Conor McGregor é o pote de ouro do UFC

Conor McGregor é o pote de ouro do UFC

A estrela irlandesa vai enfrentar neste domingo outro adversário com estilo favorável às suas características de luta

Fernando Arbex

13 de janeiro de 2015 | 21h34

Eu não vou fazer uma análise técnica do Conor McGregor porque o mestre Fernando Cappelli acabou de publicar uma e está muito boa, fica aqui a indicação. O meu ponto é que “The Notorious” (O Notável ou O Notório) encara neste domingo um desafio que não vai colocar fim a algumas interrogações, uma vez que Dennis Siver é um bom adversário, mas apenas outra luta estilisticamente conveniente ao irlandês. Antes que dispute o cinturão, dificilmente essas dúvidas terão resposta, já que o Ultimate o protege por ser um produto comercial de valor.

Divulgação

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McGregor pode vencer José Aldo? Podemos falar sobre isso no futuro, mas esse parâmetro não é justo com o provável futuro desafiante, o campeão da categoria dos penas é considerado o segundo melhor lutador peso por peso da atualidade. A questão central é que o atleta europeu vem tendo sua fama alimentada por vitórias sobre strikers atrás de strikers, e o que ele próprio é? Um striker. E Siver? Outro striker.

Agora, o que exatamente é um striker? Este é um lutador especialista (ou supostamente especialista) em artes marciais que visam a troca de golpes traumáticos, como no boxe e no muay thai. McGregor apresenta uma postura bem mesclada de boxe com taekwondo, no MMA ele procura desenvolver seu jogo em pé para nocautear o adversário. E ele já se mostrou muito bom nisso, assim como em outra área: falar. O irlandês assume o estilo “ame-o ou deixe-o”, provoca todos seus possíveis oponentes (inclusive Aldo), puxa o saco dos patrões, exalta suas raízes nacionalistas e acaba por sua extravagância e carisma promovendo muito bem os seus combates.

McGregor é um nocauteador nato, um homem capaz de lotar arenas e estádios de futebol em seu país, tem boa abertura no mercado europeu e potencial para ser um ótimo vendedor de pay-per-view. Não é um duende leprechaun, mas vale um pote de ouro. Agora cabe uma explicação do porquê ele é tão importante. A Zuffa, dona do UFC desde que o comprou em 2001, reconstruiu a promotora de lutas à base de venda de pacotes de PPV nos Estados Unidos. Isso até o fim de 2011, quando a companhia intensificou seu processo de globalização da marca, passou a visitar muitos países e fechar contratos com emissoras de televisão locais, além do rentável acordo com a FOX norte-americana.

O Ultimate inundou o mercado com um número enorme de eventos, o que para o novo modelo de negócio da empresa foi um sucesso, mas viu recuar a quantidade de PPVs vendida (em 2014, a média foi a menor desde 2005). Há muitos cards ao longo do ano e não há material humano qualificado para esse tanto. Assim, edições ruins e transmitidas em TV aberta ou à cabo nos EUA são salvas por atletas de renome, mas isso desfalca aqueles UFCs de grande porte, diminuindo o apelo deles. Pior, o UFC 152 e o UFC 176 foram cancelados, uma vez que lesões perto de suas datas de realização resultaram no cancelamento das lutas principais. Como os demais combates eram desinteressantes, não havia outra saída.

Por exemplo, a volta de Anderson Silva em um embate contra o polêmico e vendável Nick Diaz se justifica apenas pelo critério comercial. Ambos são de categorias diferentes e vêm de duas derrotas seguidas. Mas se o PPV render bem, que mal tem? Esse trunfo falta ao ex-campeão peso-leve Frankie Edgar, um competidor do mais alto nível, mas que não possui um estilo de luta plástico, é pouco capaz de promover eventos e já inclusive foi derrotado por Aldo. Para piorar, o duelo entre os dois não foi muito emocionante e em nenhum momento o campeão foi ameaçado, há pouco interesse nessa revanche.

Edgar é mais merecedor que McGregor, mas o UFC não é uma organização preocupada em promover lutas de MMA respeitando justiça e meritocracia. Até por isso o irlandês vem enfrentando adversários favoráveis estilisticamente. Marcus Brimage e Max Holloway são dois strikers, Diego Brandão e Dustin Poirier são dotados de um jogo de chão muito bom, mas raramente buscam a queda por terem preferência pela luta em pé – tudo o que “The Notorious” deseja. Oponentes capazes de derrubá-lo e controlá-lo no solo ou finalizá-lo? Não, deixa para outro momento, muito obrigado.

McGregor tem 16 vitórias e duas derrotas na carreira, ambos reveses aconteceram há mais de quatro anos, nas duas oportunidades ele foi derrubado e rapidamente cedeu a submissões. Provavelmente ele treinou muito wrestling e jiu-jítsu desde então, mas isso faria dele hoje capaz de se manter em pé contra especialistas em quedas ou se defender de finalizações contra bons jiu-jiteiros? Impossível dizer se ele não os enfrenta. Certo é que, apesar de o irlandês ser um rival mais imprevisível e criativo do que Edgar, até para Aldo esse confronto é um bom e lucrativo negócio. O manauara já reclamou de seus rendimentos, embora ele tenha pouco apelo de venda nos EUA, esse duelo pode ser o impulso que falta para Aldo decolar no mercado de PPV.

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