Anderson Silva come espinafre

Anderson Silva come espinafre

No MMA e nos demais esportes, atletas são cobrados para vencer antes de mais nada, o resto é secundário.

Fernando Arbex

12 de fevereiro de 2015 | 13h38

O personagem Popeye se tornou famoso por fumar um cachimbo e comer espinafre para ficar mais forte, curiosamente seu único motivo de questionamento era pelo interesse na chata e sem graça da Olívia Palito. Ao contrário do marinheiro, Anderson Silva – bem como os demais esportistas de alto rendimento – está sob o regime do controle antidoping, no caso dele havia regras estabelecidas pela Comissão Atlética de Nevada a serem seguidas e ele as desrespeitou. Flagrado em dois exames, o “Spider” teve sua vitória sobre Nick Diaz anulada, e ao final do processo com certeza será suspenso e multado. Ponto final.

Fabio Motta/Estadão

Fabio Motta/Estadão

Agora, antes de falarmos desse assunto, seria conveniente que você assistisse ao documentário abaixo:

Tudo bem, o vídeo tem um hora e 46 minutos de duração, pode assistir em outro momento. Prossigamos. Antes de tudo, quero deixar claro que sou contra o uso de qualquer substância proibida enquanto a legislação atual do esporte estiver em vigor, mas gostaria de ver o tema ser debatido com mais profundidade em um futuro próximo. O que incomoda é a hipocrisia e a desinformação pela qual essa discussão é envolta. Primeiramente, Anderson começou a carreira em um tempo do MMA em que antidoping nem sequer existia. No próprio UFC o controle sempre foi aquém do regido pela WADA (Agência Internacional Antidoping), o lutador, por exemplo, nas duas lutas anteriores dele, ambas contra Chris Weidman, não foi testado durante o período de treinamento. Nada disso isenta o brasileiro de culpa nem é atenuante.

A questão é que atletas de alto desempenho são cobrados primeiramente para ganhar. É isso que se espera de um competidor, a vitória. Depois vêm elementos secundários. Esportistas do mais alto gabarito quando sob pressão já tomaram atitudes questionáveis. Pelé revidou inúmeras agressões, Evander Holyfield ficou conhecido por cabeçadas muito bem escondidas dos árbitros, Maradona batizou a água oferecida a Branco, Neymar até hoje é cobrado por simular faltas. A lista é extensa, o ponto é que trapaça existe dentro e fora da competição e ela sempre está um passo à frente da fiscalização. É um pouco óbvio que só é possível combater uma irregularidade depois de ela ser exposta.

Afastando-se um pouco da demonização dogmática em torno do tema, é possível desconfiar do uso de doping em qualquer esporte. Um ser humano é capaz de jogar praticamente todos os minutos dos 82  jogos da temporada regular da NBA e brilhar nos playoffs? Um homem é naturalmente capaz de correr 100 metros abaixo dos 10 segundos? Como jogadores de futebol brasileiros evoluem tanto fisicamente na Europa? Há inúmeras formas de burlar exames, um atleta terminar a carreira sem ser pego não necessariamente quer dizer algo. Usain Bolt até aqui sempre passou limpo pelos testes, mas é suspeito que cinco colegas dele de equipe jamaicana de atletismo tenham sido flagrados em 2013.

Enquanto permanecer essa ideia enraizada de que uso de drogas para melhora de performance necessariamente mata e que quem é pego é um trapaceiro sem talento, a discussão em torno desse assunto nunca vai evoluir. Atletas são obrigados a mentir em nome da manutenção desse patrulhamento demagogo. Ganhou o ouro olímpico e não foi pego com nenhuma substância ilegal? Ótimo, você é um herói. Qualquer outra combinação é condenatória, envolva ela fracasso na competição com ou sem doping. Um perdedor “limpo” sempre será visto como um perdedor.

Carl Lewis foi flagrado em exame após uma competição nos Estados Unidos em 1987, seu caso foi encoberto e em 1988 o norte-americano herdou a medalha de ouro do dopado Ben Johnson, na Olimpíada de Seul. Um é herói e o outro vilão. Qualquer pesquisa rápida informa que a condição de saúde do canadense é normal, seu uso de esteroides durante um bom tempo de vida em nada o afeta hoje.  Tanto não afeta Lewis, que comprovadamente utilizou ao menos uma vez um ano antes da edição dos Jogos Olímpicos que o consagrou.

Não me entenda mal, abuso de anabolizantes faz mal para a saúde – assim como o abuso de qualquer substância. Como o nome diz, são produtos que anabolizam reações,  seja do ganho de massa muscular à aceleração do crescimento de um tumor. Mas de um tumor que já estava lá, não criado pelas drogas. No caso de elementos de boa procedência, é possível usar com acompanhamento médico e ter uma vida saudável, tanto é que um número absurdo de atletas usou e usa até hoje. Há efeitos colaterais como infertilidade? Sem dúvida, mas cada um tem o direito de decidir o que faz do próprio corpo. Segundo do DATASUS, o abuso de hormônios e substâncias sintéticas matou no Brasil em 2012, quando foi feito o último levantamento, três pessoas (3! Um, dois, três!). Para traçar um paralelo, o Ministério da Saúde afirma que 200 mil pessoas morrem anualmente no País em decorrência do cigarro.

Referência no assunto (negativamente, claro), Lance Armstrong já deixou avisado que não há atleta de alto rendimento que esteja limpo. Podemos desconfiar que seja verdade, averiguar de forma cuidadosa e discutir as causas do deliberado uso de anabolizantes por esportistas e os reais efeitos no corpo humano dessas substâncias – já amplamente usadas por médicos na atenuação dos efeitos do HIV e em outros casos. Ou podemos continuar vivendo no mundo da fantasia e desqualificar esportistas que eventualmente forem pegos por falha em mascarar o uso.

Admitindo o doping ou não, Anderson Silva vai ser suspenso e sua carreira terá para sempre essa mancha. Ele foi pego trapaceando segundo os parâmetros aceitos por ele, merece ser punido. É triste porque ele é a cara do MMA no Brasil e o esporte naturalmente perde credibilidade em decorrência desse incidente. O “Spider”, ao menos, poderia ter passado sem a declaração dele de meses atrás, quando disse que lutadores flagrados com doping deveriam ser banidos do esporte.

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