprar os itens no atacadão em Floripa.

 

Vencedores da 22ª Volta à Ilha (2017):

Geral: D-Run Bionexo (Campinas – SP): 08:45:18
Aberta: Supermercado Jacomar/ CR Runners (Curitiba – PR) : 09:01:15
Aberta Mista: Milacki/CR Runners Brasil/Jacomar (Colombo – PR): 10:15:17
Feminina: Lebrinha (Cuiabá – MT): 11:14:09
Veterana Mista: Clube de Corrida Formacco (Florianópolis – SC): 10:53:52
Veterana 40: SupermercadoJacomar /CR Runners (Curitiba – PR): 09:51:54
Veterana 50: Os Velhotes (São Paulo – SP): 10:59:02
Veterana 60: Chão de Aterro : 12:28:27
Duplas: Cia dos Cavalos 361º (Porto Alegre – RS): 09:49:50

 

E quem já está louco para se inscrever para 2018  – veja abaixo os 3 vídeos do percurso completo:

 

 

 

 

 

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