Dan Henderson, um vencedor nato

Dan Henderson, um vencedor nato

Aos 45 anos, lutador norte-americano volta a São Paulo para terceiro duelo com Vitor Belfort, em uma de suas últimas apresentações na carreira

Fernando Arbex

05 de novembro de 2015 | 08h06

É curioso quando surge um atleta, seja de que modalidade for, muito bem sucedido e que carece de grande variedade e sofisticação técnica. Que o MMA ainda está longe de ser frequentado apenas por competidores brilhantes eu acho que todo mundo já sabe, mesmo o UFC – teoricamente a primeira divisão – oferece combates sofríveis de se assistir ou mesmo aquelas que são divertidas, mas não passam de brigas de bar com grife. Talvez aproveitando-se dessa lenta evolução de seu esporte que Dan Henderson emergiu e se consolidou. O norte-americano, que neste sábado vai lutar no Ginásio do Ibirapuera, não se trata de um primor, mas não dá para negar que ele é uma lenda.

“Hendo” ostenta seus cinturões: vencedor do GP dos meio-médios (até 83 Kg) do Pride, campeão meio-médio (até 83 Kg) e médio (até 93 Kg) do Pride e campeão meio-pesado (até 93 Kg) do Strikeforce

Histórico. Ex-atleta olímpico do time dos Estados Unidos da luta greco-romana, nos Jogos de 1992 e 1996, “Hendo” apareceu em junho de 1997, no ainda dito Vale-Tudo, competindo e vencendo um torneio com limite de peso em 80 Kg do Brazil Open 97, organizado em São Paulo. Em seguida, bateu os jiu-jiteiros Allan Goes e Carlos Newton no GP para atletas abaixo de 90 Kg do UFC 17 e depois rumou ao Japão para construir sólida carreira no Rings e no Pride.

Hoje aos 45 anos, o homem começou a competir em 1997, depois de já ter disputado duas Olimpíadas, e ainda está em atividade. Se em um primeiro momento seu wrestling foi o suficiente para neutralizar grapplers e strikers, Henderson rapidamente notou que algo habitava sua mão direita, o que podemos chamar de poder. Peso por peso, é difícil encontrar quem bata mais forte do que Dan Henderson, não por acaso o apelido do seu soco é “H-Bomb”. O golpe nuclear do norte-americano é de fato impressionante, o que intriga é quão longe ele foi na carreira tendo não muito mais do que isso.

Tim Boetsch foi a última vítima do veterano

Eficiente. “Hendo” foi um wrestler olímpico, mas a adaptação de sua modalidade de origem para o MMA já chegou a ser boa, mas nunca foi brilhante e foi piorando com o passar dos anos. O norte-americano trabalhou para se tornar um nocauteador – e conseguiu -, mas sua técnica em pé não deixa de ser pobre e, mais do que tudo, previsível. No chão, é possível dizer que o lutador detém boa capacidade para se livrar de finalizações, mas grappling é muito mais do que isso e ele nunca demonstrou grande evolução – sempre foi uma tartaruga de costas para o solo e pouco capaz de passar guardas quando esteve por cima. Por fim, sua maior virtude defensiva é sua reconhecida capacidade de absorver golpes.

Fica até chato eu listar tanta característica negativa de um homem que tem conquistas em três divisões de peso (até 84 Kg, até 93 Kg e sem limite) distribuídas em quatro organizações de respeito (UFC, Rings, Pride e Strikeforce). Mas, só para não deixar passar, Henderson contou também com uma boa quantidade de decisões polêmicas – para não dizer equivocadas – de juízes a seu favor, como contra Newton, Rodrigo “Minotauro”, Murilo Bustamante, Murilo Rua, “Shogun” Rua e há quem argumente alguma(s) outra(s).

Então o que o permitiu ter tanto sucesso? Sendo bem sucinto: mão pesada, queixo duro, muito treino, raça e competitividade. Está aí um homem que quer e sabe vencer. Para resumi-lo melhor, (re)lembremos abaixo uma imagem que qualquer um que minimamente acompanha MMA já viu, o nocaute que Henderson aplicou em Michael Bisping.

Onde falta refinação, sobra eficiência. O atleta inglês erra em circular para o lado esquerdo, “Hendo” usa como finta seu chute baixo com a perna da frente e solta a “H-Bomb” para atingir em cheio o exposto queixo do desafeto – e depois mergulha para dar mais um golpe em um corpo praticamente oco àquela altura. Esse é Henderson, basicamente. Ele fica quase de lado para o adversário, posicionando sua perna esquerda à frente para apertar o gatilho do soco e girar o quadril, que é o que vai dar mais potência ao ataque. O norte-americano é praticamente “monogolpe”, mas muitas vezes isso lhe bastou.

O inofensivo jab foi finta suficiente para “Feijão” não perceber o soco telegrafado

Dá para lembrar de outros momentos da carreira do veterano: depois de um soco de direita no vazio, ele usou o balanço do corpo para nocautear Wanderlei Silva com a mão esquerda (gif); o norte-americano se aproveitou da afobação de Fedor Emelianenko para invertê-lo de posição antes de batê-lo no queixo (gif); o veterano virou uma luta que parecia perdida contra “Shogun” ao acertar o curitibano na saída de um clinch (gif).

Fim da linha. Como eu disse anteriormente, “Hendo” é uma lenda e sabe como vencer um combate. Não acho que isso acontecerá no sábado, quando ele volta a competir em São Paulo, desta vez em um terceiro confronto contra Vitor Belfort. Talvez o norte-americano se aproveite de uma possível má fase do brasileiro, que parece finalmente estar competindo sem drogas no corpo (falaremos disso na sexta-feira), mas a tendência é que Henderson perca esse confronto pela categoria dos médios (até 84 Kg) – o ex-campeão do Pride sempre apresentou dificuldades em enfrentar strikers canhotos.

“Hendo” perdeu cinco de suas últimas sete lutas e mesmo seu queixo já não parece ser o que era antes, inclusive Belfort foi o responsável pelo primeiro nocaute sofrido pelo norte-americano, em combate realizado há dois anos. Não veremos Henderson competir muito mais vezes, e não há o que se lamentar pelo aspecto técnico, mas é triste se despedir de um vencedor nato.

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