Conor McGregor cai na real, Nate Diaz dá show e Miesha Tate é campeã

Conor McGregor cai na real, Nate Diaz dá show e Miesha Tate é campeã

Sobrou emoção nas lutas principais do UFC 196, em que o polêmico irlandês perdeu pela primeira vez no octógono e um título mudou de mãos

Fernando Arbex

08 de março de 2016 | 06h06

Conor McGregor teve um duro encontro com a realidade no último sábado, quando foi finalizado por Nate Diaz na atração principal do UFC 196. O confronto pela divisão dos meio-médios – embora tenha praticamente sido um duelo de leves, porque não houve corte de peso – deixou claro que o irlandês planejava dar passos maiores que suas pernas e é inacreditável que o Ultimate tenha bancado tamanha sandice. Tivesse o campeão dos penas vencido, o que até era possível, a ideia era de colocá-lo para disputar o título dos meio-médios, em posse de Robbie Lawler, o que seria injusto com os demais atletas da categoria e até perigoso para a saúde de McGregor.

Só o jiu-jitsu salva? Crédito: Rey Del Rio/Getty Images/AFP

Só o jiu-jitsu salva? Crédito: Rey Del Rio/Getty Images/AFP

Realidade. Mas por que o irlandês fracassou contra Diaz? Alguns fatores foram listados aqui no último post. Primeiro, a diferença física foi um fator importante. Mais alto e com maior envergadura, o norte-americano conseguia de longe acertar golpes, principalmente com jabs no corpo e no rosto, além de um interessante gancho de direita quando conseguia se esquivar e girar para o lado direito. Além disso, Diaz teve ampla vantagem no clinch, recurso que utilizou enquanto ainda perdia o combate e também depois de já estar em vantagem.

Bom jab de Diaz no corpo de McGregor

Outra razão aqui comentada foi a do fato de este ter sido um encontro de canhotos. Em um duelo de canhoto contra destro, a mão de trás dos lutadores é a que mais facilmente acerta o rival. McGregor está acostumado a enfrentar destros e o uso de sua mão direita seria determinante contra Diaz. Porém, o campeão dos penas seguiu fiel ao seu punho esquerdo, que acertou o adversário diversas vezes no primeiro assalto, mas não foi o suficiente para lhe garantir o triunfo. Há de se registrar também que foi muito mais fácil para o norte-americano fazer uso eficaz dos socos de direita porque essa já é uma arma recorrente em seu jogo e ele tinha vantagem de envergadura.

Um problema desconhecido para McGregor que se viu foi a falta de uma estratégia apropriada. Sério que você vai entrar em uma luta contra um dos irmãos Diaz achando que vai nocautear facilmente? Esse filme já foi visto e revisto em apresentações de Nick e Nate: eles aguentam muita pancada, começam devagar e crescem durante o combate porque sabem aos poucos minar a energia dos oponentes. Eles se baseiam no volume. Diaz perdeu o primeiro round e saiu ensanguentado, mas levou vantagem quando houve clinch e acertou jabs no corpo do irlandês.

Plano correto. McGregor com sinceridade acredita naquela ladainha que sua mão esquerda pode nocautear qualquer um, e Diaz poderia muito bem ter caído apagado após algum soco muito bem posto, mas a verdade é que a estratégia certa era a de chutar a perna direita do oponente até vê-lo mancar. É isso que se deve fazer contra um cara que já lutou contra rivais muito maiores, só sofreu um KO em mais de dez anos de carreira e não bloqueia golpes na perna de jeito nenhum.

O começo do fim para McGregor

O irlandês deu bons pisões no joelho do rival (gif), mas faltaram os chutes circulares que Rafael dos Anjos e Ben Henderson, por exemplo, deram na coxa do norte-americano. A base de luta do campeão dos penas não é exatamente adaptada para isso, mas não seria algo muito difícil de ajustar, até porque ele deu esse golpe uma vez no primeiro assalto.

