A revolução Ronda Rousey no UFC

A revolução Ronda Rousey no UFC

Pilar da consolidação do MMA feminino no Ultimate, a campeã defende neste sábado seu título peso galo pela quinta vez

Fernando Arbex

27 de fevereiro de 2015 | 12h23

Eu não sou lá muito fã de lutas femininas, mas um evento numerado do Ultimate com mulheres nos dois combates principais não pode ser ignorado. Neste sábado, 28, Ronda Rousey defenderá seu título dos galos pela quinta vez, nesta oportunidade contra Cat Zingano, em atração principal do UFC 184 que vai ocorrer pouco depois de Raquel Pennington vs. Holly Holm. Claro que esperava-se que a edição fosse encabeçada pelo duelo entre Chris Weidman e Vitor Belfort, mas a lesão do norte-americano não foi tão sentida – não a ponto de cancelar o card, ao menos – porque Ronda já se provou vendável o suficiente.

Dana White com sua empregada favorita. Crédito: Jayne Kamin-Oncea/USA Today

Dana White com sua empregada favorita. Crédito: Jayne Kamin-Oncea/USA Today

Longe de mim achar que mulheres são muito delicadas para esse tipo de confrontamento físico, meu desinteresse se justifica pelo baixo nível técnico da maioria das lutas, isso em razão de o MMA feminino ainda ser muito recente em grandes palcos. Diferentemente dos primórdios do esporte, quando ainda só praticado por homens – época também conhecida como “Era dos Caminhoneiros” -, sempre havia a lúdica possibilidade de um grandalhão acertar um soco no outro e proporcionar ao público um nocaute espetacular.

Mulheres não têm esse poder natural e a maioria delas peca na técnica correta da aplicação dos golpes – esse fator vale também para parte dos competidores do sexo masculino, mas há casos em que a brutalidade compensa. Porém, assim como acontecia com os homens na década de 1990, os combates entre as melhores atletas do MMA feminino mostram qualidade. Por exemplo, se qualquer judoca olímpico com um jogo de chão gabaritado adaptar bem sua técnica para o octógono, será ótimo de assistir, independentemente do gênero.

Ronda aplica queda de judô

Esse é o caso de Ronda Rousey, que, além de muito boa lutadora, é linda e esquentadinha – modelo perfeito de sucesso comercial. Argumente o quanto quiser sobre a evolução técnica das mulheres no esporte, o UFC só criou uma categoria feminina em 2013 por ver potencial de retorno financeiro na então campeã peso galo do Strikeforce. Na mesma organização atuava a peso pena Cristiane “Cyborg” Justino, considerada a melhor lutadora peso-por-peso daquele momento, mas uma mulher que não se encaixava nos padrões estéticos definidos pela sociedade e antes havia sido flagrada em exame antidoping. Qual categoria criar no Ultimate, a de Ronda ou a de “Cyborg”? Por que viabilizar um duelo entre as duas, mesmo que em peso casado, se a chance de a Ronda perder é maior? Dinheiro é a resposta óbvia.

(Não, o UFC não é uma empresa preocupada em proporcionar aos fãs o melhor do MMA, a companhia presidida por Dana White apenas vende essa ideia para ter lucro. Quando você tem uma fatia gigante do mercado, como é o caso, muitas vezes é verdade que o seu produto é de fato aquele com mais qualidade, mas mentir para o público faz parte do trabalho de um promotor de lutas – e de qualquer coisa. Por exemplo Anderson Silva vs. Vitor Belfort não foi nem de longe “A Luta do Século”, mas não nos alonguemos nesse tópico específico.)

Indo para sua quinta luta no octógono, a 11ª na carreira, Ronda não é mais só uma judoca-medalhista-de-bronze olímpica-que-vence-por-chave-de-braço – e já estava muito bom quando era “só isso”. Agora ela aparenta estar trocando golpes em pé com mais fluidez e do seu controle do clinch, que sempre foi ótimo para derrubar, também saem duros ataques. Ela é completa? Talvez sim para os padrões técnicos atuais do MMA feminino, mas ainda longe de ser imbatível. Cat Zingano é uma boa wrestler e detém força física incomum para a categoria. A questão é quem delas conseguirá se impor à outra em um duelo de diferentes estilos de quedas. Ronda tem mais capacidade de vencer por submissão, Zingano mais poder para impor um nocaute técnico no Ground and Pound.

E se Ronda vencer? Muito bom para o UFC, um de seus principais produtos continuará em processo de valorização. Mas e se ela perder? Também é ótimo, a organização poderá promover uma revanche entre as duas competidoras, quem sabe uma trilogia no futuro. E depois de Zingano? Holly Holm é uma linda ex-boxeadora multicampeã mundial que vai estrear no octógono contra uma adversária de cartel 5-4, caminho que começa a ser pavimentado para a pugilista conseguir uma disputa de título. Mas e se for muito cedo para Holm? A falastrona Bethe “Pitbull” Correia já venceu duas amigas de Ronda, inclusive a campeã odeia a potiguar e pediu por esse combate. E se no fim não tiver mais opções? Que, enfim, deem uma chance a Cris “Cyborg”.

Maryl Streep vibra com discurso feminista de Patricia Arquette durante cerimônia do Oscar 2015

O UFC rendeu-se a todo esse sucesso e inaugurou em 2014 a categoria das pesos palhas, expandindo o número de competidoras na organização. Sua menina de ouro, a campeã Ronda já até estrela filmes de ação em Hollywood, como Mercenários 3 e Velozes e Furiosos 7 – nada que vá lhe render um Oscar, mas imagino que a Patricia Arquette esteja orgulhosa com o fato de que o MMA feminino veio para ficar.

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