A implosão de Jon Jones

A implosão de Jon Jones

"Bones" teve seu título retirado pelo UFC após uma série de acontecimentos que colocaram em xeque uma carreira brilhante

Fernando Arbex

29 de abril de 2015 | 11h55

Agora ex-campeão dos pesos meio-pesados do UFC, Jon Jones pôs fim ele mesmo naquela que eu acredito ter sido a sequência mais impressionante de um lutador de MMA. Enfileirar “Shogun” Rua, “Rampage” Jackson, Lyoto Machida, Rashad Evans, Vitor Belfort, Chael Sonnen, Alexander Gustafsson, Glover Teixeira e Daniel Cormier é um feito gigante, digno de alguém que merece o posto de o maior da (breve) história desse esporte, deixando para trás Anderson Silva, Fedor Emelianeneko e Georges Saint-Pierre. É uma situação para se lamentar, mas não é surpresa que o Ultimate tenha lhe tirado o cinturão após uma série de acontecimentos negativos.

Reprodução/UFC Twitter

Reprodução/UFC Twitter

Antes de ser suspeito do recente acidente automobilístico que quebrou o braço de uma grávida em Albuquerque, no Estados Unidos, Jones foi detido pela polícia de Bightamton, no seu estado natal de Nova York, por ingerir álcool e se envolver em uma batida de carro. Esse episódio em maio de 2012 foi o primeiro indício de que “Bones” havia se deixado influenciar negativamente pela fama. O mais novo campeão da história do Ultimate (tinha apenas 23 anos em março de 2011, quando derrotou “Shogun”) é mais um caso de um jovem sem estrutura emocional para conviver com tanto assédio. Outros agravantes são sua falsidade e falta de carisma. Por mais media training que fizesse, o então campeão escorregava nas próprias decisões espontâneas, como a de se recusar a enfrentar o inofensivo Sonnen no UFC 151 e ser responsável pelo cancelamento do evento.

A fraca popularidade de Jones entre parte dos fãs se deve ao seu próprio estilo. Há os que ignorem todo o fator extra-luta, pensando que o que importa mesmo o que acontece no octógono. Porém, MMA é um esporte que precisa de mídia para se vender, eventos promocionais são necessários. E era neles que Jones fracassava. Sua briga com Cormier no looby do hotel MGM passou a ter um vilão claro quando, horas depois, vazou gravação via satélite em que “Bones” aparecia ofendendo gratuitamente o rival, apesar de na frente das câmeras o campeão ter preferido um vazio discurso de arrependimento.

O penúltimo ato dessa caminhada foi revelado em janeiro. Depois de derrotar Cormier, foi divulgado que Jones havia sido flagrado com cocaína em exame antidoping surpresa antes do combate – a vitória só não foi anulada porque drogas recreativas só são proibidas se pegas no dia da luta. Muito se discutiu se o UFC deveria punir-lhe com a perda do título, mas a organização deu ao seu campeão um voto de confiança (na tentativa de salvar sua galinha dos ovos de ouro, claro).

Mas esse novo acidente automobilístico foi a gota d’água, com o agravante de terem encontrado maconha no carro que supostamente era de “Bones”. Não vou aqui pagar de moralista, mas é certo que um atleta profissional com combate marcado para 23 de maio deveria estar focado apenas em treinar. A organização não conseguiu mais segurar as pontas de seu campeão encrenqueiro e retirou dele o título. Jones também perdeu seu contrato com a Reebok, patrocinadora oficial do Ultimate que escolhera alguns lutadores para assinarem acordos especiais.

É uma pena porque Jones claramente é muito talentoso. Não sou fã de sua personalidade, mas sua qualidade como lutador é inquestionável, é impressionante que tenha conquistado tantos feitos apenas aos 27 anos de idade. Agora ele terá de dar um tempo na carreira e encarar seus erros de frente. Se Mike Tyson – que aparentava ser infinitamente mais problemático – reconquistou seu título mundial de boxe depois de sair da prisão, acredito que “Bones” possa voltar a atuar em alto nível.

P.S.: Cormier substituirá Jones no confronto contra Anthony Johnson na disputa pelo cinturão vago dos meio-pesados do Ultimate, no UFC 187.

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