Até pela desvantagem de envergadura – o que aconteceu pela primeira vez para McGregor no Ultimate – o irlandês poderia ter mirado seus chutes rodados no corpo do adversário, em vez de ter tentado sempre a cabeça, e poderia ter investido mais em um gancho muito bem aplicado no tronco de Diaz no segundo round. Preferiu lançar dezenas de fortes golpes com a canhota, escolha essa que contribuiu para que acabasse seu gás muito cedo no combate. Tentar derrubar um faixa preta desse gabarito foi puro desespero e viu-se que McGregor não tinha nível para isso. Tomou uma guilhotina com a qual foi brilhantemente raspado, sofreu a montada, foi golpeado na cara, ofereceu as costas, foi socado uma vez mais e rapidamente deu os tapinhas de desistência.

Diaz não teve dificuldades no chão

Sinceramente, seria covardia vê-lo contra um cara do tamanho de Robbie Lawler, um lutador que já competiu na divisão dos médios e desidrata um bocado para bater 77,1 Kg. Não só isso, o campeão dos meio-médios não teria vantagem de envergadura, mas também é canhoto e usa a mão da frente, a direita, como poucos. E McGregor com esse jiu-jitsu teria de rezar para não ser derrubado por Rafael dos Anjos, se esse combate for remarcado. O campeão dos penas até raspou Diaz no fim do primeiro assalto, mas o norte-americano em momento algum se preocupou em estabilizar o controle por cima e aceitou fazer guarda quando teve sua perna puxada e caiu sentado. O irlandês que defenda seu cinturão.

209. Diaz fez seu jogo muito bem conhecido e deu certo. A verdade é que é muito divertido vê-lo lutar, embora ele tenha falhas que provavelmente não o permitirão alcançar um título algum dia. Menos mal ele ser um showman, porque hoje ele lidera o ranking de bonificações pós-luta ganhas no UFC, com 14 prêmios conquistados em 22 apresentações no octógono. Ele também chegou a nove triunfos por finalização no Ultimate e, assim, se aproxima do recordista Royce Gracie, que tem 11.

Assumido usuário de maconha e adepto de um estilo marginal, características herdadas do irmão Nick, Nate ainda deu show na entrevista pós-luta. “Eu não estou surpreso, filhos da puta”, disse a Joe Rogan, refutando a tese de que era a zebra do combate, mesmo aceitando a luta com dez dias de antecedência – e ele tem certa razão. Pior para o comentarista Jon Anik, que prometeu que tatuaria na bunda o número 209, prefixo de Stockton, a cidade natal dos irmãos Diaz.

Holm vs. Tate. Miesha Tate finalmente conquistou o título da divisão feminina dos galos do UFC, após ser dominada e passar sufoco nas mãos da ex-campeã. Holm até pouco depois da metade do quinto round fazia uma ótima luta, com a única falha de ter sido derrubada no segundo assalto e castigada pela oponente no ground and pound. Se ma primeira vez ela conseguiu defender o mata-leão, o mesmo não aconteceu faltando 1min30 para o fim do duelo.

Tate, no geral, é inferior a Holm, mas há uma frase famosa no mundo da luta: “só o jiu-jitsu salva”. Hoje em dia todo mundo treina o jogo de chão o suficiente para pelo menos se defender. e em muitos casos esse ditado não passa de palavras vazias, mas a verdade é que a ex-campeã precisa de mais horas de prática. Em vez de aceitar a queda e fazer guarda para se defender, tentou se livrar e deu as costas no processo. Falta de confiança em seu grappling, talvez.

Bom para Tate, que encaixou o estrangulamento ainda em pé e é a mais nova dona do cinturão – o problema, porém, é que primeira defesa será contra Ronda Rousey, que foi humilhada por Holm em novembro, mas até aqui já derrotou a nova dona do título por duas vezes.

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