Anderson Silva cria coragem, mas é azarão contra Daniel Cormier no UFC 200

Anderson Silva cria coragem, mas é azarão contra Daniel Cormier no UFC 200

'Spider' contraria lógica da própria carreira de fugir dos maiores desafios ao aceitar combate contra campeão meio-pesado do Ultimate

Fernando Arbex

08 de julho de 2016 | 13h42

Talvez a perda do cinturão peso médio do Ultimate criou coragem em Anderson Silva, mas fato é que o “Spider” aceitou substituir Jon Jones a dois dias do UFC 200 e vai encarar o campeão meio-pesado da organização, Daniel Cormier, em um combate programado para três rounds e que não valerá título. Além de Lesnar vs. Hunt, confronto do qual já tratamos, José Aldo e Frankie Edgar vão fazer revanche válida pela cinta interina da divisão dos penas e Miesha Tate colocará em jogo seu reinado da categoria feminina dos galos contra Amanda Nunes, portanto vamos ao trabalho.

as-dc

Cormier vs. Silva. A iniciativa de Anderson em pedir para substituir Jones é tão louvável quanto imprudente – analiso aqui apenas a parte técnica, porque com certeza o tio Dana White lhe prometeu um caminhão de dinheiro. O “Spider” moldou seu estilo ao longo dos anos com base no contra-ataque, já que a tomada da iniciativa o expunha a quedas no começo da carreira. Cauteloso, paciente, o ex-campeão desenvolveu um sistema eficaz para conseguir manter a luta em pé.

É necessário à estratégia de Anderson que ele fique perto da grade em um primeiro momento, elemento que usa como poucos para se defender de entradas de queda. O uso de “firulas”, “brincadeiras”, “palhaçadas”, escolha o termo, também é necessário. Esse tipo de abordagem induz o rival a tentar nocauteá-lo e abre brechas para o contra-golpe, a especialidade da casa.

Bonnar caiu na pilha de Anderson

Nesses dez anos de UFC, três lutadores tiveram sucesso contra Anderson: Chael Sonnen, Chris Weidman e Michael Bisping, farei um breve resumo de como cada um conseguiu causar problemas ao brasileiro. Sonnen era um wrestler ofensivo brilhante e focado, mas seu jiu-jitsu falho, no primeiro embate, e a perda desse foco na estratégia, no segundo, foram as causas de suas derrotas para o “Spider”.

Focado em derrubar, Sonnen deu trabalho

Weidman também perdeu o foco em derrubar, mas dobrou ataques com a mão direita e assim conseguiu quebrar a esquiva de Anderson, acostumado a desviar de socos em sequências óbvias – esquerda, direita, esquerda, direita. Por fim, Bisping apostou em uma abordagem mais precavida, abusou dos ataques com a mão esquerda (jab e gancho) e não se colocou em posição para sofrer o contra-ataque.

Cormier foi um wrestler olímpico, é provável que ele tente repetir o que fez Sonnen e é provável é que consiga. Quem levantou Jon Jones e o arremessou no chão deve conseguir repetir isso com Anderson Silva. Mas foco em uma estratégia não é o forte do norte-americano. Emotivo, ligou o ventilador de socos contra Patrick Cummins porque se sentiu desrespeitado por algumas provocações e esqueceu de usar seu wrestling em alguns momentos contra Alexander Gustafsson (funcionou) e Jones (não funcionou).

Quem levanta o Jones, levanta o Anderson

O campeão meio-pesado é companheiro de treinos de Cain Velásquez e os dois são especialistas em controlar rivais contra a grade, o que Junior “Cigano” e Frank Mir perceberam quando os enfrentaram. Esse plano, porém, pode não ser o melhor a ser usado contra Anderson, que é mais alto do que “DC” e especialista no clinch de muay thai. O norte-americano é bom em travar a nuca do adversário para encaixar o upper, mas isso pode expô-lo a tomar uma joelhada no queixo.

Cormier venceu Gustafsson, mas a estratégia não foi a melhor

Quando campeão, Anderson pedia pelos adversários mais fáceis, recusava super lutas contra outros campeões e tentava evitar os maiores desafios da divisão dos médios. Pela lógica, Cormier derrota um “Spider” destreinado e que há dois meses saiu de um combate para retirar a vesícula. Foi uma surpresa que ele aceitasse um rival tão bom e tão desfavorável por questão de estilo, mas, enfim, dinheiro na conta é sempre bom e, na pior das hipóteses, “vai ser engraçado”, como o brasileiro disse antes de enfrentar Vitor Belfort.

Aldo vs. Edgar II. Conor McGregor segue aproveitando de suas regalias injustificadas e vai ter revanche contra Nate Diaz, por isso a divisão dos penas não tem um campeão para defender o título. Desta forma, lá vai o Ultimate queimar uma revanche que deveria acontecer se um dos envolvidos tivesse a posse do cinturão de verdade e não em um combate válido pelo interino.

Como essa luta já aconteceu uma vez, usemos o que já temos de parâmetro. Edgar teve muita dificuldade porque não conseguiu levar o rival para o solo e sua movimentação foi desacelerada pelos chutes sofridos na perna. O norte-americano trabalha com volume de golpes e depende da dúvida causada no adversário sobre o que ele vai fazer. Vai derrubar? Vai para a direita? Vai para a esquerda? Aldo tinha todas essas respostas. Além disso, o brasileiro usou seu jab para furar diversas vezes a sempre exposta guarda do oponente e fez o pivô como ninguém para se defender.

Edgar não achou Aldo nos três primeiros rounds

A esperança para Edgar é que ele vai para a sétima luta dele na divisão dos penas, por isso já está melhor adaptado, inclusive mostrou contra Chad Mendes um poder de nocaute que ele não tinha. Contra Aldo, da primeira vez, o norte-americano cresceu com o correr do confronto, venceu o quarto assalto e é discutível se levou também o quinto. É normal para o brasileiro diminuir o ritmo com o passar dos rounds, por isso é bom que ele entre ligado e focado em pontuar nas primeiras parciais.

Tate vs. Nunes. Miesha Tate parecia fadada a olhar o cinturão feminino dos galos à distância, mas conseguiu em um último suspiro derrubar e finalizar Holly Holm, no quinto e último round do duelo. A campeã tem recursos em pé e no chão para competir, mas a raça é sua principal característica. Nessa sua primeira defesa de cinturão, a adversária é Amanda Nunes, que tem um ritmo de luta oposto: começa forte, mas o rendimento cai.

Tate deve circular e esperar bastante nos primeiros assaltos, porque não vai aguentar o tranco se aceitar a troca franca de golpes. Amanda, por sua vez, deve dosar seu ímpeto se o nocaute não vier logo no início e chutar as pernas da norte-americana para desacelerar a campeã.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.