Anderson Silva e a teia de incoerências

O "Spider" conseguiu sair com a reputação mais manchada de seu caso de doping do que se poderia imaginar

Fernando Arbex

13 Agosto 2015 | 20h21

A vontade que o senhor Anderson Silva e seu estafe têm de fazer bobagem impressionaria até o coronel Nascimento em Tropa de Elite 2. Foi nada menos do que patética a defesa apresentada nesta quinta-feira para o caso de doping do “Spider”, que em janeiro foi flagrado com substâncias anabolizantes e ansiolíticos. Não de forma surpreendente, a Comissão Atlética de Nevada (NAC) suspendeu o atleta brasileiro por 12 meses – retroativos à data de seu combate com Nick Diaz, realizado em 31 de janeiro -, o multou em US$ 380 mil e anulou a vitória conquistada no referido combate.

Na prática, Anderson pode voltar a lutar em 1 de fevereiro de 2016, de modo que o resultado do julgamento até saiu barato pela forma com que o lutador conduziu a situação. A estratégia inicial foi bem simples: contestar o resultado dos exames, declarar inocência e postergar o caso ao máximo. A primeira parte do plano, que era ficar fora de foco, já não foi alcançada por causa da lamentável participação dele no episódio com a Confederação Brasileira de Tae Kwon Do (CBTKD).

Em primeiro lugar, já seria loucura imaginar que o lutador de MMA passaria da seletiva para a Olimpíada de 2016 contra rivais que competem exclusivamente na arte marcial. O agravante foi dar abertura para justas críticas, porque um atleta que responde processo por uso de doping não deveria se candidatar a disputar os Jogos Olímpicos furando a fila em outro esporte. Por fim, Anderson, de forma muito deselegante, parou de responder os contatos da CBTKD, que ficou a ver navios.

Enfim, passados longos meses de espera, deu-se início ao freakshow visto nesta quinta-feira. A defesa de Anderson alegou que a equipe do atleta pediu por conta própria a análise de todos os suplementos usados por ele durante o período de treinamento para o UFC 183, teste que foi feito pelo laboratório Quest, o qual não é credenciado pela Agência Mundial de Controle Antidoping (WADA). O exame teria apontado que a substância contaminada com o esteroide drostanolona era um líquido azul que o lutador havia tomado para melhora de desempenho sexual.

Felipe Rau/Estadão

Felipe Rau/Estadão

O problema é que a defesa do “Spider” não tinha nenhuma prova disso, porque não levou o resultado para o julgamento. Quem tomou a palavra para sustentar a tese foi um homem chamado Paul Scott, que disse ter no currículo passagem profissional entre 2004 e 2006 por um laboratório credenciado pela WADA. Porém, os comissionários da NAC ficaram enfurecidos ao saber que Scott trabalhara como representante comercial da empresa e não como um real especialista na área, como seria o caso de um médico ou cientista.

Para piorar, a defesa de Anderson reclamou mais de uma vez da tradutora que a NAC escolheu para falar em inglês o que o atleta dizia em português. Empresário do “Spider” e fluente em ambas as línguas, Ed Soares assumiu a função, mas ele claramente acrescentava informações ao discurso que seu cliente acabara de fazer. Em suma, o lutador disse que tomou uma espécie de Cialis (estimulante sexual) muito antes do combate e que não avisou à comissão porque isso não era da conta de ninguém; que o produto foi dado a ele por um amigo chamado Marcos Fernandes, que mora na Tailândia e de lá trouxe o frasco (depois disso, disse que conhecia Fernandes há menos de um ano); que deliberadamente tomou ansiolíticos para minimizar uma crise de insônia na véspera do evento e que não informou a NAC no questionário pré-luta porque este foi entregue antes de ele tomar os remédios.

A coleção de inconsistências ficou completa quando um médico, consultado por telefone pelos comissionários, disse que o Cialis sai do organismo de uma pessoa em no máximo uma semana, informação que fez Anderson repentinamente lembrar que o tomou o líquido na semana da luta e por isso a drostanolona apareceu no teste feito em 31 de janeiro. Findada a defesa, os representantes da NAC chegaram ao consenso de que 12 meses era uma pena justa não só pelo caso de doping, mas porque sentiram que não foi dita a verdade no julgamento. A praxe para um réu primário costuma ser a de nove meses de gancho.

Parabéns ao Anderson Silva e a seu estafe, que conseguiram arranhar a imagem de um atleta que chegou a gozar de certa idolatria no Brasil. Sabe-se que este é um País que pouco se importa com um esporte que não seja o futebol, a não ser no caso de vitórias inquestionáveis acompanhadas de um status ilibado. Suspenso por uso de doping, Anderson não é mais campeão e não vence um combate desde outubro de 2012. O “Spider” não vai cair completamente no esquecimento porque ele é um dos maiores da história de sua modalidade, mas, aos 40 anos, caminha para um fim de carreira muito menos brilhante do que se imaginava há alguns anos.

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