Anderson Silva vs. Nick Diaz, A Guerra do Clones

Anderson Silva vs. Nick Diaz, A Guerra do Clones

Fernando Arbex

02 de fevereiro de 2015 | 16h08

Anderson Silva apresentou dificuldades para derrotar Nick Diaz na luta principal do UFC 183, na madrugada de domingo, 1,  em combate equilibrado pela atuação segura de ambos os atletas. Apesar das conhecidas provocações, o norte-americano evitou se expor aos contra-ataques, tirando do “Spider” seu plano A. É claro que o tempo inativo, a pressão pela vitória em seu retorno e um possível trauma por voltar a atuar depois de uma grave lesão podem ter sido fatores determinantes. Porém, no auge da forma, o brasileiro vencia Patrick Cotê em confronto morno até o canadense se machucar, em outubro de 2008, no UFC 90. Naquela vez e agora, Anderson não teve o contra-ataque a seu favor.

Crédito: Steve Marcus/Getty Images/AFP

Crédito: Steve Marcus/Getty Images/AFP

Lutadores têm na estratégia preferida sua zona de conforto e o que Anderson gosta de fazer é contra-golpear. Evidentemente que ele é um atleta do mais alto nível e versátil o suficiente para se adaptar, tanto é que o fez e saiu vitorioso. Por outro lado, Diaz reclamou tanto de Carlos Condit três anos atrás, mas acabou também por evitar assumir muitos riscos em um embate desfavorável de estilo, ainda que em alguns momentos tenha tentado impor seu ritmo característico.

Diaz provoca para tirar Anderson de seu jogo

“Não tenha medo, mano”. Eu escrevi dois textos antes do UFC 183. Em Anderson Silva: O Império Contra-Ataca, eu apresentei as características do lutador brasileiro, um contra-golpeador nato, que chama os adversários para uma armadilha com chutes nas pernas e provocações. Em seguida, em Nick Diaz é uma ameaça a Anderson Silva?, comentei do estilo agressivo do norte-americano, de seu boxe baseado mais no volume do que no poder e de sua inabilidade em cortar espaços e de defender chutes nas pernas.

O que se viu efetivamente foi o contrário, como se os rivais estivessem clonando as características do outro. Anderson de fato começou circulando, mas esperava por chances de encaixar golpes de encontro que não vinham. Diaz era o provocador e aquele que chutava a perna do oponente para chamá-lo para o combate  – na soma de suas últimas sete lutas ele não havia acertado tantos golpes na perna de um rival quanto os 27 contra o brasileiro. O atleta norte-americano perseguia o “Spider” pelo octógono, mas sem tomar tanto a iniciativa, sua intenção era fazer que brasileiro o atacasse.

Anderson toma a iniciativa do ataque

“Don’t be scared, homie” – ou “Não tenha medo, mano”, na tradução para o português – é uma frase pela qual Diaz ficou conhecido, em uma oportunidade em que ele entrou na arena de combate para pedir uma revanche contra KJ Noons, que o havia vencido anteriormente no finado evento EliteXC. Na luta principal do UFC 183, a impressão que deu foi que ambos os atletas estavam receosos. Diaz não queria dar a Anderson o contra-ataque, enquanto o brasileiro preferia preservar a vantagem nos pontos construída round após round.

Diaz mostrou menos volume do que de costume

Fuga do clinch. Não é a característica principal de Anderson, mas sua qualidade na luta em pé é inquestionável. Quando se sentia confortável, ele pressionava Diaz e o empurrava contra a grade para agredi-lo. O brasileiro não encontrou uma brecha como a dada por Vitor Belfort quatro anos atrás, por isso tentou voltar a utilizar uma velha tática de avançar para pegar o oponente no clinch de muay thai, o que surpreendentemente não deu certo.

Diaz é golpeado, mas escapa do clinch de muay thai

Diaz em várias lutas anteriores se permitiu ser pego no clinch ao abaixar a cabeça e deixar a nuca exposta, de modo que rivais a agarravam com as mãos para acertá-lo com joelhadas. Apesar da desvantagem física, o adversário de Anderson pareceu ter vindo muito bem preparado para se defender dessa técnica do brasileiro, sempre conseguindo fazer postura, quebrando a pegada das mãos e ele próprio se aproveitando da posição para desferir socos.

Com o passar dos rounds, Anderson foi se soltando e encaixando jabs seguidos de combinações de socos, atacou com pisões na articulação do joelho (à la Jon Jones), passou a desferir chutes com a perna esquerda – a que ele havia fraturado 13 meses atrás – e preferiu não correr riscos desnecessários em um combate que nunca pareceu fugir ao controle. Diaz até ameaçou o brasileiro, conectou bonitas sequências de socos que miravam o corpo e a cabeça do ex-campeão dos médios, surpreendeu com a quantidade de chutes que jamais havia desferido antes, mas com certeza perdeu quatro assaltos e só conseguiu deixar um deles em dúvida.

Anderson passou a chutar mais com o passar dos rounds

Recuperado da fratura, Anderson chuta Diaz com a perna esquerda

Futuro. Anderson chorou depois do anúncio de sua vitória, voltou a falar em aposentadoria, mas deve continuar lutando. Aos 39, ele tinha uma disputa por título prometida na divisão dos médios caso vencesse no UFC 183, mas sua atuação não tão brilhante e nova lesão do campeão Chris Weidman – que botou em modo de espera o confronto com Vitor Belfort e travou a categoria dos médios – podem obrigar o “Spider” a atuar pelo menos mais uma vez antes de tentar reconquistar o cinturão. E é até melhor que seja assim.

A Diaz restou reclamar e dizer por aí, de novo, que achou ter ganhado uma luta que os juízes viram de forma diferente (acredito que não por acaso ele tenha prescrição médica no estado norte-americano da Califórnia para o uso de medicinal de maconha). Dito isso, gostaria muito de vê-lo tentar escalar o ranking dos meio-médios de novo, pelo menos pegando um wrestler antes de novo combate pelo cinturão.  A atuação contra Anderson foi uma das melhores da carreira do norte-americano no sentido estratégico, apesar de vir de três derrotas seguidas, Diaz tem qualidade para estar entre os melhores de sua divisão se estiver focado na carreira.

Demais lutas. Thiago Alves sofreu, mas superou o habilidoso Jordan Mein com um belo chute na linha média que pegou o canadense circulando.  Se parar de ser machucar e pegar ritmo, “Pitbull” pode voltar a ser um top da categoria e até disputar o título dos meio-médios de novo.  A evolução de Thales Leites na luta em pé é evidente, mas contra Tim Boetsch talvez ele tenha encontrado seu limite. Felizmente para o carioca ele teve em seu excepcional jiu-jitsu um escape para vencer um combate complicado e prosseguiu com a sua escalada em busca de outra chance pelo cinturão dos médios.

No mais, John Lineker se despede com vitória da categoria dos moscas, infelizmente ele provou que não consegue bater o peso; o passivo Tyron Woodley sofreu para derrotar Kelvin Gastelum, que entrou desgastado pela falha tentativa de entrar no peso dos meio-médios na noite anterior e Al Iaquinta deu outra demonstração de quão bem treinados são os lutadores da equipe Ray Longo/Matt Serra – a mesma de Chris Weidman -, vencendo o sempre empolgante Joe Lauzon por nocaute técnico.

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